(c) 2023 am|dev

(A) :: Eutanásia na gaveta. Governo responsabiliza partidos e ninguém avança com soluções

Eutanásia na gaveta. Governo responsabiliza partidos e ninguém avança com soluções

Governo acredita que partidos devem corrigir lei, mas ninguém avança com iniciativas. Direção do PS diz que "não há nada de novo". Isabel Moreira garante que Executivo só não avança "porque não quer".

Mariana Lima Cunha
text

Foram sete anos de debates e votações, vetos do Tribunal Constitucional e de um Presidente (Marcelo Rebelo de Sousa) assumidamente católico, batalhas parlamentares e, por fim, a aprovação. E a partir daí… nada. Há três anos que a eutanásia é lei, mas foi colocada na gaveta e não tem perspetivas de ver, na prática, a luz do dia. Depois de um chumbo de algumas normas que fazem parte da lei, no ano passado, o Governo entende que os partidos devem corrigir o diploma, mas estes ou não respondem ou devolvem-lhe essa responsabilidade. E no meio do passa-culpas, não há qualquer resposta sobre se a lei chegará alguma vez a ser aplicada.

Do lado do Governo, nunca houve pressa em regulamentar a lei para que esta pudesse ser posta em prática: primeiro, porque era preciso esperar por uma decisão do Tribunal Constitucional relativamente a um pedido de fiscalização feito pela então provedora da Justiça e por um grupo de deputados do PSD; depois, porque os juízes acabaram por se pronunciar contra algumas normas. Ao Público, este mês, o Ministério da Saúde, dizia que “não estão reunidas as condições de segurança jurídica para avançar com a regulamentação nos termos atuais”, devido à última decisão do TC, e que seria preciso garantir que “qualquer aplicação respeita plenamente a Constituição e a segurança jurídica”.

O Ministério de Ana Paula Martins entendia mesmo que a decisão do Palácio Ratton tinha afetado “elementos centrais da lei” e que se pedia “prudência” no que toca a tentar regulamentar um diploma nestas condições. Ao Observador, fonte do Executivo confirma que o Governo entende que têm de ser os partidos a pegar na lei e a voltar a corrigi-la para responder às exigências do Tribunal Constitucional, garantindo que neste momento não há condições para que seja regulamentada e que o Executivo não pode avançar.

Ora, acontece que do lado dos partidos não há qualquer plano ou iniciativa neste sentido. O Observador questionou responsáveis de todos os proponentes que tentaram que a lei fosse aprovada desde 2016 (PS, Bloco de Esquerda, PAN e mais tarde Iniciativa Liberal) mas nenhum deu nota de que haja planos para revisitar a lei. No PS, fonte da direção indicou que neste dossiê não existe “nada de novo” a dizer.

A única explicação mais concreta veio da socialista Isabel Moreira, que tem sido a responsável por este e outros dos temas chamados “fraturantes” na bancada do PS. Confirmando que do lado do partido não há nenhuma iniciativa prevista sobre o tema, a deputada diz ao Observador entender que o último acórdão do Tribunal Constitucional “não dá razão a nenhuma objeção de fundo”, limitando-se a precisar uma questão específica relativa “à avaliação médica ser presencial”, o que do ponto de vista do partido “não carece de intervenção legislativa, basta-se com uma interpretação conforme”.

“Por isso, o Governo só não regulamenta porque não quer. O TC afastou todas as questões substanciais de inconstitucionalidade. De vez”, responde Isabel Moreira ao Observador, defendendo assim que deve ser o Governo a avançar e a permitir que a lei passe a ser uma realidade.

"A morte assistida, como questão de princípio, é um problema de ordem política, cabendo ao legislador, no gozo da sua legitimidade democrática, arbitrar a tensão perene entre valores constitucionais (...) Porém, quanto a três questões formaram-se maiorias no sentido da inconstitucionalidade", decidiu o TC há um ano

As três razões do Palácio Ratton contra esta versão da lei

A divergência tem, assim, a ver com a forma como Governo e partidos, ou pelo menos PS, interpretam o último acórdão do TC, de abril de 2025, após acórdãos anteriores cujos reparos foram acolhidos e corrigidos pelos partidos. Na altura, o tribunal anunciava que “quase todas” as normas do diploma estavam conforme a Constituição e recordava que a morte assistida é um problema de “ordem política”, não estando o princípio da eutanásia em si em causa, e que caberia ao legislador, “no gozo da sua legitimidade democrática”, “arbitrar a tensão perene entre valores constitucionais de sentido contrário”.

Apesar de a questão principal ficar assim resolvida e de o TC arrumar também aqui outros conceitos que em acórdãos anteriores tinham gerado reservas (como a definição legal do conceito de sofrimento ou os conceitos indeterminados de doença e lesão), ainda assim existiram três questões que o tribunal julgou inconstitucionais. Primeiro, declarou inconstitucionais vários segmentos da lei “que pressupõem que o doente tem o direito a escolher entre os dois métodos de morte medicamente assistida — suicídio ou eutanásia”, uma vez que a lei esclarece que só consente a eutanásia se o doente estiver “fisicamente impossibilitado” de tomar a medicação letal.

“No entender do Tribunal, estes lapsos do legislador, numa matéria extremamente sensível, podem criar dificuldades desnecessárias ao intérprete e geram um risco evitável de má aplicação do direito, ofendendo o princípio constitucional da segurança jurídica”, dizia o tribunal, usando assim uma expressão que o Governo repete agora para justificar a não regulamentação da lei nestas condições.

Além disso, os magistrados declararam inconstitucional a norma que “regula o modo de intervenção do médico especialista na patologia que afeta o doente, ao não exigir que este seja examinado, ao contrário das legislações estrangeiras que consagram regimes de eutanásia mais próximos do português – a belga, a luxemburguesa e a espanhola”. “No entender do Tribunal, a omissão desta exigência comum põe em causa a idoneidade, objetividade, impassibilidade e confiabilidade do juízo médico de verificação das indicações clínicas da morte assistida (…)”, justificavam os juízes.

Em terceiro lugar, o Tribunal chumbou a norma que impõe ao médico que se recuse a praticar ou a ajudar no ato da morte medicamente assistida o “ónus de especificar a natureza das razões que o motivam”, uma vez que entendeu que fazer esta exigência ao médico seria “uma restrição desadequada, desnecessária e desproporcional da liberdade de consciência, na vertente negativa da liberdade de não manifestar a terceiros as convicções pessoais”.

Carneiro é contra eutanásia, mas prometeu não pôr obstáculos

Chegados aqui, o Governo insiste que estas três questões são centrais e não permitem que a lei avance e seja regulamentada, pelo que cabe aos partidos corrigi-la; e os partidos não fazem qualquer previsão nesse sentido, sendo que Isabel Moreira, que é também constitucionalista, garante que nada disto são problemas essenciais e que o Governo consegue resolvê-los com uma boa regulamentação da lei.

Os partidos não deram indicação de que fossem desistir de que a lei por que se bateram durante anos fosse aplicada, embora possam existir reservas sobre o resultado que uma votação sobre o tema teria hoje, dada a atual conjuntura parlamentar (Chega, CDS, PCP e a grande maioria do PSD são contra). Entretanto, o PS mudou de líder, sabendo-se que José Luís Carneiro é pessoalmente contra a eutanásia: no Público, chegou a escrever, em 2020, um artigo de opinião em que justificava o seu voto contra a lei “pela mesma razão que a maioria vota a favor”, ou seja, “por entender que o fim de um sofrimento duradouro, tecnicamente sem cura, está na procura de uma certa dignidade no modo de encarar o fim da vida”.

Nessa altura, Carneiro argumentava que caberia à sociedade agir para que as “circunstâncias” que formam a vontade de alguém de “partir” melhorem, de forma a “promover e garantir o desejo e a vontade de viver”. E pegava nos fundamentos do “humanismo cristão” para defender que existe um imperativo ético e moral de defender a vida humana com todos os meios da sociedade e do Estado.

Mas já como candidato à liderança do PS, quando concorreu contra Pedro Nuno Santos, confirmava ao Observador que não colocaria em causa um diploma já aprovado e pelo qual os socialistas se tinham batido: “A decisão do Parlamento está tomada e será respeitada. Isso implica assumir a regulamentação da lei, mal entre em funções um novo Governo”, assumia então fonte da candidatura.

Apesar disso, até ver nada aconteceu, nem do lado do Governo nem dos partidos. E neste momento não existe nenhuma perspetiva de que vá acontecer, cumprindo-se agora três anos desde que a lei foi aprovada, a 25 de maio de 2023, sem que tenha sido regulamentada por António Costa ou por Luís Montenegro. O Público noticiava recentemente que subiram para 80 os portugueses inscritos na Dignitas, para recorrer à eutanásia na Suíça, onde o procedimento é legal.