Saiu, na segunda-feira a encíclica do Santo Padre, Magnifica Humanitas, que trata de vários temas da actualidade da vida humana e, em especial, da inteligência artificial.
Não só era enorme a expectativa, como já se sentiam os reflexos do seu anúncio através de muitos artigos que começaram a aparecer com opiniões muito mais relativizadoras da das características sobre-humanas que lhe eram atribuídas, dando-lhe muito mais a forma de ferramenta do que de uma nova criação de uma concorrente do ser humano.
Também o Papa, vem relativizar a realidade desta nova ferramenta, pedindo para ela a criação de um enquadramento para a sua utilização, promovendo o bem e o desenvolvimento da humanidade e inibindo o abuso de poder que esta ferramenta pode trazer a quem a possa utilizar.
O mesmo se passou em muitos momentos da vida do Mundo.
O que difere é que, de cada vez que passamos por estas descobertas disruptoras, a sua complexidade aumenta e a velocidade dos seus efeitos torna-se sempre exponencial relativamente às anteriores.
A revolução industrial foi uma disrupção que nos trouxe um potencial de desenvolvimento brutal face à realidade da sociedade baseada na manufactura e na agricultura que, enquanto não foi cuidada verdadeiramente, se tornou na maior promotora de miséria que até então se tinha conhecido.
A descoberta de energia atómica permitiu um desenvolvimento enorme da capacidade de dominar o maior factor do desenvolvimento, a energia, mas foi responsável pela maior mortandade no seu início, apenas suspendida pela dispersão da sua posse por diferentes facções do poder que, assim, estabeleceram um enquadramento de contenção.
Em cada momento, a disrupção apresenta-se como a maior ameaça das nossas vidas e, como a disrupção assenta sempre no desconhecido, a primeira reacção que registamos é a de um medo por não controlarmos aquilo que está a surgir.
Ao mesmo tempo, se aliarmos a forma como foram ultrapassadas as imensas disrupções que passaram na história da humanidade, à capacidade de reacção do Mundo e do ser humano, por via do desenvolvimento que obteve através dessas mesmas disrupções anteriores, torna-se mais capaz de se preparar para prevenir os seus efeitos, desde que ultrapasse esse mesmo medo e não se deixe dominar por ele.
Para isso é necessário que as instituições que lideram a opinião mundial comecem a tornar sua responsabilidade a promoção do debate sobre a forma como devemos lidar com estas novas formas de enfrentar a vida, de modo a podermos aproveitar-las para o desenvolvimento, diminuindo ao mínimo os riscos que resultam do abuso da sua utilização.
Por isso o Santo Padre, que assume o nome de Leão fazendo referência ao seu antecessor – que escreveu a encíclica sobre os valores e princípios da Doutrina Social da Igreja de forma a conter os efeitos perniciosos da Revolução Industrial -, escreve esta nova encíclica sobre a mesma contenção e aproveitamento desta ferramenta, que é excepcional e que nos pode servir de uma maneira extraordinária, se não for utilizada com maus intuitos.
Enquanto a primeira encíclica saiu 136 anos depois do início da Revolução Industrial, que tem como data de início o ano de 1760, esta está datada de 2026, 70 anos depois de, na Conferência de Dartmouth, nos EUA, John McCarthy ter cunhado o próprio termo “inteligência artificial”.
Sendo claro que ambas as revoluções tiveram o seu tempo de crescimento e que os seus impactos maiores apenas se fizeram sentir com o passar do tempo, a capacidade de reacção também está mais condicionada por todo o conhecimento histórico anterior, bem como pelo domínio das tecnologias que foram por ela descobertas e promovidas.
É neste sentido que vale muito a pena tirar tempo para ler com cuidado o texto da Magnifica Humanitas, com a consciência de que é através destas intervenções que poderemos ajudar a controlar os efeitos desta nova ferramenta e de melhor conseguir aproveitar as suas enormes qualidades.
Mas é importante também não aproveitar as capacidades desta mesma ferramenta para nos resumir tudo o que o Papa diz neste documento, pois isso é um dos maus efeitos que pode ter essa nova realidade que conhecemos muito bem, e que dá pelo nome de preguiça.