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Maioria dos inquiridos em estudo apresentam ansiedade meteorológica pós-Kristin

Quase seis em cada dez pessoas ficaram emocionalmente afetadas pelas tempestades. A maioria dos inquiridos sentiu uma perturbação elevada ou extrema na sua rotina diária.

Agência Lusa
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Mais de metade dos inquiridos num estudo para avaliar o impacto da depressão Kristin no distrito de Leiria reportou ansiedade meteorológica elevada ou extrema, com medo de novos alertas e tempestades, revelou o investigador Ricardo Cavadas.

Na parte relativa ao impacto no bem-estar pessoal decorrente da tempestade, que ocorreu há quatro meses, o estudo, que obteve 688 respostas válidas do distrito de Leiria, revelou que 61,4% dos inquiridos “reportaram impacto elevado ou extremo no risco para a integridade física própria ou da família durante a crise”.

Já 58,5% assumiram “impacto elevado ou extremo no bem-estar emocional”, enquanto 55,8% “ansiedade meteorológica elevada ou extrema”, com medo de novos alertas e tempestades, e “54,2% tiveram perturbação elevada ou extrema na rotina diária”.

“A Kristin não foi apenas um evento de danos materiais. Foi uma experiência traumática para uma parte muito significativa da população. Quase seis em cada dez pessoas ficaram emocionalmente afetadas e mais de metade mantém ansiedade elevada face a novos alertas meteorológicos. Isso é uma ferida que ainda não fechou”, alertou Ricardo Cavadas.

Denominado Sistemas de resposta a crises, impacto da tempestade Kristin, o estudo do Instituto Politécnico de Leiria, através do Centro de Investigação Aplicada em Economia e Gestão (CARME, na sigla em inglês), sediado na Escola Superior de Tecnologia e Gestão, está a ser desenvolvido por Ricardo Cavadas, investigador principal, Alzira Marques, coordenadora científica, e ainda o professor António Carrizo.

Na secção relativa aos danos na habitação e na vida económica, Ricardo Cavadas explicou que “sete em cada dez pessoas, ou seja 71,4%, reportaram danos moderados a totais na sua habitação” e quase 10% relataram “perda total da habitação”.

Já 40% dos inquiridos (Leiria, Marinha Grande e Pombal tiveram a maior taxa de resposta) comunicaram “danos moderados a totais na atividade profissional” (comércio, indústria, agricultura) e um terço “perdas de rendimento moderadas a totais”, prosseguiu.

Daqueles que sofreram danos na habitação, 23,3% não tinham qualquer seguro” e, “entre os que perderam rendimento, 40% não tinham seguro para essa situação”, esclareceu o docente do Politécnico de Leiria, precisando que “um quinto dos afetados tinha cobertura total para os danos em habitação”.

“Grande parte da população enfrentou a tempestade sem rede de segurança financeira”, alertou, antecipando uma “lenta recuperação económica”. Já no que se refere à privação de infraestruturas, “quase um terço [dos inquiridos] ficou cinco semanas ou mais sem comunicações” e mais de metade “sem eletricidade durante mais de duas semanas”. Esta “foi uma crise que demorou não dias, mas algumas semanas a recuperar no caso das infraestruturas”, adiantou Ricardo Cavadas.

Solidariedade pós-Kristin como motor de resiliência

Para o investigador, “o fator que mais fortemente determinou a acumulação de redes de apoio, confiança interpessoal e capital social foi a solidariedade entre cidadãos, vizinhos, famílias, comunidades que se organizaram espontaneamente”.

“Mais do que qualquer intervenção institucional medida, foi a entreajuda que sustentou a recuperação” após a depressão Kristin, referiu, destacando que as “instituições devem aprender a apoiar e amplificar essa solidariedade, não a substituir”.

“As pessoas confiaram nas instituições através do seu líder local. Em alguns casos, quando a liderança foi percebida como fraca ou ausente, as pessoas deixaram de confiar. Portanto, aqui houve um forte impacto na liderança, na confiança”, declarou Ricardo Cavadas, explicando que “a comunicação contribuiu também para a confiança, mas ficou muito aquém”.

Neste aspeto, recordou que “as pessoas ficaram sem comunicações e toda a comunicação que foi feita foi, essencialmente, no digital”. “A informação não chegou à população em tempo útil e baixou muito a confiança que a população teve nas instituições“, observou, defendendo que “as instituições terão de pensar noutro tipo de comunicação, noutro tipo de formação à população antecipadamente às catástrofes ou, quando houver uma catástrofe, de que forma podem comunicar sem estarem totalmente dependentes do digital”.

O recurso à distribuição de folhetos porta a porta ou a passagem de carros com megafones “a explicar às pessoas o que é que se está a passar, o que é que elas devem fazer”, são exemplos. “A informação a que eu cheguei é que as pessoas ficaram sem saber aquilo que deveriam fazer”, sublinhou o professor do Politécnico.

Outra conclusão, relativa à qualidade de vida e sustentabilidade, notou que “as comunidades com redes de apoio mais sólidas durante a crise reportaram melhor qualidade de vida e perspetivas mais positivas de sustentabilidade”, mas, pela negativa, observou que “a falha dos seguros alimenta a fragilidade económica”.

“Os dados de privação e cobertura de seguros corroboram este resultado: grande parte das famílias afetadas não tinha proteção financeira adequada. A recuperação económica não depende apenas da solidariedade, depende de mecanismos formais que, neste caso, falharam ou estavam ausentes”, acrescentou o investigador na área do marketing social.

Entre as recomendações preliminares do estudo está a necessidade de “formar líderes para crises”, assim como a necessidade de “redesenhar a comunicação de crise, para ser bidirecional e resiliente à falha de infraestruturas”, referiu o investigador.

Ricardo Cavadas acrescentou ainda a importância de “apoiar e mapear onde é que está a solidariedade comunitária” e a resolução da lacuna dos seguros. “Com 40% das famílias com perda de rendimento sem qualquer cobertura de seguro, qualquer política de resiliência económica que não aborde esta lacuna está incompleta”, sustentou.

Concluída a fase quantitativa, o estudo vai prosseguir com entrevistas a várias entidades, desde autarquias ao Governo, da Proteção Civil a responsáveis de empresas de infraestruturas essenciais, incluindo instituições que visam a solidariedade e forças de segurança, prevendo-se a conclusão em setembro. Os resultados vão ser partilhados com as autoridades locais e nacionais.