Andam pelas televisões numerosos especialistas de lagares de azeite a explicar-nos, com a solenidade do disparate, que o JCPOA (Acordo Obama) era uma obra-prima diplomática, que Obama foi um visionário e que Trump só o denunciou por despeito.
A profecia seguinte, embrulhada no mesmo papel de fantasia desejante, é que Trump será obrigado a assinar um acordo pior.
No fundo, é como se o problema tivesse sido a vaidade de Trump, e não a natureza profundamente defeituosa de um acordo que dava ao Irão dinheiro, legitimidade, tempo e um caminho calendarizado para regressar ao objectivo de eliminar a “entidade sionista”.
Ora isto é mero catecismo e dos maus. É dizer que qualquer acordo é melhor do que nenhum, desde que seja assinado por pessoas suficientemente elegantes, sorridentes e engravatadas.
A verdade é que o Acordo Obama não desmontou a ameaça. Limitou-se a etiquetá-la, adiá-la e, de caminho, financiou o regime. Voaram, literalmente, aviões dos EUA para Teerão, carregados de notas de dólar.
Há acordos maus porque não funcionam. E há acordos perigosos, que são maus precisamente porque funcionam durante algum tempo. O Acordo Obama, assinado em 2015, é o exemplo perfeito. Funcionava suficientemente bem para apaziguar ansiedades, animar comentadores engajados e permitir a Obama vender ao mundo uma vitória diplomática que justificasse à posteriori o esperançoso Nobel da Paz. O único problema é que era apenas uma bomba com retardador e não resolvia o problema nuclear iraniano.
Convém começar pelo óbvio: o acordo limitou temporariamente o programa nuclear iraniano. Reduziu o stock de urânio enriquecido, travou o enriquecimento acima de 3,67%, limitou o Irão a cerca de 300 kg de urânio enriquecido e restringiu durante dez anos a operação de centrifugadoras em Natanz. A instalação subterrânea de Fordow, construída sub-repticiamente, não podia enriquecer urânio durante 15 anos. Tudo isto estava lá escrito, tudo isto era largamente duvidoso, e tudo isto comprava tempo.
Mas comprar tempo não é o mesmo que resolver uma ameaça. Na melhor das hipóteses é prudência, na pior é táctica de avestruz.
Os defensores do Acordo diziam que a peça aumentava o tempo necessário para produzir material físsil suficiente para uma arma e Obama vendeu-o exactamente nesses termos. Só que aumentar o tempo necessário para chegar à bomba, não eliminava a capacidade, não desmontava a infraestrutura, não punha fim à ambição, não resolvia o problema. Empurrava-o para a frente com a barriga, como um mau pai que deixa as dívidas para os filhos pagarem.
Em troca de quê? De legitimidade internacional, alívio financeiro e reconhecimento de que o Irão, depois de anos de clandestinidade, mentiras e instalações subterrâneas, tinha afinal direito a manter uma indústria de enriquecimento. Um excelente prémio para um infractor reincidente.
Aceitar o enriquecimento iraniano era pois primeiro pecado do Acordo Obama. Durante anos, a posição ocidental era que um regime que escondeu Natanz, construiu Fordow debaixo de uma montanha, enganou a AIEA e patrocinou milícias e terrorismo por todo o lado, não precisava de enriquecer urânio em casa para “fins pacíficos”. Para isso podia comprar combustível nuclear no mercado internacional, como fazem países muito menos suspeitos e muito mais civilizados. Mas Obama abandonou essa linha sensata e prudente, na ânsia de declarar sucesso.
O segundo pecado eram as cláusulas de caducidade. Algumas restrições expiravam ao fim de 10 anos, outras ao fim de 15, 20 ou 25. Isto significava que o Irão, cumprindo o acordo, podia esperar. Esperar é uma especialidade revolucionária moderna. Ao regime iraniano bastava sobreviver a várias administrações americanas, a várias eleições europeias e à capacidade inesgotável do Ocidente para confundir tinta num papel com realidade estratégica. No ano 15, o problema regressaria, com certificado legal de baptismo.
O terceiro pecado era Fordow. Uma impressionante e dispendiosa instalação nuclear subterrânea e fortificada, construída secretamente, é mais uma declaração geológica de má-fé do que um atestado de boas intenções. O Acordo Obama assobiou para o ar perante Fordow, sugeriu apenas que fosse convertida e que não enriquecesse urânio durante 15 anos. É como encontrar uma oficina clandestina de bombas e permitir que continue aberta, desde que por enquanto fabrique apenas carvão para grelhadores.
O quarto pecado foi deixar os mísseis balísticos fora do acordo. A Resolução 2231 da ONU “apelava” ao Irão para não desenvolver actividades relacionadas com mísseis balísticos concebidos para poder transportar armas nucleares. Não proibia, não criava uma arquitectura de sanção automática, não tratava o vector como parte essencial da ameaça.
O Irão andava e anda a ameaçar continuamente a “entidade sionista” de erradicação. Ora uma arma nuclear não é apenas urânio enriquecido. É também ogiva, sistema de detonação, cadeia de comando e vector de entrega. Separar a bomba do míssil é como dizer: “calma, eles só estão a construir a espingarda, a bala não interessa”
O quinto pecado foi ignorar Hezbollah, Hamas, Houthis, milícias xiitas iraquianas, Síria, Guarda Revolucionária, terrorismo, subversão regional. Ora o problema iraniano nunca foi apenas nuclear. O nuclear era a apólice de seguro de um projecto imperial revolucionário e o derradeiro meio para destruir o inimigo cósmico. Ainda há dias ( 25 de Maio), na mensagem para o Hajj, Khamenei (ou seja a Guarda Revolucionária) disse que o “regime sionista”, o “tumor canceroso de Israel” não existirá dentro de 15 anos.
Aliviar sanções a este fantástico projecto e fingir que o resto é apenas business as usual, é confundir ingenuidade com estupidez.
O sexto pecado foi o passado militar nuclear iraniano. Em 2015, a AIEA concluiu que o Irão desenvolvera actividades relevantes para um explosivo nuclear antes de 2003, com algumas actividades depois disso, embora dissesse não ter indicações suficientes de actividades relevantes depois de 2009. Esta formulação generosa permitiu fechar politicamente o dossiê das possíveis dimensões militares, ou seja, pôs-se uma tampa em cima da panela e fez-se de conta que não havia nada lá dentro.
Depois veio o arquivo nuclear iraniano revelado por Israel em 2018. 55 mil páginas e ficheiros, desviados do Irão pela Mossad, a prova insofismável de que o Irão mentiu descaradamente sobre o seu programa militar nuclear. Ou seja o projecto Ahmad era mais avançado e organizado do que se sabia, e visava expressamente obter armas nucleares e vectores para as lançar para os alvos. Ficou pois provado que o Acordo Obama fora assinado com um regime que mentira sobre a própria natureza do problema que o Acordo pretendia resolver. A diplomacia baseada na confiança pode ser aceitável com a Noruega, mas com a República Islâmica é humor negro.
Há ainda o sétimo pecado: as inspecções. A AIEA tinha, no papel um regime de verificação robusto. Mas a questão é mais fina. O Acordo não dava acesso imediato, irrestrito e automático a qualquer local militar suspeito. Havia procedimentos, prazos, mediações, acesso gerido, avisos com quase 30 dias de antecedência Quando lá chegava a AIEA podia contar zeros sacos de farinha, mas era incapaz de saber se, na sala ao lado, se tinha escrito a receita do bolo. E, para não escavacar o Acordo, a AIEA ia suavizando os relatórios, a pedido dos ouvidos sensíveis que não queriam ouvir más notícias.
Trump fez bem em denunciar o acordo? Fez.
Não porque o JCPOA fosse totalmente inútil, mas porque aceitava como solução aquilo que era apenas uma pausa; aceitava como moderação aquilo que era táctica; aceitava como verificação aquilo que não resolvia a intenção; normalizava uma anomalia intolerável.
A Casa Branca alegou que o Acordo Obama apenas adiava a capacidade iraniana, preservava investigação e desenvolvimento nuclear e não protegia adequadamente os interesses de segurança dos EUA. E era tudo verdade!
Pode discutir-se a execução posterior, a falta de uma estratégia diplomática alternativa robusta, o choque com os europeus e os efeitos da retirada unilateral. Tudo isso merece debate, mas a crítica central estava certa: o acordo dava ao Irão um caminho legal e internacionalmente tolerado para se tornar um Estado nuclear com expressas intenções genocidas.
Os resultados prováveis do Acordo Obama, se tivesse sobrevivido intacto, seriam:
Primeiro, o regime iraniano ganharia tempo e dinheiro. Segundo, preservaria conhecimento, pessoal, instalações e orgulho tecnológico. Terceiro, continuaria a desenvolver mísseis e a reforçar os proxies. Quarto, esperaria pela caducidade das restrições mais pesadas. Quinto, regressaria rapidamente ao nuclear já não como pária apanhado em mentira, mas como signatário de um acordo internacional que simplesmente chegara ao seu termo.
Nessa altura, os mesmos que em 2015 disseram que não havia alternativa, diriam outra vez que não há alternativa. A grande vantagem dos maus acordos é que criam as condições para que o próximo mau acordo pareça inevitável.
O Acordo Obama foi vendido como uma ponte para a paz, mas era um mero pontão para a próxima chantagem. Comprou tempo ao vendedor errado e pagou-o caro.
Trump percebeu que quando um regime revolucionário aceita adiar uma ambição estratégica, significa apenas que olhou para o relógio e concluiu que podia encanar a perna à rã.
O Ocidente, como sempre, confundiu a perfídia iraniana com moderação. Continua a fazê-lo. É um erro e, em política internacional, os erros não costumam explodir no dia em que são cometidos, mas quando os seus autores já estão a escrever memórias, a dar palestras e a explicar, com superioridade moral, que a culpa foi da realidade.
Se, como profetizam os especialistas dos lagares de azeite com a habitual acidez anti-americana, Trump se prepara agora para assinar um JCPOA com bigode postiço, trunfa laranja e mais fanfarra, o erro será monumental. Não porque o Acordo Obama fosse fantástico, mas porque será difícil explicar ao mundo que se rasgou um mau acordo para, anos depois, regressar com uma cópia pior, apenas carimbada com outro logótipo e vendida como triunfo pessoal. Se isso se concretizar, eu serei o primeiro a grelhá-lo, porque será uma rendição com maquilhagem e uma capitulação em letras grandes. O Irão não precisa de mais tempo. Já teve décadas. Nós é que parecemos precisar sempre de mais uma oportunidade para não aprender nada.