O pedagogo mais influente do mundo é brasileiro. Aliás, embora também eu seja brasileiro, não estou-me a fanfarronear, assim como não me gabo de Lula ou Bolsonaro. Pelo contrário: se não for pedir muito, quem me dera que os três fossem marcianos (embora mais pareçam lunáticos).
De acordo com a bibliometria do Google Scholar e do Web of Science, Paulo Freire é o terceiro autor académico mais citado de sempre no campo das ciências sociais – perdendo apenas para Marx e Foucault (antes mal acompanhado do que só…). Conceitos grotescos de Freire entronizaram-se como axiomas marmóreos nas faculdades de pedagogia. A Universidade da California patrocina o Paulo Freire Institute, e a Assembleia Estadual desse estado que é o mais populoso e rico dos EUA aprovou uma lei instituindo a obrigatoriedade da “pedagogia do oprimido” no currículo de 10 mil escolas públicas, que atendem a 6 milhões de alunos do ensino secundário.
Quando Freire morreu em 1997, aos 76 anos, tinha títulos de doutor honoris causa de 41 instituições universitárias, incluindo Oxford, Harvard, Cambridge e a Universidade de Lisboa. Embolsou o prémio UNESCO de Educação para a Paz, e o prémio rei Balduíno para o Desenvolvimento Africano. A antiga presidente Dilma Rousseff nomeou o aldrabão Patrono da Educação Brasileira (o que explica muita coisa, sobretudo o estado da Educação Brasileira).
Freire nasceu no Recife, onde estudou (mas não concluiu) na Faculdade de Direito. Depois do golpe militar de 1964, pisgou-se para a Bolívia. Em 1975, conseguiu aplicar pessoalmente as suas ideias de jerico, e a incauta cobaia foi a Guiné Bissau, independente de fresco. Quando Freire desembarcou em Bissau, o país adotara um regime marxista-leninista, sob a liderança do PAIGC. O guru vinha a convite de Luís Cabral, meio-irmão e sucessor de Amílcar Cabral, e do comissário da Educação, Mário Cabral (tendo em conta que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral, a coisa toda já soa um bocado cabalística).
Foi uma campanha de alfabetização que só pode ser descrita como cartilha ideológica. O programa concentrou-se em oito “temas nacionais”, incluindo produção, defesa, educação, cultura e trabalho, arengando mantras revolucionários de Amílcar Cabral. Numa aula para jovens educadores no Centro Máximo Gorki de Formação de Professores da Guiné-Bissau, Freire pontificou que qualquer falha na educação era sempre uma falha política – noção que é obviamente uma falha educacional.
O resultado foi um fiasco cósmico. Segundo os registos oficiais, o Departamento de Educação de Adultos verificou que, dos 26 mil participantes da parvoeira de Freire ao longo de três anos, quase nenhum alcançou a alfabetização básica, capaz de rabiscar, sei lá, “O meu nome é Zé”. O miasma obscurantista foi tão tóxico que, 50 anos depois, ainda hoje metade dos adultos guineenses são analfabetos (entre as mulheres, 69%).
Como errar é humano e ninguém é perfeito, Freire encolheu os ombros e vendeu o seu peixe em pleno covil do capitalismo mundial: os EUA. E aí as coisas correram melhor (para ele, não para os alunos indefesos). Na insigne Harvard (a melhor universidade do planeta, segundo o Academic Ranking of World Universities), foi pesquisador do Centro Para a Educação e o Desenvolvimento, e lá cometeu o livro “A Pedagogia do Oprimido”, traduzido para 25 idiomas e que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares.
Apesar de ser a bíblia da pedagogia atual, naquela obra Freire não cita qualquer educador canónico – nem Rousseau, nem Pestalozzi, nem Piaget nem Maria Montessori, por exemplo. Mas cita embevecidamente Marx, Lenine, Rosa Luxemburgo, Mao-Tsé-Tung (“a Revolução Cultural foi a solução mais genial do século”), Fidel Castro e Che Guevara (“a encarnação da utopia”).
No Brasil, quase toda a gente é manteigueira servil de Paulo Freire, mas quase ninguém leu uma vírgula dele. Admito que não é um passatempo apaixonante, mas engoli em seco e percorri estoicamente as 256 páginas de “A Pedagogia do Oprimido”. O autor compara “ler o mundo” e “ler a palavra”. Para Freire, é muito mais desejável que uma criança seja capaz de “ler a sociedade” do que “ler um livro”- ou seja, é mais porreiro “decodificar a injustiça” do que “decodificar letras numa página”.
Segundo o neurologista francês Stanislas Dehane, – professor no Collège de France, autor de Les neurones de la lecture e a mais consensual autoridade contemporânea na aprendizagem humana da linguagem, os métodos pelos quais aprendemos a ler criam tipos específicos de vias neurais. A fonética cria um tipo, enquanto a “pedagogia crítica” cria outro. Dehaene demonstra como a via fonética é incomparavelmente mais célere e neurologicamente muito mais eficaz.
Se não é indiscrição, então que raio é a tal pedagogia de Freire? OK, tirem as crianças da sala e respirem fundo. Antes das aulas, os educadores freireanos espreitam a vida e a linguagem dos seus futuros alunos. Irão encontrar (e quem procura, acha) um certo número de palavras-talismã do quotidiano (“gerativas”), que serão usadas quer para “problematizar” a experiência quer para a alfabetização “descolonizada”. Tais palavras (como “favela” ou “riqueza”) irão sugerir temas sociais “em torno dos quais a consciência pode ser despertada” – Freire designa tal etapa por “a criação de um código”. Trata-se de reciclar numa compostagem política cada conceito clássico de uma disciplina académica.
Exemplo? Numa aula de matemática convencional, um professor apresenta o problema: “A Maria tem 5 rebuçados. O José, 15. Quantos rebuçados a Maria e o José têm no total?” Agora reguemos o ketchup freireano: “O João tem 5 rebuçados. O José, 15. Como isso atesta a necessidade urgente de redistribuir a riqueza e desmantelar o patriarcado opressor e acumulador de rebuçados?”
Pronto, talvez a questão não seja formulada literalmente assim. Mas o mestre exortará os alunos a refletirem sobre como a Maria sente-se por ter menos rebuçados que o José (crise de saúde mental, tendências suicidas), porque isso é injusto (sexista), o que ditou essa situação opressiva (capitalismo) e o que pode ser feito a respeito (revolução a rodos). Com sorte, ao final da aula a turma quem sabe pode até ter aprendido que 5 + 15 = 20, embora — e Freire sublinha isso — tal assimilação deva ser considerada puramente secundária (o que ele chama “educação bancária”). O que interessa é a iniciação na seita ideológica.
No melhor estilo estalinista, a pedagogia do oprimido reescreve sofregamente a história. Mais de uma geração de ocidentais já foi induzida a perceber a escravidão como algo que afetava apenas os negros — uma exploração racialmente motivada, inventada pelo homem branco. Todos os problemas das comunidade negra são unicamente um legado inexorável da escravidão – o que gera inevitável ressentimento e fratura social. Como pergunta o pensador afro-americano Thomas Sowell: porque impingir uma visão descontextualizada da história, inviabilizando a conclusão de que escravidão não é uma questão exclusivamente negra; que sempre fez parte das sociedades humanas de todas as eras; que milhões de brancos, vermelhos e amarelos também foram escravizados; e que a própria palavra “escravo” deriva de “eslavo” (“sclavus” em latim medieval), um povo ruivo e de olhos claros, escravizado em massa durante a Alta Idade Média?
Porque ensinar que a escravidão era uma questão estritamente afro-americana, quando era mais velha do que a minha avó e existiu em África, na Ásia e na Europa, seja muito antes, seja muito depois do (sem dúvida, odioso) tráfico transatlântico? Resposta: porque não se trata de ensinar um fato histórico, mas sim que só o Ocidente foi esclavagista. E também é tabu mencionar que se todas as civilizações cometeram a infâmia da escravidão, a ocidental foi a única a tomar a iniciativa de aboli-la – e de obrigar as outras a fazerem o mesmo, a partir do século XIX (especialmente a Inglaterra, e especialmente cristãos – como William Wilberforce).
Nos EUA, freireanos promovem oficinas de «treinamento ativista». Dividem as crianças na sala de aula pela cor da pele, e dizem às brancas: «Devem sentir-se culpadas. Devem sentir vergonha. Deve sentir-se responsáveis por crimes cometidos por pessoas que se parecem convosco, embora ainda nem tivessem nascido e talvez nem os vossos pais ou avós.» E ao outro lado da sala: «Devem sentir raiva. Devem querer vingança pelos crimes perpetrados no passado contra pessoas que se pareciam convosco, por pessoas que se pareciam com os vossos colegas do outro lado da sala.” Moral da história: em pleno século XXI, os EUA voltam a ter escolas segregadas num regime do apartheid – contra o qual um Martin Luther King lutou e foi assassinado aos 39 anos.
Bem, o que não falta a esses Torquemadas do racialismo é pilim – obsequiado pelo Ocidente sacana. O site do Fórum Econômico Mundial, notório pelo piquenique anual de plutocratas e colunáveis em Davos, Suíça, contém vários ensaios de Paulo Freire. Em vida, Freire – alucinadamente anticapitalista – foi regiamente apoiado pelas maiores entidades filantrópicas dos EUA, como as fundações Ford, Rockfeller e Carnegie.
Hoje as comunidades precárias de Buffalo, Filadélfia, Baltimore, Detroit e outras cidades americanas contam com principescos orçamentos para a pedagogia crítica, além de uma abundante casta “pós-colonial” de Presidentes de Câmara, membros do Conselho Municipal, chefes de polícia e promotores públicos, todos freireanos de gema. O Buffalo Public Schools e o School District of Philadelphia, por exemplo, dispõem de verbais anuais superiores a 30 mil dólares por criança, muito mais do que a despesa média mundial em educação, incluindo países como Dinamarca, Noruega e Suécia. Todavia, os resultados são pífios. Em Buffalo, apenas 18% dos estudantes negros alcançam a proficiência elementar em inglês e 13% em matemática. Na Filadélfia, 27% e 11%, respectivamente. Ou seja, a maioria dessas crianças sai da escola funcionalmente analfabeta e incapaz de contar sem os dedos das mãos – a não ser que seja para obter o orwelliano resultado de “1984”: 2 + 2 = 5.
Por qualquer parâmetro racional, o prestígio pedagógico de Paulo Freire em pleno século XXI é estarrecedor. “A Pedagogia do Oprimido” deveria jazer naquelas fossas sépticas que tratam esgoto, e não em tabernáculos ateus. Os ídolos de Freire (Lenine, Estaline, Gramsci, Mao, Guevara) revelaram-se sociopatas fanáticos que evisceraram as suas sociedades em nome de utopias distópicas. E os governos que ele instruiu e monitorou mais de perto – Angola, Moçambique, Tanzânia, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e El Salvador – acabaram por exorcizar o marxismo-leninismo e o partido único, e procuraram, por vezes furtivamente, esgueirar-se para uma economia de mercado e um regime pluralista.
Mas burro velho não aprende línguas. Bem depois da queda do Muro de Berlim, Freire ainda perorava contra a “democracia burguesa”. Pouco antes do último suspiro, minimizou as atrocidades do estalinismo como acidentes que acontecem nas melhores famílias, e não intrínsecas ao totalitarismo.
Em Harvard, Freire influenciou Derek Bell, que por sua vez foi o mentor de Kimberly Crenshaw, a mãe do conceito de interseccionalidade (ou as Olimpíadas da opressão). Daí o dogma de que as características da experiencia são socialmente construídas por dinâmicas de poder entre grupos (pois claro que não existem nem o individual nem o universal), ditadas por sexo, raça ou género. E através de maquinações institucionais os opressores subjugam os marginalizados. O corolário besta é o imperativo moral de desconstruir tais dinâmicas revolucionariamente.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal acaba de revogar uma lei do estado do Espírito Santo que autorizava os pais a impedir os filhos de participarem em aulas sobre identidade de género. A lei, de 2025, conferia autonomia aos pais de alunos de escolas públicas e privadas daquele estado, mas foi declarada inconstitucional pelo STF. É hierarquia freireana institucionalizada, através do controlo das ideias e da hegemonia cultural.
Por outro lado, no mais recente PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, da OCDE, que analisa o desempenho de jovens de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências), o Brasil ficou em 57º lugar entre 77 países, e 43% dos adolescentes brasucas não alcançaram o nível mínimo de competência naquelas três áreas. É Paulo Freire no seu melhor (que é do piorio).
Dantes os bons professores acreditavam que o seu papel era ensinar os alunos a pensarem pela própria cabeça, a partir de informação rigorosa transmitida com prós e contras – pois, como já dizia Esopo, ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não posso ensinar. A pedagogia do oprimido fulmina tal noção obsoleta. Ensina apenas o que os estudantes têm que pensar, e pronto.
Ainda bem que o que Paulo Freire diz não se escreve (na medida em que os seus alfabetizados continuam analfabetos). Para não dizer que não elogiei nada dele: o couro cabeludo dos estudantes freireanos fica um brinquinho, com tanta lavagem cerebral. E sem nenhum peso na consciência, com tanta cabeça oca.