Quase quatro meses depois do impacto da tempestade Kristin na região centro do país, a E-Redes está a trabalhar para passar a definitivas as soluções provisórias encontradas para acelerar a reposição do fornecimento elétrico. O presidente da E-Redes deu alguns exemplos sobre estas soluções definitivas, referindo dois casos de enterramento de linhas de média e alta tensão que eram aéreas e que foram derrubadas pela força do vento. No outro exemplo dado foi decidido mudar o traçado da linha de forma a evitar o atravessamento de um pinhal na Sertã.
Os três exemplos foram referidos por José Ferrari Careto no Parlamento esta quarta-feira, numa audição sobre os efeitos da tempestade Kristin. Mais de 6.000 quilómetros de rede elétrica e 5.300 postos de apoio foram afetados.
Os exemplos dados pelo gestor são o enterramento da linha de média tensão entre a Marinha Grande e Vieira numa extensão de 15 quilómetros cuja nova solução prevê um cabo todo a terreno colocado diretamente numa vala sem areia e com proteção automática. Este investimento está orçado em 3,5 milhões de euros e deverá ficar concluído no final do ano.
A linha aérea de alta tensão Ranha-Ortigosa-Pinheiros (Leiria) numa extensão de 26 quilómetros também será enterrada num troço de 3,6 quilómetros, estando ainda previsto um sobredimensionamento dos apoios na parte que se manterá aérea. Este investimento de 4,5 milhões de euros inclui também uma solução inovadora de perfuração por valadeiras para acelerar o ritmo de execução que deverá estar concluída até final de 2026.
No caso da linha de média tensão na região da Sertã, a opção foi mudar o percurso, o que implica instalar 8800 metros de cabo de 15 kV através de caminhos municipais em vez do atravessamento mais curto pela floresta. Esta solução facilita o acesso e a gestão da faixa de combustíveis. O projeto estará concluído nos primeiros três meses de 2027, segundo apresentação entregue ao Parlamento. José Ferrari Careto foi ouvido na comissão de ambiente e energia a pedido da Iniciativa Liberal que também chamou o presidente da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, Pedro Verdelho.
Durante a audição, o gestor da E-Redes reforçou o carácter excecional das tempestades e avisou que “não há qualquer infraestrutura que esteja preparada para qualquer evento”.
É necessário avaliar o custo-benefício das soluções que aumentam a resiliência da rede, repetiu várias vezes. Enterrar linhas elétricas é mais caro e os custos vão parar aos consumidores através das tarifas de eletricidade.
Os danos da tempestade deitaram por terra infraestruturas construídas ao longo de décadas, um período durante o qual foram tomadas decisões em que às vezes se privilegiou um custo menor, reconheceu. Mas, sublinhou ainda, o aumento da resiliência da rede elétrica não passa só pelo enterramento. Ferrari Careto apontou para outras modalidades como o telecomando e sistemas de monitorização em tempo real.
O presidente da E-Redes lembrou ainda o estudo que foi pedido à Direção-Geral de Energia e Geologia para avaliar a resiliência de toda a rede elétrica a nível nacional.
A EDP, dona da E-Redes, estimou em 80 milhões de euros os prejuízos causados pelo comboio de tempestades que atingiu Portugal no início do ano. Para além das redes de alta, média e baixa tensão geridas pela E-Redes, foi também atingida a rede de muito alta tensão operada pela REN.
Mais de um milhão de pessoas chegaram a estar sem energia elétrica. A E-Redes assegura ter reposto o serviço afetado na totalidade no prazo de um mês, mas para tal teve de recorrer a respostas provisórias, como passar os cabos pelo chão, e usar geradores para energizar postos de transformação. O que está agora no terreno é a consolidação das soluções transitórias que foram encontradas, um processo que irá demorar ainda vários meses. O presidente da E-Redes referiu que a maior dificuldade da empresa nesta fase é a de encontrar a mão-de-obra que necessita para os trabalhos.