Quando o ministro da Economia falou, as gargalhadas ecoaram pela câmara. Carlos Cuerpo falava em “tolerância zero a qualquer tipo de comportamento ilegal” na Câmara dos Deputados, na manhã desta quarta-feira, precisamente o mesmo dia em que a Unidade Central Operativa (UCO), a unidade especial da Guardia Civil, executava buscas na sede do PSOE — apenas oito dias depois de o antigo presidente do Governo socialista José Luis Zapatero ter sido acusado de branqueamento de capitais e começado a ser investigado por suspeitas dos crimes de organização criminosa e tráfico de influências. “Que asco”, comentava na Câmara Juan Bravo, deputado do Partido Popular.
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Quando o secretário-geral do PP Miguel Tellado tomou a palavra, usou o simulacro que teria lugar em breve como metáfora: “Daqui a uns minutos vão ouvir sirenes. Não fiquem inquietos, não é a polícia. São os bombeiros. Transformaram o Congresso numa churrascada, é ver a quantidade de chouriços que ali há”, disse, utilizando a palavra chorizo que, em castelhano, tem como duplo sentido “ladrão”. Quando as sirenes tocaram, os deputados aproveitaram para afinar estratégias, como notou o La Vanguardia: “Entre pausas para o cigarro e pesquisas no telemóvel, foi permitido a uns e a outros recolocar as suas peças num tabuleiro político que não deixa de sofrer abalos.”

Vinte e cinco minutos mais tarde, os deputados voltaram a entrar na câmara — mas não todos. Como notou o ABC, grande parte dos parlamentares do PSOE e do Sumar (parceiro minoritário do Governo) não regressaram ao debate, nem a maioria dos ministros. “O ambiente na bancada socialista era, novamente, uma mistura entre choque e desânimo, mais de olhos postos no telemóvel e nas últimas notícias sobre as buscas do que propriamente no que ali se passava.”
Não é para menos. Com as diligências desta quarta-feira, são agora onze os escândalos judiciais que estão de alguma forma ligados ao PSOE. Alguns envolvem figuras próximas do próprio presidente do Governo, como a sua mulher Begoña Gómez (suspeita de tráfico de influências e corrupção) e o seu irmão David Sánchez (suspeito de prevaricação administrativa e tráfico de influências), cujo julgamento começa esta quinta-feira. A pressão política sobre o chefe do Executivo aumenta, com o PP a pedir a ida a eleições. O futuro de Sánchez, agora dependente dos seus parceiros parlamentares, é cada vez mais incerto.
María Leire Díez recebia quatro mil euros para gerir a operação de difamação. A rede para combater os escândalos judiciais que ensombra o PSOE
Ao contrário de vários dos outros casos judiciais que ensombram o presidente do Governo e que são, na sua maioria, focados em figuras específicas ligadas ao PSOE, o processo judicial que rebentou esta quarta-feira envolve o partido como um todo. Isso mesmo foi sublinhado pelo juiz responsável pela investigação, Santiago Pedraz, que escreveu no auto que autoriza as buscas que um dos principais suspeitos — o antigo número dois de Sánchez, Santos Cerdán — “pôs à disposição da rede criminosa a própria estrutura do partido”.
Tudo terá começado em 2024, precisamente quando rebentou o escândalo com a mulher de Sánchez, que levou o presidente do Governo a anunciar “um período de reflexão” sobre a sua permanência no cargo. Durante esse período, María Leire Díez Castro, a mulher no centro das suspeitas, terá enviado uma mensagem ao antigo presidente da Sepi (Sociedade Estatal de Participações Industriais, uma holding de empresas públicas do Estado que está também sob investigação) Vicente Fernández: “Vou de urgência a Madrid, o Santos [Cerdán] mandou-me ir. Temos informação que pode ajudar o presidente.”

Segundo a investigação, numa reunião no dia seguinte Cerdán terá decidido pagar a Leire Díez quatro mil euros mensais para dirigir a operação. Esta consistia numa campanha de difamação de juízes, procuradores e agentes policiais, bem como a oferta de dinheiro a algumas dessas figuras, de forma a combater os vários escândalos judiciais que ensombram o partido. Um dos exemplos citados no despacho refere um encontro entre Leire Díez e um empresário, em que a antiga militante do PSOE lhe diz “quero o Balas”; referia-se a Antonio Balas, um dos principais investigadores dos casos de Begoña e do caso Koldo, sobre quem Leire Díez queria informação comprometedora.
Ao todo, o partido terá pagado mais de 180 mil euros para manter o esquema a funcionar, através de faturas falsas passadas pela diretora de gestão do PSOE, Ana Fuentes. Os vários suspeitos estão agora acusados de organização criminosa, prevaricação, tráfico de influências e delito contra as instituições do Estado, entre outros crimes.
A partir do Vaticano, Sánchez promete resistir. “Os tribunais não se vão dar por satisfeitos se ele rezar três pais-nossos”
Ao longo da manhã desta quarta-feira, os deputados não puderam confrontar o chefe do Executivo sobre o que estava a decorrer na calle Ferraz, onde fica a sede do PSOE, porque Pedro Sánchez se encontrava no Vaticano, onde se reuniu com o Papa Leão XIV. Mas nem por isso pôde escapar ao escândalo, tendo de prestar declarações e responder às perguntas dos jornalistas a partir de Roma.
“O PSOE é um partido que não tem nada a esconder.” Sánchez garantiu que os socialistas irão colaborar com as autoridades, mas aproveitou para defender a gestora Ana Fuentes e ainda José Luis Zapatero. Quanto à possibilidade de se demitir e convocar eleições antecipadas, afastou-a definitivamente. “Há camaradas que evidentemente me pedem para antecipar as eleições, por terem consciência de que vou ter uma maioria parlamentar muito maior no Governo e no Congresso, para poder governar de forma muito mais tranquila”, começou por dizer em tom irónico. “Eu sei e agradeço, mas não posso convocar eleições por interesses partidários, tenho de convocar eleições pelo interesse geral dos cidadãos.”
Alguns desses “camaradas” são nem mais nem menos o histórico antigo presidente do Governo Felipe González e o autarca de Castela-Mancha Emiliano García-Page — este último decretou mesmo o momento atual como “o de maior risco para o PSOE em toda a democracia”.
Ao fogo amigo soma-se a oposição do PP que, se até há pouco tempo hesitava em pedir eleições antecipadas, agora ganhou força para se chegar à frente. Mas os populares ainda hesitam em acionar o mecanismo da moção de censura, com receio de que esta seja chumbada. González não é o único senador a pressionar o seu partido; esta terça-feira, o PP provou do mesmo veneno depois de José María Aznar (antigo presidente do Governo) ter feito um vídeo em que denuncia a “situação insustentável do país” e pressiona o partido: “A frase ‘quem puder fazer algo, que o faça’ faz agora mais sentido do que nunca.”
Para já, o PP optou por usar a sessão no Congresso dos Deputados da manhã desta quarta-feira para fazer tiro aos socialistas. “Não têm vergonha na cara por continuarem a pactuar com tanta corrupção?”, questionou a porta-voz do grupo parlamentar, Ester Muñoz. O líder do partido, Alberto Núñez Feijóo, decretou que o país está “numa situação desesperante” e que a mais recente investigação ao PSOE “cheira mal”. “Não há outro remédio senão dar a palavra aos espanhóis de forma imediata”, desafiou. A partir de dentro do partido, várias fontes ironizavam aos jornais, destacando a ausência de Sánchez, de visita ao Vaticano: “Sem entrar nos seus pecados nem em assuntos do céu, em Espanha há um Estado de Direito e nem o Supremo Tribunal, nem a Audiência Nacional, nem os tribunais da Relação, nem sequer os tribunais de primeira instância se vão dar por satisfeitos se [Sánchez] rezar três pais-nossos”, comentava uma delas com o ABC.
PP hesita em apresentar moção de censura. Bascos do PNV e catalães do Junts são decisivos para derrubar o Governo
Mas qualquer moção de censura apresentada pelo PP só pode ser bem-sucedida se algum dos partidos alinhados com o Governo decidir dar o golpe de misericórdia ao Executivo de Sánchez. E, até agora, os sinais são ambíguos.
À esquerda, o apoio parece mais sólido. Apesar de ter dito não “gostar nada” do que tem visto recentemente, Yolanda Díaz, do Sumar, mantém-se ao lado de Sánchez. A linha vermelha que apresentou é a mesma que a Esquerda Republicana catalã: se houver provas de que o PSOE recebeu financiamento ilegal, derrubarão o Governo. Até lá, o Governo pode continuar a contar com eles.

O futuro de Sánchez está, por isso, nas mãos dos partidos mais à direita que apoiam a coligação — até porque os votos do PP e do Vox, somados aos dos bascos do PNV e aos dos catalães do Junts seriam suficientes para aprovar uma moção de censura. Os primeiros sinalizaram que esse pode ser um caminho: na sequência das notícias sobre Zapatero, ainda antes das buscas desta quarta-feira, que acabaram por se prolongar durante doze horas, o líder do partido declarou que “é certamente muito difícil que Sánchez possa terminar a legislatura” e que “seria irresponsável prolongar o mandato para lá de 2026 sem rumo, sem Orçamento, sem uma maioria estável e com uma agenda descontrolada e dependente dos tribunais”. O PP reagiu de imediato, pedindo aos bascos que sejam “coerentes” e que “façam alguma coisa”.
Já o Junts parece mais difícil de convencer. A porta-voz parlamentar do partido, Mònica Sales, declarou recentemente que não deseja derrubar Sánchez, dizendo que cabe apenas ao presidente do Governo ser ele a convocar eleições se assim o entender. Mas as declarações foram feitas na véspera de rebentar o mais recente escândalo e Sales já havia desabafado que “são demasiados os casos de corrupção que rodeiam” o PSOE.
Os socialistas mantêm-se por agora firmes e Sánchez não tenciona de forma nenhuma pedir a demissão. “Este Governo faz da estabilidade a ferramenta fundamental para conseguir, em oito anos, a quantidade de marcos que estão a fazer avançar o nosso país”, declarou a porta-voz do Executivo, Elma Saiz. “O Governo vai continuar a lutar”, reforçou o ministro da Transformação Digital, Óscar López.

Mas dentro do edifício da calle Ferraz reconhece-se que o mês de junho será provavelmente “infernal”. E com eleições municipais e autonómicas marcadas para 2027, os autarcas socialistas agitam-se: “Há muitos autarcas cheios de medo de pagar a fatura do sanchismo em 2027: sobreviveram ao tsunami de 2023, mas acreditam que desta vez serão arrastados”, reconhece ao El Mundo uma fonte local. Outra fonte do partido aponta diretamente as baterias ao próprio Pedro Sánchez: “Ele vai sacrificar toda a gente. E agora já não se trata de sacrificar líderes críticos — até porque já não resta nenhum. Ele está a pôr em causa todo o partido.“