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Montenegro rejeitou ser "lebre" na corrida surda com (Passos) Coelho: "Somos corredores de endurance"

Montenegro negou condicionamentos ao relatório do SIRESP e assumiu-se "insatisfeito" com apoios no pós-tempestades. Mas a maior oposição veio de fora, com as críticas de Passos na véspera.

Mariana Lima Cunha
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Rita Tavares
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Na célebre fábula em que uma lebre e uma tartaruga se enfrentam numa corrida que a última acaba por ganhar, com um passo lento mas seguro, Luís Montenegro não quereria fazer de lebre. Foi essa a garantia que o primeiro-ministro quis deixar num debate quinzenal que aconteceu um dia depois de Pedro Passos Coelho ter aparecido e, ao lado de André Ventura, criticado a falta de “ritmo” do Governo. Ouvindo a mesma crítica das oposições, no que toca às suas prometidas reformas ou aos problemas na Saúde ou na Habitação, Montenegro explicou a sua estratégia: é um corredor “com endurance”, que não “sprinta nos primeiros cem metros”. Ou seja, quis dizer que ainda terá muito para mostrar (mesmo que Passos não acredite).

A oposição parlamentar também não acreditou e pressionou o primeiro-ministro com temas quentes e polémicas recentes. Desde logo, a do SIRESP, com Montenegro a garantir que o relatório sobre o sistema que tantas dores de cabeça tem dado a sucessivos governos será divulgado, e que não houve nenhuma tentativa de “condicionar” o seu resultado (ao lado, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, acenava com a cabeça, irritado). Depois, com o relatório de António José Seguro sobre as tempestades, que acabou por levar Montenegro a confessar-se “muito insatisfeito” com os atrasos no processo — atribuindo a maior parte da culpa às autarquias “exauridas”.

Num debate cheio de referências a banda desenhada — Lucky Luke seria José Luís Carneiro, Speedy González seria André Ventura, Luís Montenegro foi descrito como um Peter Pan da política e Hugo Soares mereceu a comparação a Cebolinha, da Turma da Mónica — o Governo acabou por ser acusado em vários momentos de viver uma fantasia e de descolar da realidade, em que “os portugueses estão pior”, seja graças ao custo de vida ou às dificuldades na Saúde.

Passos Coelho voltou, mas Montenegro dispensa ser “a lebre”

Depois de na véspera Pedro Passos Coelho ter disparado o seu mais violento ataque contra o Governo (sem nomear, falou de políticos “postiços” que imitam os populistas e ficam como “prostitutos sem caráter”), neste debate a oposição parecia particularmente inspirada nas metáforas envolvendo “coelhos”.

Primeiro foi André Ventura, que tinha estado ao lado de Passos no evento da véspera e que comparou Hugo Soares à personagem de banda desenhada Cebolinha, que “costuma roubar coelhos”, o que provocou risos nas bancadas da oposição e até do PSD. Depois, Fabian Figueiredo, do Bloco de Esquerda, avisou Montenegro, lembrando a história do “coelho vaidoso” que, negando a realidade, acaba por perder a corrida contra a lebre. E Paulo Raimundo, do PCP, fez uma referência mais direta ao próprio Passos, que numa conversa com Ventura gravada pelas televisões criticava o “ritmo” a que o Governo anda, constatando a “impaciência” das pessoas – para desmantelar o SNS ou destruir os direitos dos trabalhadores o ritmo acelera, ironizou Raimundo.

Já Montenegro queixou-se de ser “preso por ter cão e preso por não ter”, reconhecendo vagamente o ataque do antigo aliado Passos: “Há os que dizem que dizem que temos um ritmo demasiado lento ou demasiado rápido, mas somos corredores com endurance. Para chegar à meta não se pode sprintar nos primeiros tempos nem ir demasiado devagar”.

Adotando a mesma teoria político-desportiva, assegurou que num cenário de corrida não será, como diz a fábula, a “lebre”, sem gastar a sua energia toda “nos primeiros 100 metros de uma corrida de fundo” – isto é, está a contar governar durante mais tempo e não consegue entregar já todos os resultados que lhe são exigidos, incluindo pelo antigo líder do PSD.

Montenegro assume-se “muito insatisfeito” com apoios no pós-tempestades

O relatório encomendado pelo Presidente da República sobre a resposta ao comboio de tempestades está longe de ser simpático para o Governo e aponta uma série de problemas – incluindo um défice de articulação e um excesso de improviso – que boa parte da oposição quis levar ao Parlamento, para confrontar Montenegro.

“Quem tem razão? O Presidente ou o primeiro-ministro?”, atirava, a certa altura, Fabian Figueiredo, do Bloco. Montenegro evitou discutir os reparos concretos de Seguro e quis queimar etapas, arrumando o assunto rapidamente: os problemas na resposta explicam-se por o fenómeno ter sido inédito; o relatório é um “contributo muito válido” que está “praticamente todo incluído” no conteúdo do PTRR, para ter em conta no futuro.

Já quando foi acusado, particularmente por André Ventura, de falhar nas respostas e apoios à população, assumiu mais falhas – também está “muito insatisfeito” com o processo, reconheceu – mas responsabilizando as autarquias. O Governo delegou tarefas nas autarquias porque confia nelas, disse, embora seja verdade que estas estão “exauridas de trabalho e dedicação e não têm conseguido dar resposta a tudo”. “Também estou muito insatisfeito. Mas a parte mais diretamente relacionada com o Governo, que era disponibilizar verbas, elas estão depositadas nas CCDR. Não tem razão em falar de falhanço. Pode ter em dizer que não houve ainda capacidade de resposta da administração pública como um todo”.

Questionou outros números apontados por Ventura: o apoio às empresas, frisou, já cobriu mais de 90% das candidaturas apresentadas; as linhas de crédito à tesouraria e recuperação das empresas tinham volume global de 1886 milhões de euros e já foram atribuídos 1717 milhões. “Não sei a que se refere quanto às centenas de empresas a aguardar decisão, porque isso não é verdade, atira,”, dizendo que só sobram “200 e qualquer coisa” empresas sem resposta (duas centenas, portanto). E defendeu-se argumentando que apesar da simplificação de procedimentos tem de haver “o mínimo de controlo”.

SIRESP. Montenegro diz que desconhece condicionamentos na divulgação do relatório

Hugo Soares já tinha feito uma intervenção, pouco depois do debate começar, a adivinhar que temas a oposição – que acusava de ficar na “espuma dos dias” – traria ali. Entre eles estava o SIRESP. Hugo Soares não errou, a oposição levou mesmo ao debate a polémica em torno do relatório desconhecido sobre o sistema, do nome repescado para o conselho de administração (Viegas Nunes) e da demissão do adjunto do secretário-geral do Ministério da Administração Interna. O foco maior foi mesmo no relatório e na forma como o ministro apresentou, com André Ventura a acusar Luís Neves de ter “tentado ocultar informações”.

Sentado na bancada do Governo, o ministro acenava que não, com a cabeça, e o primeiro-ministro garantia que Luís Neves irá ao Parlamento prestar todos os esclarecimentos. Disse também, numa resposta a Mariana Leitão, da IL, que “o relatório ser-lhe-á endereçado para poder fazer a avaliação”.

Disse “não ter conhecimento de nada” sobre condicionamentos relativos ao relatório,  refugiando-se num “foi divulgado nos termos das suas conclusões” – que é precisamente aquilo que a oposição diz que é tudo o que se sabe sobre o relatório do grupo de trabalho que avaliou o sistema de comunicações de emergência do Estado. De várias bancadas (sobretudo IL e Chega), os deputados atiravam o investimento público que já foi feito no SIRESP – 800 milhões de euros – para reclamarem transparência E ainda ouviu Ventura dizer que voltar a chamar Viegas Nunes para a presidência do Conselho de Administração do SIRESP é “premiar a incompetência”, apontando para os problemas do sistema, mas Montenegro defendeu o escolhido para voltar ao cargo.

Incêndios. Oposição alerta para preparação e Montenegro garante que está tudo a postos

Com os termómetros fora do plenário com temperaturas mais elevadas do que é habitual para a época, lá dentro os partidos dispararam perguntas sobre meios para combater os fogos e medidas de prevenção para a época, antecipando o pior. E Montenegro assumiu que o risco este ano “aumenta significativamente em função das consequências das tempestades”.

O debate arrancou logo com Isabel Mendes Lopes do, Livre, a avisar que “há falta de preparação e improviso” nesta matéria e terminou com Inês Sousa Real, do PAN, a alertar que as polémicas à volta do SIRESP podem “marcar negativamente o que neste momento tem de ter resposta eficaz no combate aos incêndios”.

Pelo meio, Luís Montenegro fez questão de disparar alguns números, para provar ação preventiva no terreno e o “empenhamento reforçado numa época que se antecipa especialmente difícil” –  “teremos 15.149 operacionais, 3.463 veículos, 2.596 equipas nos corpos de bombeiros e na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil”. De José Luís Carneiro ouviu que contará com o PS para os momentos críticos. Será um tema que, seguramente, voltará a estes debates.

Críticas ao “zombie” laboral, Ventura insiste na moeda de troca

Passaram dez meses desde que a negociação sobre o pacote laboral que começou, e no Parlamento só se ouvem apelos para que não passe daqui. A esquerda, previsivelmente, continuou a pedir a Montenegro que deixe a reforma cair: o Bloco de Esquerda descreveu-a como um “zombie legislativo”, o PCP falou numa “rejeição generalizada” e num pacote cuja aprovação depende de uma eventual “cambalhota” do Chega.

E o Chega, que é de facto o único partido que ainda pode trazer uma reduzida esperança de que a reforma veja a luz do dia, falou para insistir nas críticas e reafirmar a sua (semi) linha vermelha. Primeiro, classificou a reforma como “má para o país” e “péssima para quem trabalha”. Depois, garantiu que os portugueses querem mesmo que se desça a idade da reforma em Portugal.

Montenegro foi fazendo a defesa do seu pacote: lembrou que o Governo esteve quase dez meses a negociar na concertação social, atacando os deputados por não quererem que traga o assunto ao Parlamento, em vez de “quererem assumir a sua responsabilidade”; defendeu que essas alterações levarão a que os salários subam e o trabalho seja mais produtivo, para que o país não fique “impávido e sereno a assistir a taxas de crescimento económica comprimidas”; e acusou a esquerda de se mostrar “imobilista”.

“É mentira que haja na reforma laboral a diminuição dos direitos das mães, maior capacidade de despedimento e alteração dos horários de trabalho”, atirou, enquanto o Livre o aconselhava a reler a própria proposta. No Parlamento, Montenegro não conseguiu, nesta matéria, nenhum avanço.

Saúde. A disputa sobre quem fez menos

No dia seguinte à apresentação das suas linhas gerais para a Saúde, José Luís Carneiro tentou trazer o tema ao debate, dizendo que nesta área há “um falhanço clamoroso do Governo”. Apontou sobretudo ao número de consultas que desceu – “são menos 2 mil por dia”, disse – e pressionou Montenegro a reconhecer que “errou” ao prometer uma resolução rápida de todos os problemas no sector – uma promessa da campanha eleitoral da AD que o PS sempre contestou. Foi sem surpresa que, do lado de lá da bancada, Montenegro não concedeu e enumerou os feitos na saúde da sua era, da “reorganização” na ginecologia e obstetrícia à “reforma das urgências regionais” e preferiu destacar outros dados do setor, que não os das consultas, apontando para os 172 mil atos por dia prestados pelo SNS e o aumento em 5% das consultas médicas ao domicílio. E ainda entrou em despique com um PS que acha que teve “um sucesso estrondoso” nesta área: “Não teve.” É tema inacabado, com o Presidente da República a promover, neste momento, um diálogo interpartidário nesta área, com vista a um Pacto.

O momento B.D.: Do Lucky Luke ao Cebolinha

Não foi propriamente um debate intenso ou colorido, mas Hugo Soares bem tentou, ao levar para a discussão personagens da animação para fazer comparações com os líderes partidários. Ao acusar a oposição de ser meramente reativa a notícias da comunicação social, o líder parlamentar do PSD recorreu a dois desenhos animados: José Luís Carneiro era o Lucky Luke e André Ventura Speedy González. “Vivem na espuma dos dias, das notícias que aparecem nos jornais, não esperam para ver se são verdadeiras e disparam imediatamente”, disse o social-democrata.

Claro que o número não ficou por aquela bancada e alastrou rapidamente ªa do Chega, onde André Ventura falou logo a seguir para comparar Hugo Soares ao Cebolinha, da Turma da Mónica: “O Cebolinha, que nunca fazia nada de novo mas queria ser sempre o maior da rua dele, fazer tudo para desviar a atenção dos outros, incluindo roubar coelhos.” Era, para Ventura, como Soares que tinha ido ali “como se fosse algum valentão da verdade mas mostrou que é só uma muleta do Governo”. E líder do Chega não ficou por aqui e, pouco depois, quando atacava Montenegro pelas comparações com a economia alemã, chamou-lhe Peter Pan, “porque vive na Terra do Nunca”. Do alto do plenário, o presidente da AR, José Pedro Aguiar Branco, tentava os ânimos da sala que se agitava com estas tiradas, reduzindo-as a um “momento humorístico”.