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Saúde digestiva: quando o corpo dá sinais, adiar não é opção

Não ignore sintomas digestivos persistentes. Em algumas situações, o adiamento pode transformar uma doença tratável num problema mais complexo.

Nuno Nunes
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Na minha prática clínica como gastrenterologista, há uma realidade que se repete com frequência: muitas doenças digestivas não começam com sinais exuberantes. Instalam-se de forma discreta, por vezes com sintomas vagos, intermitentes ou facilmente desvalorizados.

Uma dor abdominal que vai e vem. Uma alteração do trânsito intestinal que se atribui ao stress. Um refluxo que se normaliza. Uma perda de peso que parece circunstancial. Um sangue nas fezes que se tenta justificar.

O problema é simples e persistente. O aparelho digestivo raramente deve ser ignorado quando insiste em dar sinais.

A saúde digestiva ocupa um lugar central no bem-estar geral. Comer, digerir, absorver nutrientes, eliminar resíduos e manter o equilíbrio do organismo são funções que dependem de um sistema complexo, sensível e essencial à vida. Ainda assim, continua a existir algum silêncio em torno dos sintomas digestivos. Por vergonha, receio, desconforto ou simples adiamento, muitas pessoas demoram a procurar ajuda médica.

Esse atraso pode ter consequências.

Quando os sintomas persistem

Nem todos os sintomas digestivos significam doença grave. Felizmente, a maioria das queixas tem causas benignas, tratáveis e muitas vezes relacionadas com hábitos alimentares, medicação, infeções transitórias ou alterações funcionais.

Mas há uma diferença importante entre um sintoma ocasional e um sintoma persistente, repetido ou progressivo.

Alterações prolongadas do trânsito intestinal, diarreia ou obstipação persistentes, dor abdominal frequente, sangue nas fezes, dificuldade em engolir, vómitos persistentes, azia ou refluxo recorrente, anemia, perda de peso inexplicada ou cansaço marcado são sinais que justificam avaliação clínica.

O tempo de duração importa. A repetição importa. O agravamento importa.

Em medicina, esperar nem sempre é prudência. Por vezes, é apenas atraso.

O tabu ainda existe

Apesar dos avanços na literacia em saúde, falar sobre o intestino, as fezes, a digestão ou o refluxo continua a ser desconfortável para muitas pessoas. Este desconforto é compreensível, mas não pode ser um obstáculo ao diagnóstico.

Os médicos estão habituados a ouvir estes sintomas. São queixas clínicas, não são motivos de embaraço. Quando uma pessoa evita falar sobre aquilo que sente, perde-se uma oportunidade importante de perceber se há necessidade de tratamento, vigilância ou exames complementares.

Ignorar sintomas não os elimina. Apenas adia a resposta.

E, em algumas situações, esse adiamento pode transformar uma doença tratável num problema mais complexo.

Diagnosticar cedo muda tudo

Muitas doenças digestivas têm melhor prognóstico quando são identificadas precocemente..

O cancro colorretal é talvez um dos exemplos mais evidentes. Pode desenvolver-se silenciosamente durante anos e, em muitos casos, a deteção e remoção de pólipos permite interromper a progressão da doença antes de esta se tornar invasiva.

Mas a prevenção e o diagnóstico precoce não se esgotam no cancro colorretal.

A doença inflamatória intestinal, a doença celíaca, a doença do refluxo gastroesofágico, algumas doenças do fígado, alterações do esófago, lesões do estômago e outras patologias digestivas beneficiam de uma avaliação atempada. Em alguns casos, o tratamento precoce evita complicações. Noutros, permite controlar sintomas, melhorar a qualidade de vida e reduzir a ansiedade associada à incerteza.

Não se trata de alarmar. Trata-se de esclarecer.

O valor dos exames certos no momento certo

Em determinadas situações, a avaliação médica pode incluir exames endoscópicos, como a endoscopia digestiva alta ou a colonoscopia. Estes exames não devem ser vistos como um fim em si mesmos, nem como algo a realizar sem indicação clínica. Devem ser entendidos como instrumentos médicos relevantes, quando adequados, para esclarecer sintomas, identificar alterações e orientar o tratamento.

A colonoscopia permite observar o cólon e, em certos casos, remover pólipos durante o mesmo procedimento. A endoscopia digestiva alta permite avaliar o esófago, o estômago e o duodeno, sendo particularmente útil perante sintomas como dificuldade em engolir, refluxo persistente, dor, vómitos recorrentes ou suspeita de alterações digestivas altas.

Outros exames endoscópicos poderão fazer parte do esclarecimento da situação clínica.

O essencial é que a decisão seja tomada com base numa avaliação clínica. Cada pessoa tem a sua história, os seus fatores de risco e os seus sinais de alerta.

Prevenir também é cuidar dos hábitos diários

A saúde digestiva depende de muitos fatores. Alguns não são modificáveis, como a idade, a história familiar ou determinadas predisposições individuais. Outros, porém, estão ligados ao estilo de vida.

Uma alimentação equilibrada, rica em fibra e ajustada às necessidades de cada pessoa, a prática regular de atividade física, a manutenção de um peso adequado, a redução do consumo de álcool, a cessação tabágica e a atenção à toma prolongada de certos medicamentos podem contribuir para proteger a saúde digestiva.

Estas escolhas não eliminam todos os riscos, mas reduzem muitos deles. E, sobretudo, ajudam a construir uma relação mais consciente com o corpo.

A prevenção raramente nasce de grandes gestos. Quase sempre nasce de pequenas decisões repetidas.

Informação credível também é prevenção

O Dia Mundial da Saúde Digestiva, que se assinala a 29 de maio, é uma oportunidade para reforçar uma ideia central: a informação credível ajuda as pessoas a reconhecer sinais, procurar ajuda no momento certo e tomar decisões mais conscientes sobre a sua saúde.

A Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva tem procurado contribuir para esse caminho, promovendo a literacia em saúde digestiva, esclarecendo dúvidas, desmistificando exames e sensibilizando a população para a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

Mas esta responsabilidade não pertence apenas aos profissionais de saúde. Também depende da atenção de cada pessoa aos seus próprios sintomas, da capacidade de procurar ajuda no momento certo e da disponibilidade para falar sobre temas que, durante demasiado tempo, foram tratados com silêncio.

Um momento para agir

A mensagem deve ser clara: não ignore sintomas digestivos persistentes.

Se há sangue nas fezes, alterações prolongadas do trânsito intestinal, dor abdominal frequente, dificuldade em engolir, perda de peso sem explicação, vómitos persistentes, refluxo recorrente ou diarreia prolongada, procure aconselhamento médico.

Na maioria das vezes, a avaliação trará tranquilidade. Noutras, permitirá agir a tempo.

Em saúde digestiva, ouvir o corpo não é dramatizar. É prevenir. E, muitas vezes, é esse gesto simples, procurar ajuda a tempo, que muda o curso de uma doença.