(c) 2023 am|dev

(A) :: Despeço-me da Terra da Alegria

Despeço-me da Terra da Alegria

O mundo aguarda com ansiedade os esforços para encontrar uma doença psiquiátrica para a mulher que abandonou os filhos. De onde vem a crescente tolerância das sociedades face ao horror? 

Vieira Barbosa
text

Em Maio, num mês de Maio como este, mas no ano de 1978, Ruy Belo publicou o seu último livro. Chamou-lhe “Despeço-me da Terra da Alegria”.Ruy Belo tinha 45 anos, aproximara-se perigosamente da perfeição poética e, tal como ele sabia que iria acontecer, morreu 3 meses depois.

Os seus poemas são dos mais límpidos e docemente corrosivos da literatura portuguesa, são claros e dizem exactamente o que querem dizer antes de dizerem tudo o que Ruy Belo quis dizer com eles. Essa razão valeu-lhe a honrosa indiferença dos poetastros do seu tempo e deste tempo – os pequenotes que ainda hoje e cada vez mais aprofundam a incompreensibilidade para se mostrarem profundos, cultivam cumplicidades ressentidas e disfarçam a falta de jeito com angústicas semânticas e portentosas expressões in-significantes. Teria de ser assim num mundo de biscateiros onde a crítica e o ambiente dos cafés mundanos são uma feira de géneros onde cada um dá o seu e aproveita o dos outros. Não faz mal, não foi isso que fez mal a Ruy Belo.

Não sei que nome daria hoje Ruy Belo ao seu último livro. Se continuaria a ser de Alegria a sua amada terra da despedida, se levaria dela a pena e o mesmo largo olhar de agradecimento pela oportunidade de nele ter vivido.

Há uns dias, uma mulher abandonou duas crianças de 3 e 5 anos à beira de uma estrada. Há concerteza casos iguais, mas não piores. Deste, no entanto, sabemos onde aconteceu. Foi aqui perto em Portugal onde tudo é perto, numa terra onde muitas vezes as pessoas passam a caminho do Algarve e que algumas, que abominam o Algarve e as suas criaturas castanhas e oxigenadas, apenas demandam para almoçar choco frito à beira do rio. Sabemos também o nome da mulher, a sua idade e a sua profissão. Conhecemos a sua cara e a sua voz. A mulher era a mãe dos meninos e os meninos acreditam sem limites nas mães. Foi isso que permitiu à mulher tapar-lhes os olhos pequeninos, contar-lhes uma mentira e deixá-los para trás perdidos para que alguma coisa lhes acontecesse – a sorte ou a morte.

O mundo que soube disso não está horrorizado. Está curioso e está palpitante porque não é costume ver-se uma coisa assim. Está atento às televisões porque ainda não faltam uns poucos de testemunhos de especialistas e populares creditados – os clientes ocasionais do mesmo café onde a mulher tomou o pequeno-almoço ou senhoras excitadas que ouviram falar no assunto. O mundo aguarda com ansiedade que os esforços para encontrar uma doença psiquiátrica adequada àquela mulher possam em breve chegar a bom termo. Então, haverá sempre alguém capaz de compreender a infeliz mãe.

De onde vem a crescente tolerância das sociedades face ao horror?

Esta senhora que alegadamente (ou seja: diz-se, pode ser que…) terá exposto (ou seja: abandonado à possibilidade da morte) dois filhos com 3 e 5 anos continua a ser designada por mãe e apresentada como sujeito de uma imperiosa dúvida legal que a protege do nojo absoluto. Nesse respeito pelo instituto maternal, que parece ainda merecer, assim como em todo o palavreado que rodeia o seu crime (alegado crime…) reconhece-se uma ideia subversiva que foi plasmada na cabeça das pessoas: não há culpa real, não há responsabilidades que não devam ser partilhadas e, no fundo, não existe maldade absoluta.

Desde há muitos anos que a consciência das sociedades está a ser impregnada por duas ideias diabolicamente geniais. As duas foram criteriosamente seleccionadas para instabilizar a vida individual e colectiva – e estão a resultar.

A primeira de todas propõe a relativização da individualidade nas suas duas vertente básicas – integridade intelectual/moral e a integridade física. O indivíduo relativizado não se sente  obrigado a respeitar o seu ser físico e moral, é-lhe permitido duvidar do que é e convidado a mudar, mudar indefinidadamente até à exaustão ou à infelicidade. Ninguém é, toda a gente pode ser. É um destino cumprido com cirurgias radicais que mudam o tamanho das mamas ou a anatomia pélvica, com tratamentos que transformam um ser humano num desgraçado esquálido que se esforça por parecer feliz através de um a exibição patética de esgares e ademanes. Cumpre-se com mais um piercing ou uma tatuagem até não existir qualquer vestígio de um corpo que já foi humano. Cumpre-se de todas as maneiras que permitam alguém não ter que enfrentar aquilo que é. Cumpre-se finalmente com drogas modificadoras da consciência, a mais perfeita das modificações porque muda a pessoa durante algumas horas e, pensa ela, muda o mundo à sua volta.

A relativização do corpo é a relativização da vida que ele contém. A existência deixa de ser um estado integral e a vida deixa de ser indiscutível. A identidade deixa de existir íntegra e nua, é um artefacto composto por subtracção ou adição de uma condição qualquer. A insatisfação permanente com aquilo que se é – uma insatisfação por moda, por idiotice ou por interesse – suscita o esforço para alcançar uma qualidade reconhecida. É essa (re)composição do humano que transforma um homem num racializado, por isso com direito a casa, num transcoiso, por isso com direito a um emprego, num artista, com direito a asnear a cores ou em falsete, numa vítima e, por tanto, com direito a reparação.

Enfim, foi a relativização do humano que transformou a guerra no ultimate exercício demencial deste século, um tema muito mais desesperante que um LGBT triste ou uma gorda em pânico à entrada do mês de Junho. A guerra é hoje um exercício em que administradores e a IA gerem a morte dos outros, já convenientemente desumanizados – os soldados, porque são os que melhor rentabilizam a indústria do armamento, os civis por premeditação do terror e as crianças (porque não as crianças…), uma vez que a sua carne também tem peso.

As 82 gravuras de Los Desastres de la Guerra são todo o horror da guerra que Goya foi capaz de mostrar. Mas não retratam o cinismo da guerra actual. A crueldade exercida sobre os corpos de Goya era ainda uma celebração do corpo e do respeito que o corpo merecia enquanto objecto de violência e sede de martírio. Hoje, os horrores da guerra comportam o anonimato e a guerra já não é uma coisa de homem para homem. A perda de respeito pela integridade do corpo transformou toda a carne humana em matéria neutra que pode ser aniquilada sem precisar de combater. As guerras admitem meninos combatentes em África, admitem que os palestinianos usem as suas crianças como escudos para proteger homens – tão desumanamente que mesmo um bebé destroçado é óptimo para propaganda – as guerras admitem transformar a água em fogo no recreio das escolas. Os países ocidentais cobrem tudo isso com o silêncio dos timoratos, porque já não estão a perceber nada, e com o apoio dos infames. E estes, estão a dar como bem sucedido o seu esforço de anulação do humano e a redução do corpo a um transformer.

A relativização do corpo e da vida permite as guerras sem honra e sem heróis. O desrespeito pelo corpo e pela vida acabou, no seu regresso às coisas vulgares, a banalizar o aborto ad libitum, a promover práticas de eutanásia completamente fora de controle e a consentir a uma mulher abandonar os seus filhos entre mato e terrenos alagados antes de ir comer qualquer coisa a um café.

A segunda das diabólicas ideias que estão a pôr o mundo ocidental à beira do caos é a que questiona a existência da maldade. Segundo essa convicção, de certeza recolhida entre as nádegas de belzebu, as pessoas podem errar, podem infringir uma lei menor, podem cometer um crime ou perpetrar um massacre – mas não são más. Há uma teorização dos costumes e do direito que protege automaticamente a transgressão. É sempre necessário ultrapassar a presunção inicial de que um criminoso possa ter tido um surto psicótico, andar deprimido, ter tido uma infância triste ou ser desvalido. Esse procedimento, que não é errado por princípio, está a prolongar estados de dúvida e de impunidade. Os melhores velhacos sabem como isso é feito e podem cativar a benevolência do sistema até limites inacreditáveis. E no fim, quando um dia saírem em liberdade num desses casos em que não evitaram ser presos, sem reabilitação ou reinserção – porque para muitos isso é impossível – ainda é a sua dignidade de ex-presidiário que é respeitada e não a segurança da sociedade.

A regeneração e a reabilitação social são possíveis e fáceis, para quem não precisa delas. A maioria das infracções ocorrem num contexto causal ou precipitante, a pena é cumprida e é possível antecipar que o crime não se repetirá. Porém, uma minoria de grandes delinquentes continuará a alternar a prisão – onde consome recursos, estabelece contactos e gere a sua actividade – com saídas em liberdade para reassunção dos seus negócios. A sua reabilitação é um mito que corre na pista ao lado da ausência de maldade. Nem todos os homens são susceptíveis de regeneração e merecem uma segunda, terceira ou décima oportunidade. É uma ideia que quer passar por humanista mas é apenas imbecil. É, outra vez, um pensamento que radica na obliteração da individualidade e remete cada um para uma categoria – neste caso o “preso” enquanto utente da prisão e, por essa condição de cidadania, beneficiário de direitos especiais. É uma ignorância da realidade que expõe crianças a pedófilos à solta e inteiros, que ignora a pedofilia como uma prática sexual desviante, como outras, mas com a terrível particularidade de penalizar inocentes e ter, também como outras, uma taxa de conversão próxima do zero. É uma ignorância que devolve à sociedade re… reincidentes para mais tarde os recolher e voltar a libertar.

A dispersão de dados e a protecção da categoria social “infractores da lei” não permitem senão saber, pelos jornais, que o mesmo indivíduo pode ser detido e libertado 14 vezes pelo mesmo tipo de infracção. A categorização, com a correspondente perda da individualidade, não beneficia o triste que desfalcou o patrão para comprar uma cirurgia ao filho, mas é óptima para aquele que tem por emprego destruir vidas com crack ou roubar a um velho 50 anos de poupanças.

São inúmeras as maneiras de consumar o desrespeito pelo corpo e a menorização da individualidade. A teorização comunista/fascista sobre classes e corpos sociais desidentificados, com um destino histórico e marchando em uníssono, encontra-se ultrapassada. O fim dos totalitarismos libertou o homem para a individualidade e para o crescimento. Não é isso que está a acontecer. Depois de uns anos de post-guerra dedicados à reconstrução e ao aproveitamento lúdico o homem foi rodeado de inseguranças e aprisionado por desejos que não tinha. Foi-lhe dito que esse era o caminho da sua libertação e que o corpo (e também a consciência para os mais exigentes) era o território da sua liberdade. Foram-lhe oferecidos rituais de modificação – a moda, progressivamente mais transgressiva, a fluidez dos géneros, a transformação corporal obsessiva… – e foi-lhes ordenado que procurassem “a melhor versão de si próprios”.

O desrespeito pelos corpos e pelas consciências assim instalado permitiu a tolerância que hoje é dedicada a todo o género de morticínios. As guerras matam de um modo que passa por inevitável, os hospitais estão assoberbados por emaluquecidos que já não sabem de que terra são, a fome e a doença percorrem a África, há miúdos patéticos que faltam às aulas para andarem aos tiros ou a sujar de tinta coisas que não entendem. E há uma mulher que abandonou à possibilidade da morte dois filhos com 3 e 5 anos.

À vista de tudo isto não sei que nome daria Ruy Belo ao seu último livro, hoje, neste novo mês de Maio. Se continuaria a ser de Alegria esta terra, se seria de tristeza, se seria de raiva. Ruy Belo era um homem de enorme coração e talvez se ficasse por uma enorme tristeza, não destituída de esperança. Afinal a sua vida não foi fácil, passou-a a perseguir sonhos e a conformar-se com o que havia. Desgostou-o muito não ter chegado a professor de Letras, uma pequena vaidade que perseguia, quando muito uma pequena aspiração, impedido pela esquerda que em 1977 censurava e proibia por todo o lado. No site da Escola Secundária de Ferreira Dias não se encontra qualquer referência ao professor Ruy Belo – foi a essa escola que o Poeta, a quem a democracia negou a Faculdade de Letras, dedicou os últimos meses de vida. Também desse modo a vida se perde dos seus homens melhores. Mas que importaria a Ruy Belo terem-lhe negado um emprego, sabendo que as mães negam a vida aos seus filhos?