Daniela Klette, última militante feminina da Fação do Exército Vermelho, foi condenada esta quarta-feira por extorsão agravada, tentativa de roubo e violação da lei de armas, anunciou o Tribunal Regional de Verden, por crimes ocorridos entre 1999 e 2016, após a dissolução do grupo extremista de esquerda alemão.
“No processo contra Daniela Klette […] por, entre outros crimes, tentativa de homicídio, a 1.ª secção criminal do tribunal judicial [de Verden] condenou a arguida, nomeadamente por roubo agravado em seis casos, extorsão agravada, tentativa de roubo agravado, bem como por infrações à lei das armas e à lei de controlo de armas de guerra, a uma pena global de 13 anos de prisão“, lê-se na sentença publicada pelo tribunal. A arguida tem agora uma semana para recorrer da decisão.
A leitura da sentença foi acompanhada por apoiantes de Klette, que gritaram “liberdade para Daniela” durante o veredito. Segundo a Euronews, uma pessoa foi expulsa da galeria da sala de audiências pela segurança do tribunal.
O julgamento de Klette começou em março de 2025, pouco mais de um ano depois de ter sido encontrada pelas autoridades a viver clandestinamente em Berlim (onde estava desde 1999). No seu apartamento, foram encontradas cinco armas, entre elas uma Kalashnikov, explosivos, bilhetes de identidade falsos e 240 mil euros em dinheiro vivo, segundo o The Guardian e a Euronews.
Para a defesa, tal não constitui uma evidência contra a arguida. “O facto [da arguida] ter essas coisas no seu apartamento mostrava que tinha algo a ver com elas, que conhecia as pessoas que [cometeram os crimes], mas não há provas de que ela própria estivesse envolvida”, afirmou o advogado de defesa à Deutsche Welle.
Os crimes ocorreram entre 1999 e 2016, após a dissolução da Fação do Exército Vermelho, em 1998, juntamente com dois cúmplices que se encontram a monte — também ex-membros do grupo —, e envolvem assaltos a supermercados e a carros-fortes. De acordo com o The Guardian, os crimes não estavam relacionados com a atividade da fação, mas serviam para “financiar a vida clandestina dos fugitivos“, com Daniela Klette a atuar como motorista na fuga dos assaltos, munida com uma bazuca falsa.
“[Os suspeitos] executavam os roubos com divisão de trabalho e de forma altamente conspiratória”, afirmou o juiz-presidente do caso, Lars Engelke, citado pelo jornal britânico, com o valor dos roubos a ascender aos 2,4 milhões de euros.
Daniela Klette, numa sessão de julgamento que teve lugar este mês, justificou os roubos afirmando que, após a dissolução do movimento, a arguida e os seus companheiros iriam ter o sistema que desprezavam a “celebrar” a sua possível prisão.
“Como radicais, só podíamos viver vidas de forma autodeterminada na clandestinidade”, afirmou Klette, citada pela estação alemã ZDF, mas sem admitir envolvimento direto nos crimes por que foi condenada e a pedir desculpa às pessoas que foram assaltadas. A arguida também afirma estar a ser “vítima” de uma perseguição política, com o objetivo de “deslegitimar e punir a resistência radical de esquerda”.
A Fação do Exército Vermelho foi um movimento de extrema-esquerda, fundado na Alemanha Ocidental em 1970 e considerado terrorista pelo Governo da Alemanha Ocidental, e que tinha como objetivo combater o que consideravam ser o imperialismo norte-americano e figuras pertencentes ao Partido Nazi que ainda desempenhavam um papel importante na vida pública alemã.
O grupo foi responsável pela morte de cerca de 30 pessoas, como políticos e empresários, incluindo o presidente da Confederação Alemã de Empresários, Hanns-Martin Schleyer, em 1977, ocorrido no mesmo ano do intitulado “Outono Alemão”, marcado pelo combate intenso entre o grupo e as autoridades alemãs.
Hans-Jakob Schindler, diretor do think tank Projeto Contra-Extremismo, afirma à Deutsche Welle que Klette não terá tido um “papel importante” na estrutura do movimento, e que a arguida e os dois homens em fuga “nunca acrescentaram nada ao debate político”.
No entanto, será também julgada num outro processo em relação à sua alegada atividade na Fação, durante os anos 90, mais concretamente na alegada cumplicidade em três atentados, segundo a Deutsche Welle.