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(A) :: TV, muitos golos e as chuteiras que calçaram o Milagre de Berna: as histórias do Mundial de 1954 (ganho pela RFA na Suíça)

TV, muitos golos e as chuteiras que calçaram o Milagre de Berna: as histórias do Mundial de 1954 (ganho pela RFA na Suíça)

Mundial com maior média de golos e primeiros jogos transmitidos na TV (para a Europa) fez cair a favorita Hungria frente a um David chamado RFA que na primeira fase tinha sido goleada pelos magiares.

Bruno Roseiro
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Novo boicote da Argentina, a surpreendente eliminação da Suécia num grupo com a Bélgica, a caricata forma como a Espanha, que tinha também chegado às meias-finais quatro anos antes, ficou de fora da fase final no desempate com a Turquia por moeda ao ar que decidiu tudo – e com essa particularidade de Franco Gemma, o rapaz que fez esse sorteio, ter viajado depois integrado na equipa como uma espécie de “mascote”. Até à fase final do Mundial de 1954, organizado na Suíça, não faltavam histórias. Depois, quase tudo acabou por ficar resumido ao percurso de Hungria, que partia como um Golias, e a RFA, o principal David.

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1240286463859851266

Com 16 equipas em prova, todos os jogos arriscavam ser uma chuva de golos, com uma incrível média de 5,38 remates certeiros por encontro que não mais voltou a ser repetida. Mas houve também um “truque” da RFA ainda na fase de grupos. Percebendo o favoritismo da Hungria, que levava uma longa de série de jogos seguidos sem derrotas ao longo de quase quatro anos, Sepp Herberger arriscou, apresentou uma equipa secundária no duelo com os magiares na fase de grupos, foi goleado e caiu nas represcagens com a Turquia, onde conseguiu golear por 7-2. Os húngaros ficavam sem tirar às medidas à RFA e, em paralelo, Puskás foi também lesionado pelo defesa Werner Liebrich, regressando para jogar a final da competição sem estar ainda a 100% e com a equipa desgastada pelos duelos com os dois sul-americanos Brasil (que se tornou uma autêntica batalha, com três expulsões antes da pancadaria no túnel de acesso aos balneários) e Uruguai.

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Chegava a altura das decisões no Estádio Wankford, que recebeu aquilo que ficou escrito na história dos Mundiais como o “Milagre de Berna”. Se a vitória da RFA já era altamente improvável, os dois golos logo a abrir de Puskás e Czibor em menos de dez minutos reforçou o estatuto de Golias. Depois, chegou a revitavolta e a multiplicação de histórias: as chuteiras que terão sido oferecidas por Adi Dassler, da Adidas, à equipa da RFA ao intervalo num terreno castigado pela chuva, uma alegada falta no golo do 2-2, o golo invalidado a Puskás por fora de jogo perto do minuto 90 e até, muitos anos mais tarde, os rumores de recurso a substâncias dopantes (e não injeções de vitamina C) para justificar a melhor condição dos alemães no decorrer da segunda parte. Facto, apenas um: a RFA sagrou-se campeã contra todas as expetativas.

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Uma história. A maior média de sempre de golos que teve um 7-5 nos quartos de final

É um dado que passa a mera curiosidade, não pode ser reduzido a um só herói mas ficou para a história dos Mundiais: foi na Suíça que se bateram todos os recordes em termos de golos marcados, com um total de 140 em apenas 26 jogos, de golos num só jogo com o 7-5 do Áustria-Suíça nos quartos de final e da média mais alta de golos marcados com a Hungria a chegar aos 27 (17 só nas duas partidas da fase de grupos contra a Coreia do Sul… e a RFA). Também o avançado húngaro Sandor Kocsis, que terminou a fase final como o melhor marcador da prova (11 golos), passou a ser o primeiro jogador de sempre a marcar três ou mais golos pelo menos duas vezes, algo que só o francês Just Fontaine (1958) e o alemão Gerd Muller (1970).

https://twitter.com/FIFAWorldCup/status/1406552655917355009

Um herói. Helmut Rahn, o Canhão de Essen que deixou um radialista louco (e outro a chorar)

Ferenc Puskás foi a grande figura do Mundial num período pré-Pelé, Sandor Kocsis terminou como melhor marcador com um total de 11 golos mas um nome acabou por sobrar para a história pela importância que teve no desfecho final da prova: Helmut Rahn, conhecido como o Canhão de Essen. “Rahn tem de rematar de longe, Rahn remata, golo, golo, golo! Golo da Alemanha. A Alemanha ganha por 3-2! Chamem-me louco, chamem-me maluco!”, gritou o popular repórter de rádio alemã Herbert Zimmerman enquanto o homólogo húngaro, György Szepesi, se desfazia em lágrimas. Foi com um bis do avançado que a RFA conquistou o título com uma memorável reviravolta que lhe valeu a alcunha de “Boss”, antes de deixar o futebol na década de 60 e abrir um negócio de compra e venda de carros em segunda mão entre muitas homenagens pelo feito.

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Uma curiosidade. O início da “canarinha” e das transmissões televisivas dos jogos

Foi neste Mundial de 1954 que a seleção brasileira, ainda hoje o conjunto com mais títulos na prova (cinco), ficou com a alcunha de “canarinha” na sequência de um concurso promovido um jornal chamado Correio da Manhã para que o equipamento branco fosse vetado por ser um símbolo de azar na sequência da derrota na final do Mundial anterior com o Uruguai no Maracanã. Foi também em 1954 que houve transmissões dos jogos pela TV para a Europa (ao Brasil chegariam apenas em 1970, no terceiro e último título de Pelé) e acompanharam dois momentos que marcaram a final entre RFA e Hungria: uma alegada falta de Hans Schäfer sobre Gyula Grosics que originou o golo do empate dos alemães e um fora de jogo de Puskás a dois minutos do final que invalidou o 3-3 (com o árbitro a apontar para o centro mas o auxiliar a anular).

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Como foram os resultados no Mundial de 1954

  • 16 de junho (fase de grupos): Brasil-México, 5-0, Jugoslávia-França, 1-0, Uruguai-Checoslováquia, 2-0 e Áustria-Escócia, 1-0
  • 17 de junho (fase de grupos): RFA-Turquia, 4-1, Hungria-Coreia do Sul, 9-0, Suíça-Itália, 2-1 e Inglaterra-Bélgica, 4-4 a.p.
  • 19 de junho (fase de grupos): Brasil-Jugoslávia, 1-1 a.p., França-México, 3-2, Uruguai-Escócia, 7-0 e Áustria-Checoslováquia, 5-0
  • 20 de junho (fase de grupos): Hungria-RFA, 8-3, Turquia-Coreia do Sul, 7-0, Itália-Bélgica, 4-1 e Inglaterra-Suíça, 2-0
  • 23 de junho (playoff): RFA-Turquia, 7-2 e Suíça-Itália, 4-1
  • 26 de junho (quartos de final): Áustria-Suíça, 7-5 e Uruguai-Inglaterra, 4-2
  • 27 de junho (quartos de final): RFA-Jugoslávia, 2-0 e Hungria-Brasil, 4-2
  • 30 de junho (meias-finais): RFA-Áustria, 6-1 e Hungria-Uruguai, 4-2 a.p.
  • 3 de julho (3.º/4.º lugares): Áustria-Uruguai, 3-1
  • 4 de julho (final): RFA-Hungria, 3-2