O investimento no Serviço Nacional de Saúde no ano passado permitiu um retorno económico de 10,2 mil milhões de euros, pelas faltas ao trabalho que evitou e pelo impacto na produtividade, indica um estudo divulgado esta quarta-feira
Segundo os dados do novo Índice de Saúde Sustentável, desenvolvido pela Nova Information Management School (Nova IMS) e a que a Lusa teve acesso, quase metade (cerca de 47%) dos portugueses faltou pelo menos um dia ao trabalho por questões de saúde e 7,7% faltou mais de 20 dias.
Os dados revelam que a prestação de cuidados de saúde permitiu evitar, em média, 1,4 dias de ausência laboral, representando uma poupança de 800 milhões de euros. No que diz respeito à produtividade, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) permitiu evitar a perda do equivalente a 11,1 dias de trabalho por pessoa, o que se traduziu numa poupança adicional de seis mil milhões de euros.
No total, somando o impacto no absentismo e na produtividade, o SNS permitiu uma poupança de 6,8 mil milhões de euros (via salários), que, tendo em conta a relação entre produtividade e remuneração, se traduz num retorno económico de 10,2 mil milhões de euros.
“O impacto do SNS [na economia] é inquestionável e o valor que nós estimamos, só por meio dos salários, é de quase sete mil milhões”, disse Pedro Simões Coelho, coordenador do estudo, sublinhando o reforço de uma tendência que já aparecia anteriormente: o SNS perdeu impacto no absentismo e ganhou no aumento da produtividade. O responsável disse que a evolução era de esperar no mundo pós-covid, em que as formas de organização do trabalho se modificaram: “agora há menos contribuição [do SNS] para o absentismo, mas uma enorme contribuição sobretudo para a redução do presenteísmo, ou da perda de produtividade”.
Sustentabilidade do SNS nos 59 pontos em 100
A edição do Índice de Saúde Sustentável 2025/26 incorpora uma atualização metodológica alinhada com a evolução do próprio SNS — que passou para um financiamento por capitação – e contempla uma nova componente dedicada à prevenção. É nas dimensões relacionadas com o estado de saúde e qualidade de vida que os utentes reconhecem maior impacto do SNS.
O novo índice de sustentabilidade do SNS está nos 59,3 pontos (de 0 a 100), para o qual contribui o aumento substancial da despesa (+9,1%), a subida do stock da dívida vencida (-31%), a ligeira redução da atividade, a estabilização dos níveis de qualidade, a diminuição da acessibilidade e os resultados da nova componente da prevenção. “É um sistema cujo principal ponto forte continua a ser de qualidade (…) e que continua a ter como ponto fraco a acessibilidade”, explicou Pedro Simões Coelho, sublinhando a “elevada pressão financeira” do SNS.
Dois terços dos portugueses fizeram análises de rotina no SNS
O mesmo estudo revelou também que quase três em cada quatro utentes realizaram no último ano uma ação de prevenção, como análises clínicas e consultas de rotina, no SNS. 73% dos utentes realizaram pelo menos uma ação de prevenção. Dos que o fizeram, 67,8% procuraram o SNS para análises clínicas de rotina, 61,8% para consultas de rotina/check-up e 50,6% para exames de diagnóstico para controlo preventivo. Cerca de um terço (32%) realizou ações preventivas no setor privado.
Para calcular o índice de sustentabilidade do SNS são usadas componentes como a capacidade/resposta assistencial, a qualidade (técnica percecionada), o acesso e a sustentabilidade financeira, com diferentes ponderações e todas elas convertidas numa escala de 0 a 100. Em declarações à Lusa, o coordenador do estudo, Pedro Simões Coelho, explicou os motivos que levaram este ano a atualizar a metodologia para o cálculo do índice de sustentabilidade: “antes tínhamos um sistema de saúde que estava totalmente virado para atividade, para a produção. Agora temos um sistema que é financiado pela capitação e que deverá incentivar a prevenção”. “Um sistema de saúde cuja despesa tem vindo a crescer deixará de ser sustentável, a prazo, se não apostar na prevenção”, acrescentou.
O especialista confessou que a fotografia dada pela nova componente do índice (prevenção) foi “uma boa surpresa”: “Estava à espera de termos uma fotografia de um sistema muito virado para tratar os pacientes críticos e os crónicos, e não tanto para a prevenção”.
“Nos cálculos que fizemos, a prevenção tem um valor bastante elevado [quase 65 pontos, em 100]. É o segundo maior, logo a seguir à qualidade”, sublinhou, acrescentando que “é um dos principais pontos fortes do sistema”. Ainda sobre a prevenção, Pedro Simões Coelho diz-se convencido de que será a única chave para o SNS sair de “um circuito permanente de crescimento de despesa muito grande e de crescimento muito anémico da atividade”.
Pontos fracos do SNS são capacidade de resposta assistencial e sustentabilidade financeira
Os três pontos mais fracos do SNS, segundo os dados recolhidos, são o acesso, a capacidade de resposta assistencial e a sustentabilidade financeira, devido à grande pressão do crescimento da despesa.
“O futuro do SNS terá que passar pela prevenção e isso liga-se com a inovação”, afirmou o responsável, considerando essencial, no futuro, dar o salto para uma escala diferente, que traga “uma prevenção mais personalizada”, o que só se conseguirá com “uma maior utilização de dados e de ferramentas analíticas”.
Globalmente, os utentes continuam a considerar o preço do SNS adequado e apenas 12% considera o valor das taxas moderadores desadequado. Contudo, os dados mostram que há uma ideia errada (muitas vezes sobrestimada) sobre os valores efetivamente cobrados, tanto nas consultas como nos internamentos. Subiu ligeiramente a percentagem de utentes (12%, mais 1,4 pontos percentuais) que não comprou medicamentos por causa do preço.
https://observador.pt/2022/11/18/burocracia-e-falta-de-recursos-sao-principais-barreiras-ao-acesso-ao-medicamento-2/
Na ótica dos utentes, os profissionais de saúde são o ponto forte do SNS. Já os tempos de espera, o acesso aos cuidados e o contacto com os serviços de saúde são os principais pontos fracos e, por isso, devem ser as áreas prioritárias de atuação.
Outra conclusão do estudo é que mais de metade dos utentes avaliam de forma positiva ou muito positiva a modernização tecnológica dos equipamentos usados no SNS, mas apenas um terço diz que os doentes têm acesso atempado a medicamentos inovadores. Segundo o Índice de Saúde Sustentável 2025/26, desenvolvido pela NOVA Information Management School (NOVA-IMS), 51% dos utentes avalia o SNS de forma positiva ou muito positiva e 56% acredita que acompanha a evolução tecnológica na área da saúde.
Sobre a inovação digital e em termos de organização, a maioria acredita que o SNS utiliza adequadamente tecnologias digitais (61%) e que se adapta rapidamente a novos desafios de saúde (57%).
Contudo, os utentes mostram-se menos confiantes quanto à inovação terapêutica: apenas 34% acredita que os doentes em Portugal têm acesso atempado a novos medicamentos inovadores através do Serviço Nacional de Saúde.