Dois funcionários da TAP que entraram na companhia aérea nacional em 1990 juntaram-se a um colega que trabalhou na companhia aérea venezuelana Plus Ultra, que está agora no centro do caso judicial que investiga o ex-chefe do Governo espanhol José Luis Zapatero. Os três, coordenados por um ex-DJ venezuelano amador que, a partir de uma garagem num subúrbio de Londres, conseguiu montar um esquema assente no furto de cerca de 60 mil peças à TAP e a várias companhias de aviação portuguesas — a venda do furto rendeu-lhes uma receita de cerca de 7,9 milhões de euros.
Este é o resumo de uma associação criminosa liderada por José Yrala aka DJ ‘Santa Militia’, o ex-DJ que terá entregue contrapartidas superiores a 1 milhão de euros a três portugueses para os convencer a fornecer as peças furtadas, juntamente com certificados técnicos falsificados.
O Observador teve acesso ao despacho de acusação contra ‘Santa Militia’ e os seus cúmplices portugueses.
O DJ ‘Santa Militia’ e um ex-funcionário da companhia aérea venezuelana do caso Zapatero
No centro deste caso está um cidadão venezuelano que se naturalizou inglês, Jose Yrala. Foi DJ e produtor musical em Caracas até 2011, tendo imigrado para Londres para entrar no circuito da música techno na capital inglesa. O seu nome artístico era ‘Santa Militia’.

Abandonada a carreira de DJ, Yrala começou a atuar como comerciante de peças de aeronaves. O seu local de trabalho era original: a garagem da sua casa na zona do Surrey, perto da área metropolitana de Londres. E a partir de 2015 fundou uma empresa, a AOG Technics Limited, para vender peças a companhias de aviação civil de componentes para motores de aviões Airbus e Boeing.
Problema? Segundo o MP, Jose Yrala queria vender “peças e componentes obtidos ilicitamente” com a colaboração de terceiros (os arguidos Gonçalo Trinchante, Amândio Geada e João Almeida) que as retirariam dos armazéns das respetivas empresas. Os arguidos também falsificavam a exigente documentação aeronáutica que certificava as respetivas peças.
Entre 2015 e 2023, a AOG Technics Limited terá faturado cerca de 6,9 milhões de libras (cerca de 7,9 milhões de euros ao câmbio desta quarta-feira), vendendo mais de 60 mil unidades de componentes aeronáuticos “com documentação falsa” a cerca de 40 companhias aéreas de aviação civil, inclusive à TAP Air Portugal. Ou seja, Yrala tinha cúmplices que furtavam peças da TAP, peças que eram revendidas à mesma TAP.
Gonçalo Trinchante e Amândio Geada entraram os dois em 1990 para a TAP Air Portugal e ambos trabalhavam na área de gestão de stocks de material e peças aeronáuticas. Trinchante ficou na TAP e, a partir de 2020, passou para a área de logística operacional, trabalhando diretamente com a compra de material utilizado em reparações da frota da TAP. Já Geada saiu para a Air Luxor em 2002, passou pela Mesa (Manutenção e Serviços de Aeronaves) e acabou na Hi Fly — uma empresa da família Mirpuri — a partir de 2023. Sempre na área da logística e de compras de peças aeronáuticas.
Geada tinha acesso a uma das portas de acesso pedonal ao armazém da Hi Fly, no Seixal. Trata-se de uma área com 10 mil metros quadrados que tinha todo o material em stock daquela empresa aeronáutica — material ao qual Geada tinha “acesso descontrolado e sem qualquer monitorização”.
A importância da certificação das peças aeronáuticas?
O mercado de aviação civil é um mercado fortemente regulado a nível global, seja por razões de segurança, seja por razões de confiança dos consumidores. Por exemplo, a comercialização de peças e componentes (novos ou em segunda mão) obedecem a requisitos de segurança muito apertados, de forma a que exista uma certificação de aeronavegabilidade que inspire confiança. Logo, cada peça implica a emissão de certificados que asseguram a respetiva identificação e segurança.
Uma das componentes importantes do plano de Jose Yrala e dos seus cúmplices passava pela falsificação ou manipulação de tais certificados de aeronavegabilidade. Daí, todos os arguidos terem sido acusados de vários crimes de falsificação.
O terceiro arguido é João Almeida e chegou a trabalhar na Plus Ultra Líneas Aéreas — a companhia aérea venezuelana que está no centro do caso Zapatero, ex-chefe do Governo espanhol, que está indiciado pelos crimes de organização criminosa, tráfico de influências, falsificação de documentos e branqueamento de capitais. Almeida trabalhou em 2016 naquela empresa, muito antes do polémico resgate de 53 milhões de euros concedidos pelo Governo de Pedro Sánchez. Depois da Plus Ultra, Almeida passou para a Gowair Vacations Airlines, onde esteve no departamento de compras e logística.
Jose Yrala começou por conhecer Amândio Geada em 2015 em circunstâncias não apuradas, sendo que terá sido Geada a apresentar Gonçalo Trinchante ao antigo DJ ‘Santa Militia’. De acordo com a ficha da TAP localizada no computador de Yrala, apreendido pelas autoridades britânicas e transmitida a Portugal, a empresa portuguesa estava referenciada assim: “Check Stock, They Go Everywhere” (Confirmar o stock, vai para todo o mundo). Já João Almeida entrou no grupo a partir de 2017 — um grupo que o próprio Yrala designava como “big family” (uma grande família). Tanto que Almeida e Trinchante estiveram no casamento de Yrala, que se realizou em Palma de Maiorca.
A “subtração” de componentes dos armazéns da TAP e os emails entre “camaradas”
Segundo a acusação do MP, o esquema operava num ponto cego da logística: a área de receção de sobrantes da TAP Maintenance & Engineering (M&E). Situada num dos topos do armazém, esta zona teria um acesso facilitado por uma porta habitualmente fechada apenas com o trinco e sem qualquer controlo de acessos.
Como técnico de planeamento de compras no armazém de rotáveis, o arguido Gonçalo Trinchante tinha acesso à receção de material e aos stocks das peças da companhia aérea. Era ele o responsável por dar entrada do material sobrante, componentes que, embora requisitados para reparações, acabavam por não ser instalados nos motores.
Mas até que esse registo fosse feito, o sistema mantinha a indicação de que as peças tinham sido efetivamente aplicadas na frota. É por isso que, para os procuradores, esta fase do percurso dos componentes na TAP M&E proporcionava uma “baixa rasteabilidade” das peças: a confirmação de que uma peça voltara ao armazém dependia da inserção manual dos dados no sistema pelo próprio funcionário da receção.
Sem um inventário físico rigoroso, que cruzasse os dados com as fichas de manutenção da oficina, a subtração do material era indetetável. E terá sido precisamente “esta desconformidade entre a informação constante do sistema informático e a realidade” — que se “pretendia temporária”, reforça o MP — que “permitiu a Gonçalo Trinchante apropriar-se de material diverso, que era entregue na área da receção, para devolução ao armazém, ficando a constar do sistema informático da TAP M&E que aquele material havia sido utilizado, em conformidade com requisição existente, e aplicado no motor a que se destinava”. O que, “na verdade, não ocorrera”, lê-se no despacho de acusação.
Realizada a “subtração”, Trinchante levava os componentes para casa, de onde eram depois enviados para o Reino Unido. Segundo a acusação, Jose Yrala criava digitalmente declarações alfandegárias que simulavam uma “transferência interna de inventário” entre Lisboa e Londres, enviando-as a Trinchante para acompanhar as encomendas.
Eram estas peças, sustenta o MP, que a rede revendia mais tarde a várias empresas e à própria TAP, de onde tinham sido subtraídas. A acusação sustenta-se em vários emails trocados entre os dois, nos quais Yrala pedia a confirmação de stock disponível a Trinchante ou solicitava que o funcionário da TAP “obtivesse” os componentes pretendidos. “Era ainda usual Gonçalo Trinchante enviar a Yrala listagens nas quais identificava componentes que tinha na sua posse, identificando-os como stock”, referem os procuradores.
Nas comunicações eletrónicas citadas no despacho, no dia 14 de maio de 2019, Jose Yrala reencaminhou um pedido da Ethiopian Airlines para Gonçalo Trinchante através do endereço de ‘Santa Militia’. Na mensagem, o empresário britânico questionava o funcionário da TAP: “camarada, tienes algo de esto? Tiene de ser solo en NEW condition”. Noutro email, enviado a 25 de junho, em que Gonçalo Trinchante remetia a Yrala um certificado relativo a um lote de 350 unidades de um componente de motor emitido pela Safran Aircraft Engines, o técnico da TAP limitou-se a escrever: “em anexo camarada”.
O despacho de acusação assinala ainda uma coincidência temporal: durante os anos em que o arguido geriu o armazém, no período compreendido entre pelo menos 2015 e 2022, o “registo dos sobrantes no sistema informático passou por períodos de grave acumulação de material”.
Os PDFs forjados com documentação real da TAP (e com um designer gráfico)
Além do “acesso concreto” às peças aeronáuticas, havia outra peça fundamental a que o funcionário da TAP tinha igualmente acesso: a documentação que acompanha cada componente ao longo da sua vida útil.
Na indústria da aviação, uma peça sem este ‘bilhete de identidade’ é sucata. Para ser vendida a empresas certificadas, o material precisa de apresentar documentos que atestem a sua segurança e aeronavegabilidade — algo impossível de oferecer com material furtado.
Ou quase, já que, segundo a tese do MP, a atuação conjunta entre Gonçalo Trinchante e Jose Yrala permitiu que a AOG Technics operasse como um fornecedor credenciado, conseguindo vender o material subtraído ilicitamente.
No processo, os certificados comercializados pela empresa de Yrala eram, na verdade, “meras cópias (…) digitalmente manipuladas” de componentes da TAP. Em alguns casos, os documentos seriam criados de raiz a partir de ficheiros PDF editáveis partilhados pelo funcionário da TAP ou através de formulários concebidos por um designer gráfico, contratado por Yrala em abril de 2020.
Os campos alterados incluíam:
- Datas dos certificados;
- Números de peça;
- Quantidades de peças produzidas ou comercializadas;
- Números de Work Orders (ordens de trabalho) e de contratos;
- Form tracking numbers atribuídos pelos fabricantes originais (OEM).
Entre as cópias de documentos que Gonçalo Trinchante terá enviado ao britânico, constam formulários de certificação de aeronavegabilidade EASA Form 1 e certificados da autoridade norte-americana FAA, além de notas de envio, termos de receção e notas de inspeção de componentes.
À semelhança dos pedidos de stock de componentes, Jose Yrala contactava Trinchante por email, enviando-lhe pedidos de confirmação sobre a disponibilidade de documentação utilizável ao longo do processo de venda e expedição, mencionando as quantidades pretendidas, de acordo com o despacho de acusação do processo.
O “pagamento dos africanos”, a “pirataria” e o “estudasses”: as mensagens com a mulher “Xixi”
Segundo a tese da acusação, Gonçalo Trinchante não só geria o fluxo de material sobrante na área da Receção da TAP M&E como gostava de manter a sua mulher, Isabel Cristina Faria — ou “Xixi”, na alcunha que lhe dá — informada sobre o dia de trabalho e o progresso dos seus ganhos.
Esta dinâmica é descrita pelo MP através de mensagens recuperadas do telemóvel de Trinchante. Num dos diálogos via WhatsApp, datados de março de 2019, o funcionário envia à mulher uma fotografia sua em plena área de receção com o comentário: “O p… que trabalhe”. De seguida, remete mais cinco imagens onde se visualiza a acumulação de componentes e documentação que aguardavam devolução ao armazém. A 23 de janeiro de 2023, ainda enviaria fotografias da mesma receção à mulher, com a legenda: “Tás a ver, em dois dias ninguém mexeu em nada”.
Para os procuradores, as conversas recuperadas são reveladoras não só da logística, mas também dos benefícios financeiros que o esquema garantia ao arguido. A acusação destaca uma troca de mensagens de agosto de 2019, período em que a AOG Technics fornecia material à companhia aérea Ethiopian Airlines.
Nesse diálogo, Trinchante detalha a entrada de valores e celebra a liquidação de uma fatura com uma referência direta à origem do dinheiro: “Entrou o pagamento vindo dos africanos”. Na mesma conversa, acrescentava: “Muito many”, “Tem que abater [na] casa” e “Daqui por 30 dias mais 55.000 euros”.
Em novembro do mesmo ano, noutra troca de mensagens entre o casal, após o funcionário da TAP confirmar que estava “td [tudo] tratado”, Isabel Faria respondeu com a palavra: “Pirataria”. A resposta de Trinchante: “Estudasses”.
Os clientes de topo: American Airlines, Air France, Iberia. E claro, a TAP
O MP acredita que entre 2015 e 2023, a empresa de Jose Yrala vendeu mais de 60 mil unidades de componentes suspeitos, gerando uma receita aproximada de 6,9 milhões de libras (perto de 8 milhões de euros) — cerca de 90% da faturação total da empresa.
Um ficheiro recuperado no despacho de acusação detalha 319 fornecimentos relevantes a companhias aéreas; em 209 dessas encomendas, a “Trinchante Aviation” (empresa de Gonçalo Trinchante) foi o fornecedor real.
Entre os mais de 40 clientes figuram pesos pesados da aviação mundial como a American Airlines, Air France, Iberia e a Ethiopian Airlines. E, claro, a TAP Air Portugal. Só esta adquiriu 34.396 componentes, totalizando uma faturação de 1,4 milhões de dólares (cerca de 1,2 milhões de euros). Outros clientes listados incluem o Grupo HI FLY, o Grupo Mirpuri, a Qatar Executive.
A investigação nota que Jose Yrala utilizou a base de dados de contactos que reuniu enquanto trabalhou como comercial na GA Telesis UK para impulsionar o sucesso da rede.
As alegadas contrapartidas financeiras e as faturas por serviços de consultoria
O MP conclui que os arguidos Gonçalo Trinchante, Amândio Geada e Manuel João Almeida receberam fluxos financeiros e vantagens patrimoniais indevidas pelo favorecimento da AOG Technics.
Para remunerar Gonçalo Trinchante, Jose Yrala terá ordenado transferências que totalizaram 746.023 euros entre 2016 e 2022. A este montante somam-se outros pagamentos efetuados por sociedades que, segundo o MP, terão sido registadas e validadas artificialmente por Amândio Geada como fornecedoras da AOG (permitindo o pagamento das respetivas faturas):
- 34.504 euros liquidados pela Comet Air Support Limited;
- 47.454 euros transferidos pela Structural Evaluation Technologies Inc.;
- 31.800 euros pagos diretamente pelo coarguido Amândio Geada entre 2014 e 2016.
Por estes alegados factos, o MP requer agora que o arguido seja condenado a pagar 859.783 euros ao Estado.
No caso de Amândio Geada, o valor total reclamado pelo Estado fixa-se em 203.769 euros. Esta soma engloba 57.402 euros provenientes da AOG Technics, cerca de 60 mil euros da Comet Air Support Limited e verbas de menor dimensão de empresas como a Miami Aircraft Structures, Inc., a Structural Evaluation Technologies e a Aviation Spares, de acordo com a acusação. O MP destaca ainda o crédito de 42.890 euros numa conta conjunta com os seus pais, justificado falsamente como “cobranças de exportação”.
Quanto a Manuel João Almeida, o montante total apurado pela investigação fixa-se em 39.822 euros, aos quais acrescem 12.933 dólares (cerca de 11.100 euros). O valor alegadamente recebido em euros corresponde a transferências diretas da AOG Technics realizadas entre 2020 e 2022, enquanto a verba em dólares terá sido paga pela mesma empresa, entre 2018 e 2019, a título de agency fees (valores cobrados por agentes intermediários) baseadas em faturas emitidas pelo arguido.
Como o inglês foi preso em Inglaterra, com a empresa de funcionários fantasma
Jose Yrala foi detido em dezembro de 2023 no Reino Unido e condenado em fevereiro de 2026, pelo tribunal Crown Court at Southwark, a uma pena de quatro anos e oito meses de prisão efetiva pela prática de fraudulent trading. A acusação do MP nota que esta condenação não abrange os crimes de atentado à segurança de transporte por ar ou corrupção cometidos em território português.
A investigação da justiça britânica concluiu que a AOG Technics era uma fachada, cujos únicos funcionários reais eram Yrala, a sua mulher, o cunhado e a ama da família.
Mas para enganar clientes e auditorias, Yrala criou identidades e cargos inexistentes, como “Michael Klein”, pseudónimo que também usava na sua atividade como DJ, (com a função de sales manager), “Michael Smith” (quality manager) ou “David Stevens” (quality director).
Conforme noticiado pela Bloomberg, os documentos apresentados pelos procuradores ingleses revelam a estratégia de Jose Yrala para projetar uma imagem de prestígio e solidez com a AOG Technics. Antes de ser desativado, o site da empresa descrevia-a como uma “referência global no apoio à aviação”, simulando uma infraestrutura robusta com armazéns em Miami, Frankfurt, Singapura e Reino Unido. A fraude incluía até um selo de conformidade supostamente validado pela autoridade aeronáutica dos EUA (a FAA).
A investigação, no entanto, expôs o que se passava nos bastidores mais modestos da casa de Jose. De acordo com a acusação citada pela agência, a análise ao iPhone de Yrala revelou que o empresário procurou na internet métodos para camuflar edições em documentos PDF e investigou o desfecho judicial de outras companhias apanhadas a comercializar peças contrafeitas ou a falsificar certificados de aeronavegabilidade.
Do armazém “Lidl” às máscaras já amarelas aceites por um “puto tuga”: o alegado esquema para “martelar cenas” na HI FLY
À semelhança do esquema de desvio de componentes da TAP, outro eixo central da acusação assenta na atuação de Amândio Geada no Grupo HI FLY. Segundo o MP, o arguido subtrairia peças das empresas do grupo para as introduzir no circuito comercial através da R&A Aerospares, empresa dedicada à compra e venda de componentes para a aviação civil e que tem como sócios os filhos do próprio Amândio Geada e de João Marques.
É por esta razão que os procuradores acreditam que os empresários terão registado os próprios filhos como “testas-de-ferro”, na qualidade de sócios nominais da sociedade, mantendo, na sombra, a gestão de facto. Trata-se, aliás, de uma tese reforçada pelas palavras do próprio Amândio Geada que, em sede de primeiro interrogatório judicial, terá admitido que a gestão real da R&A Aerospares compete a si e a João Marques.
A naturalidade com que o alegado desvio de material era tratado transparece nas mensagens que constam do processo. Ambos os arguidos se referiam ao armazém da HI FLY, no Seixal, como o “Lidl” ou o “Jumbo”. Em vários diálogos, João Marques questionava se Geada “ia às compras”, ao que este respondia planeando levar o carro pessoal para “o encher” de componentes.
Nas conversas sobre a suspeita de falsificação de documentos, Geada gabar-se-ia junto do cúmplice da facilidade com que operava, descrevendo a sua secretária como um “poço” onde “nascem coisas” — numa alusão à criação de certificados de aeronavegabilidade, de acordo com a acusação.
Comprei velho, reparei, vendi a uns tipos que por sua vez venderam à empresa onde trabalho e por fim instalei no avião que ando a voar”, lê-se numa das mensagens enviadas por João Marques.
O MP relata ainda que a dupla terá chegado a planear a cópia integral dos manuais de logística da HI FLY, bastando depois a Marques substituir os logótipos pelos da R&A Aerospares.
A rack do forno tem escrito Hi Fly”, enviou João Marques. Ao que Geada responde: “por mim não tem crise”.
Para garantir que as manipulações não eram descobertas, Geada utilizaria o truque do “PDF Sujo”. Em mensagens, o arguido explicava que nunca enviava o ficheiro original, preferindo fotografar o documento para depois o converter novamente em PDF — um método que, crê a investigação, servia para impedir que o cliente detetasse alterações digitais. Esta lógica estender-se-ia à contabilidade: ao escolherem um software de faturação, João Marques terá sublinhado a necessidade de um sistema que permitisse “martelar cenas”.
Noutro dos episódios destacados pelos investigadores, é abordada a venda de máscaras de oxigénio à Qatar Executive. Nos registos intercetados, Marques relatou que o material estava velho e “amarelo”, mas que só terá sido aceite porque o funcionário que o recebeu era um “puto tuga” que confiou na palavra deles, evitando a devolução. João Marques remata: “O que nos vamos rir um dia sentados a beber vinho”.
(Texto atualizado às 00h15 com o subtítulo “Do armazém “Lidl” às máscaras já amarelas aceites por um “puto tuga”: o alegado esquema para “martelar cenas” na HI FLY”)