“Prostitutos políticos.” O mais recente ataque de Pedro Passos Coelho a Luís Montenegro foi recebido na cúpula do partido primeiro com estupefação. Nos minutos que se seguiram às declarações do antigo primeiro-ministro, e quando se procuravam as primeiras reações, ninguém compreendia exatamente que facto novo justificava aquela violência. Nem sequer o exato alcance daquelas palavras ou o destinatário concreto — chegou a pensar-se, ingenuamente, que era uma crítica a André Ventura. Com o passar das horas, a estupefação deu lugar à resignação e, em alguns casos, à revolta. Os homens de Montenegro não sabem o que move Passos; mas vão ganhando a crescente convicção de que o ex-presidente do PSD entrou num caminho sem retorno. Caminho que lhe custará a simpatia das bases e das elites do partido.
“Está a cavar a sua própria sepultura“, lamenta um elemento do núcleo mais próximo de Luís Montenegro. Até aqui, concordando-se ou não com as críticas de Pedro Passos Coelho — e há muita gente no próprio universo PSD a pensar que o Governo tem estado aquém das expectativas que criou —, os reparos incessantes do antigo primeiro-ministro podiam ser, pelo menos, relativizados pela direção do partido. Mas a partir do momento em que Passos caracteriza toda uma geração de governantes e dirigentes como gente ‘sem princípios e sem vergonha’, não há ‘paz podre’ que valha. “Não tem noção do que está a fazer a si próprio e de como isto é recebido no partido. Não há ninguém que compreenda”, acrescenta outra fonte alinhada com Montenegro.
Os passistas desvalorizam largamente estes vaticínios, naturalmente. Para os apoiantes do antigo primeiro-ministro, de resto, este tipo de intervenção tem vários méritos políticos, desde esvaziar André Ventura a interpretar o ar dos tempos. Mas têm, ao contrário do que os temerosos homens de Montenegro pensam, uma única razão de ser: “Ele é um animal livre e solto. Diz o que pensa e não está a pensar no amanhã. Os que acham que ele está muito preocupado com eleições e com o futuro estão a pensar com a cabeça deles e estão muito enganados”, assinala uma figura próxima de Pedro Passos Coelho. “Está-se nas tintas. Ele fala como se estivesse à mesa connosco. Não é género, nem tática”, acrescenta outra fonte relativamente equidistante face a Montenegro e Passos.
“Passos está desesperado”
Nem todos acreditam nesta versão de um homem tão desprovido de tática que se limita a dizer o que realmente pensa. De outra forma, não existiria uma agenda carregada de intervenções cada vez mais inflamadas e um histórico entre os dois. Da bênção inicial à separação definitiva de águas, da disponibilidade anunciada para voltar quando todos apostavam que Montenegro não teria pedalada para derrotar Costa ao silêncio mortífero durante as presidenciais, do momento em que pôs o relógio do primeiro-ministro a contar até à frase do “prostituto político“, Passos tem sido o maior adversário de Montenegro. Com ou sem plano organizado, o antigo primeiro-ministro está apostado em abater o atual.
“Passos escolheu caminhar ao lado de Ventura. É uma opção. Mas deve ser responsabilizado por isso”, atira uma figura influente da AD, assumidamente “chocado” com a encenação que os dois — Passos e Ventura — protagonizaram ao final da tarde de terça-feira, quando aceitaram conversar à frente das câmaras de televisão sobre o momento atual do Governo e a alegada falta de ritmo reformista de Montenegro — isto já depois de, a 6 de maio, o mesmo Pedro Passos Coelho, à boleia das propostas do Chega para a reforma laboral, ter acusado Ventura de ser mais socialista do que os socialistas. “Não se consegue perceber.”
“Está desesperado“, tenta racionalizar um elemento do núcleo duro de Montenegro, esforçando-se para encontrar um racional para a atitude de Pedro Passos Coelho. A janela das presidenciais fechou e António José Seguro (que Passos considera ser um “homem decente“, mas não exatamente um prodígio) ocupa o Palácio de Belém. Está a ter a sua segunda vida política — Passos, por vontade própria, não agarrou essa oportunidade e é agora um pregador — influente, contundente, mas apenas um pregador.
Uma posição difícil para quem um dia assumiu que tinha deixado por terminar o projeto que começou em 2011. Só que não existe uma solução evidente para esse regresso. A menos que algo de muito extraordinário aconteça, Luís Montenegro, que o antigo primeiro-ministro não considera como um igual, só sairá do poder se o PSD perder eleições. E aqui importa notar o seguinte: na história recente, só por duas vezes um primeiro-ministro em funções perdeu eleições, no caso Pedro Santana Lopes e José Sócrates, ambos em circunstâncias absolutamente excecionais e quase irrepetíveis.
Ou seja, teoricamente, Montenegro tem uma boa oportunidade de cumprir um ciclo longo de poder — e Pedro Passos Coelho tem já 61 anos. No limite, o antigo primeiro-ministro poderia esperar pelo fim desta era. Mas seria a primeira vez que, depois de um ciclo longo no poder, os eleitores confiavam no mesmo partido para liderar o país — Guterres sucedeu a Cavaco; Barroso sucedeu a Guterres; Passos derrotou e sucedeu a Sócrates; Montenegro sucedeu a Costa.
Em teoria, um calendário político mais acelerado jogaria a favor de Pedro Passos Coelho. E a chave para isso seria desgastar Luís Montenegro e esperar que as eleições antecipadas viessem mais cedo do que tarde. Tanto mais que, na única resposta pública que deu ao antigo primeiro-ministro, Montenegro não deixou de sugerir que tem o tempo a seu favor. “Há os que dizem que temos um ritmo demasiado lento ou demasiado rápido, mas somos corredores com endurance. Para chegar à meta não se pode sprintar nos primeiros tempos nem ir demasiado devagar.”
Montenegro parece convencido de que controla o ritmo do jogo. Derrubado o Governo, o atual presidente do partido quererá sempre ir a votos e tem controlo suficiente da máquina para forçar isso mesmo. Nesse cenário, abrir-se-iam, depois, três ramificações: o PSD ganha e fica tudo na mesma; o PSD perde para o PS, existe maioria de direita no Parlamento, Montenegro sai do caminho e Passos aceita, sem ter ido a votos, liderar uma ‘geringonça‘ de direita — coisa que o próprio sempre afastou perentoriamente; ou, terceiro cenário, o PSD perde eleições para o Chega e Passos aceita ser número dois de Ventura — o que seria impensável.
Tudo somado, nem a sobrevivência a longo prazo de Luís Montenegro, nem a sua derrota precoce nas urnas, abririam caminho para uma cavalgada triunfante e imediata de Pedro Passos Coelho rumo ao poder. Primeiro, viria seguramente o caos e a implosão de uma parte do partido — aquela parte do partido que perdesse no debate sobre fazer ou não fazer alianças com o Chega. Sendo assumidamente um crítico do “não é não” de Montenegro a Ventura, Passos arrastaria consigo aqueles que, no PSD, defendem essa aliança. Poucos ou muitos, logo se veria.
Depois, Passos teria efetivamente de vencer as eleições legislativas a que concorresse. Acontece que, nas últimas eleições presidenciais, o eleitorado da AD mostrou bem o que pensa sobre Ventura e ajudou a entregar uma vitória esmagadora ao socialista António José Seguro. Não é assim tão claro que o PSD de Passos fosse muito maior do que a AD de Montenegro — e o beneficiário líquido poderia ser o PS, que usaria o ticket Passos/Ventura para convencer o centro-direita, tal como Seguro usou o líder do Chega para ganhar facilmente as presidenciais com os votos da direita.
Engolir Ventura e ler o ar dos tempos
Na única entrevista verdadeiramente de fundo que deu desde que deixou a liderança do PSD, ao jornal Eco, já depois das presidenciais, e mesmo sem nunca falar sobre os seus planos para o futuro, Passos fez todas estas contas. Mas, ao contrário de Montenegro, que já vai falando em maioria absoluta, o antigo primeiro-ministro apostou as suas fichas numa eventual vitória de Ventura em futuras eleições legislativas.
“O PSD não pode esperar [uma maioria absoluta] de um Parlamento tripartido. O BE e o PCP esvaziaram-se para o PS com o receio de que o PSD e Rui Rio pudessem ganhar as eleições. Mas não creio que o Chega se esvazie, nem que a Iniciativa Liberal se esvazie porque o PS pode ganhar as eleições futuras. Até acho muito pouco provável que, no dia em que o PSD perca as eleições, seja o PS a ganhá-las. Diria que isso não é o mais provável. Muito provavelmente é o Chega. É o partido que está mais próximo de poder aspirar a amealhar algum descontentamento que possa ser gerado pelo exercício de poder governativo”, afirmou Passos.
Quem conhece Pedro Passos Coelho atribui a intervenção que fez na terça-feira à interpretação que o próprio faz da realidade política: o antigo primeiro-ministro acredita que só mostrando efetiva vontade de rasgar e de fazer diferente pode salvar o “original” (PSD) da “cópia” (Chega). O tempo dos políticos mornos acabou.
“O que é autêntico e genuíno sempre se manifesta de forma muito mais eficaz do que o que é postiço. E então o postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa fornecer. A mesma multidão que o aplaude, o condena passado muito pouco tempo quando o futuro, que não é desejado, chega”.
É para estes portugueses que Passos gostava de ver o seu partido falar. Pelo menos, é para estes portugueses, muitos deles refugiados no Chega, que Passos está a falar. Arriscar mudar, arriscar fazer diferente, arriscar reformas, enfrentar os interesses instalados, sejam eles corporativos ou de determinados segmentos eleitorais, desagradar mesmo que isso signifique perder eleições, é, para o antigo primeiro-ministro, o único antídoto para esvaziar Ventura. Aliás, há quem, entre os apoiantes de Passos, note como Ventura estava “encantado” e “submisso” ao lado do ídolo de carne e osso. “Passos ocupa o espaço de Ventura — e Ventura sabe-o.”
Mas as coisas são como são e os cenários vão-se esgotando à medida que se tenta ler o futuro com a lente do que aconteceu no passado. A tempestade teria de ser perfeita para empurrar o antigo primeiro-ministro para o poder. “Passos poderia aparecer com força num contexto de crise financeira, o que, apesar da difícil conjuntura internacional, é improvável. Ou se houvesse uma degradação enorme da vida democrática, com casos graves de corrupção ou algo idêntico — o que é algo que não deve acontecer”, continua o mesmo elemento do núcleo duro de Luís Montenegro.
Por tudo isto, o caminho para um regresso triunfante de Pedro Passos Coelho à frente do PSD — um PSD atualmente liderado por uma geração que o antigo primeiro-ministro não se cansa de destruir a cada intervenção — seria sempre muito difícil. De resto, o próprio já o assumiu várias vezes. “Se tudo correr bem e as coisas correrem de modo que o país esteja satisfeito e o PSD, que está no Governo, esteja satisfeito com o seu desempenho, por que razão é que agora hão de ir ao baú da história. Acho pouco provável que venha a desempenhar uma função tão ativa quanto aquela que já desempenhei [de primeiro-ministro]. E tenho a ideia que, se isso, algum dia, se vier a equacionar não há de ser, seguramente, pelas melhores razões“, chegou a dizer publicamente.
Sobra um cenário alternativo em que ninguém aposta um cêntimo: Passos aceitar ser a figura de proa de um novo partido à direita que juntasse sociais-democratas, liberais e democratas-cristãos desiludidos com o atual estado de coisas. A ideia surgiu em força esta semana, patrocinada por figuras tão diferentes como Pedro Gomes Sanches (um admirador confesso de Passos), Francisco Mendes da Silva (ex-CDS) e Nuno Gonçalo Poças, advogado e colaborador do Observador. Três figuras que calha de não concordarem entre si sobre o que deve ser o futuro da direita, nem com aquilo que Pedro Passos Coelho pensa das alianças com o Chega. Era difícil imaginar pior ponto de partida para convencer o antigo primeiro-ministro a entrar em tal aventura.
https://observador.pt/especiais/da-bencao-a-rutura-final-a-historia-do-confronto-adiado-entre-passos-e-montenegro/