Fosse biologicamente possível e festejaria com mais propriedade o meu funeral do que o aniversário – podemos não gostar de pensar nisso, mas temos consideravelmente mais participação na forma como morremos do que naquela como chegámos a este mundo. Reconheço, porém, que não seja a corrente de pensamento mais popular. E, todavia, tenho quase a certeza de que toca o mesmo ponto fraco que nos faz comemorar umas efemérides e desviar os olhos de outras.
Em 2010, celebrámos durante um ano a implantação da República. Houve comissão para as comemorações, filmes, programas de televisão, debates, fóruns, livros, exposições. Mas hoje, que faz precisamente cem anos que essa primeira tentativa de regime republicano, liberal, democrático, caiu, não encontrarão mais do que meia dúzia de conversas em programas de tv, rádio, ou textos como este. Sim, bem sei que continuámos a viver em república depois do golpe de 28 de Maio – bem sei que vivemos em república até hoje – mas viver em república não é um bem por si mesmo, tal como viver em monarquia não é certamente um mal. O que aconteceu há 100 anos foi o epitáfio de um projecto muito concreto e faríamos melhor em dar-lhe alguma atenção.
Quando as tropas de Gomes da Costa vieram de Braga, em desfile país abaixo até à capital, não havia duas frentes em confronto, duas visões de mundo ou, ao menos, uma oposição. Havia cansaço, desilusão. Meros 16 incompletos anos depois, tinha fracassado a tentativa de implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe. Mas o país que também antes se tinha cansado da monarquia e, sobretudo, da corte, dos condes e dos barões, e que correra até com os padres e os frades na repetida ânsia de culpar alguém ou alguma coisa pelos males que o afligem, desembocara num estado de miséria ainda pior do que aquele em que se encontrava antes de 1910, esmagado pelas consequências da Guerra, em que se metera por vaidade dos protagonistas políticos preocupados com a afirmação do regime além-fronteiras (o clássico “para inglês ver”), pela gripe espanhola e, acima de tudo, pelo caos político e social.
Há cem anos, quando o resto do mundo ocidental celebrava os “loucos” anos 20, Portugal vivia a década em que mais divergiu economicamente dos seus parceiros de continente. Os governos sucediam-se à média de três a quatro por ano, de desilusão em desilusão, dilacerados, primeiro, pelo projecto hegemónico de poder de Afonso Costa e do Partido Republicano e, depois, pelas múltiplas correntes e dissidências. Ficou a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior, mas sobraram os recuos: no sufrágio universal, nos direitos das mulheres, no desenvolvimento do país, nas condições de vida dos portugueses, na democracia real.
O ponto mais interessante de observar no 28 de Maio de 1926 e que nos deveria fazer pensar hoje é que ele se deu sem resistência, praticamente a pedido. Pior ainda do que em 1910, quando não se ofereceram mais do que Paiva Couceiro e umas centenas de militares para defender uma monarquia de quase 800 anos e que tanto nos orgulhávamos de, de tempos a tempos, ter salvo e recuperado quase por milagre, não apareceu sequer, dessa vez, um herói mais ou menos romântico que se atravessasse no caminho da “Revolução Nacional”. Bernardino Machado, Presidente da República, e António Maria da Silva, primeiro-ministro, entregaram pacificamente o poder a Gomes da Costa quando este chegou a Lisboa, e até intelectuais como Fernando Pessoa defenderam, por um momento, a necessidade temporária de uma ditadura militar para “limpar” o país dos males causados pela I República.
Só que, atrás de Gomes da Costa, não estava qualquer projecto; estava um conjunto de gente que não podia pensar de formas mais distintas: monárquicos, republicanos, militares, maçons, católicos, quase todos desiludidos de alguma coisa. Unia-os a desilusão, o estarem fartos. Mas estar farto não é um projecto político, como se perceberia pela incapacidade de produzir um nos meses ou sequer anos seguintes. O que se sucederia não seria, portanto, propriamente, temporário, mas a mais longa ditadura da Europa Ocidental.
Em 1926, o regime caiu de podre; como em 1910; como, em boa parte, em 1974; como talvez seja a única maneira de mudar alguma coisa num país tão velho. Não por combate vigoroso ou sanguíneo, mas por desistência, por cansaço. 100 anos depois, os portugueses vivem extraordinariamente melhor do que nesse Portugal de então, mas os perigos do cansaço e da desilusão voltam a pairar por aí e a confundir-se, exactamente como há um século, com um “projecto”, uma “ideia” que, na verdade, ninguém sabe qual é, nem os próprios. Não temos ataques bombistas nem milícias a distribuir pancada pelas ruas, mas não falta, como em 1926, quem implore por “ordem”, “limpeza”, alguém que “pegue nisto”. Um descrédito das instituições, uma falta de pessoal “qualificado”, de vez em quando um ténue fantasma a espreitar: a “ingovernabilidade”. E agora, até uma geração que parece achar que um governo autocrático talvez nem seja coisa má de todo.
Poderíamos meditar um pouco nas razões destas nossas mortes recorrentes, destas quedas. Assinalar com pelo menos metade da pompa os funerais das efemérides que, tão galhardamente, nos ocupamos em celebrar. Para perceber as razões e melhor descortinar os inimigos. Afinal, em 1926, quando caiu a república livre e democrática, entregue a si mesma e à autodeterminação do seu destino, quem falhou não foram os reis, nem os padres, nem os militares, nem a extrema-esquerda, nem a extrema-direita. Fomos nós.