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A Magnífica Humanidade e as suas cicatrizes

Ao contrário das máquinas, por mais sofisticadas que estas sejam, possuímos consciência e somos - todos nós - seres morais e espirituais.

André Azevedo Alves
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A primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, assinada a 15 de Maio 2026 – precisamente 135 anos depois da data em que o Papa Leão XII assinou a marcante encíclica Rerum Novarum – dá seguimento ao desígnio apontado pelo Papa de colocar a Doutrina Social da Igreja ao serviço da procura de respostas para a nova revolução industrial e cultural em curso com os desenvolvimentos da inteligência artificial.

Por estes dias em que muito se vai certamente comentar e publicar sobre esta encíclica creio que a recomendação mais importante que é possível fazer a seu respeito é a de a ler integralmente. Idealmente mais do que uma vez e com calma – não cedendo à tentação de formar opinião sobre ela exclusivamente com base nos comentários de terceiros ou num qualquer resumo solicitado a uma das muitas ferramentas de IA disponíveis.

Não tendo ainda havido tempo suficiente para processar os múltiplos e profundos enfoques da Magnifica Humanitas, pretendo focar-me para já num aspecto específico, magnificamente sintetizado no seu n. 120:

“Para suprimir totalmente a dor, seria necessário, no fundo, extinguir também o amor e o desejo. Realmente, quem ama e deseja não pode evitar passar pela provação e pelo sofrimento e, por isso, ao longo dos anos, guardamos dentro de nós ensinamentos que ficam gravados como cicatrizes, lembrança do caminho percorrido entre liberdades e quedas, sonhos e desilusões. É só graças à interligação destes elementos que, no coração, acontecem aqueles prodígios da alma que nos fazem experimentar o sabor mais doce da nossa humanidade. Renunciar a esta aventura, simultaneamente dramática e esplêndida, em nome de uma suposta superação de todos os limites, pode significar qualquer outra coisa, mas não ser humanos.”

A ideia de que a concretização do ideal utópico de supressão completa da dor e do sofrimento exigiria a extinção do amor e do desejo pode parecer inicialmente lateral – e talvez até deslocada – numa encíclica que tem como preocupação central salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial. Mas creio que esta é na verdade uma ideia fundamental para a discussão que enfrentamos. De facto, as ideologias transumanistas e pós-humanistas que colocam em cima da mesa o sonho de eliminar os limites intrínsecos da condição humana derivam uma boa parte do seu apelo da realidade – inegável e frequentemente trágica – do sofrimento humano.

Mais do que a promessa de capacidades extraordinárias ou mesmo de novos estádios da evolução humana, arrisco dizer que para o imaginário colectivo das sociedades contemporâneas é a possibilidade colocada no horizonte de remover todo o sofrimento e perda que gera efectivamente um apelo mais tentador. Certamente nem todos ambicionamos poderes sobre-humanos ou aceder a níveis de consciência nunca antes experienciados pelos nossos antepassados, mas todos nós passamos pela experiência da dor física e psicológica, da perda irreparável de entes queridos e por outras formas de sofrimento, muitas vezes difíceis de explicar e aceitar. Perante este cenário, e em sociedades ocidentais crescentemente laicizadas e desenraizadas, as promessas supostamente ultra-racionalistas do transumanismo e do pós-humanismo assumem – paradoxalmente – um apelo redentor. Como nos tornamos demasiado sofisticados para acreditar na possibilidade de salvação por via do sacrifício de Jesus na Cruz, a esperança na redenção por via da tecnologia assume o seu lugar.

Note-se que não está aqui em causa o uso da tecnologia como factor de aperfeiçoamento e – sempre que possível – de genuíno alívio da dor e do sofrimento humanos, mas a filosofia que lhe está subjacente, como aliás é salientado no n. 117 da Magnifica Humanitas: “O ponto crítico, à luz da Doutrina social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos.”

Ao contrário das máquinas, por mais sofisticadas que estas sejam, possuímos consciência e somos – todos nós – seres morais e espirituais. Parte inalienável dessa nossa natureza e essência é a capacidade de amar e sofrer. Imaginar uma vida sem qualquer sofrimento não é imaginar uma existência pós-humana: é ter como horizonte (ainda que por motivos apelativos e aparentemente bem intencionados) a eliminação da nossa própria humanidade. Por isso, também logo na fase inicial da encíclica (n. 15) se salienta:

“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor.”

Na era da inteligência artificial, e perante os apelos crescentes das ideologias transumanistas e pós-humanistas, importa mais do que nunca percebermos que a nossa magnífica humanidade assenta numa capacidade de amar que não é concebível sem a experiência do sofrimento, por muito incompreensível, injusta e desesperante que esta se apresente. As provações e cicatrizes que acumulamos são parte do que nos torna genuinamente humanos.