Está a chegar o verão, tempo da chamada silly season, que é como quem diz época alta das flotilhas “humanitárias” “para Gaza”. Ui, o que deve estar a facturar a agência de viagens Al-Abreu à conta do já clássico pacote de cruzeiro com paragem em Ibiza, detenção em Israel e regresso ao país de origem, com tudo incluído menos banhoca.
Quer dizer, em verdade, a Al-Abreu não está a facturar rigorosamente nada. O que faz sentido, porque esta pandilha não tolera o vil metal. Não tanto pelo “vil”, note-se, porque acções vis são precisamente o que esta corja mais gosta de praticar, como se vê. O problema deve ser mesmo com o metal. Aliás, isso explicaria a adesão entusiástica a preceitos fundamentalistas dignos da Idade da Pedra.
Agora, giro, giro em termos de calendarização e efectivo, efectivo em termos de prova da robustez de princípios era organizar estas flotilhas para aí em fevereiro. Então os flotilheiros não querem mesmo, mesmo chegar a Gaza? Nessa altura do ano, sim, os frequentes vagalhões mediterrâneos, com 4 ou 5 andares de altura, talvez permitissem que os barcos da flotilha passassem despercebidos à marinha israelita e, quem sabe, cumprissem o objetivo de atracar em Gaza, sendo os seus marujos imediatamente espancados em nome do culto da diversidade.
Não tendo sido esse o caso desta vez, os flotilheiros acabaram sovados em Bilbau. O que é inglório. E irónico. E — embora eu ache de muito mau gosto dizê-lo — até engraçado, segundo alguns. Quer dizer: um flotilheiro, uma flotilheira, ou um flotilherx faz-se ao mar com o nobre intuito de ser capturado e espancado pelas forças armadas do Pequeno Satã (de preferência com um daqueles espancamentos que não aleijam nem deixam marcas), e afinal acaba por levar uma boa tareia em território do Pequeno Sánchez. Ninguém contava com este itinerário: de Gaza para a gaze, via Bilbau.
Como se não bastasse a montanha-russa que foi esta ode marítima para a saúde dos convivas. Vejam só a sequência de eventos: a caminho de Gaza, iam todos contentes; a partir do exacto momento em que são detidos pelos israelitas, tumba!, ficou logo tudo em estado de coma; quando aterraram na Turquia vindos de Israel, iam todos contentes; quando regressaram aos seus países, tumba!, ficou logo tudo em estado de coma outra vez; passados dez minutos (ou quando acharam que as câmaras já não estariam a filmar), iam todos contentes de novo. Irra, ao pé disto aquela brincadeira do Kiefer Sutherland no Flatliners é entretém de recreio no pátio do primeiro ciclo. E uma pessoa a pensar que os problemas de saúde desta malta se resumiam ao foro psiquiátrico.
Felizmente, a flotilha teve não um, mas dois médicos portugueses. Ou seja: é muito mais seguro um português contar com um médico sempre por perto se for simpatizante do Hamas do que se for utente do SNS. Querem viver até aos 105? Embarquem em todas as flotilhas que puderem, que pelos vistos há sempre um doutor no convés.
A propósito de seguro e médicos, o Presidente Seguro recebeu familiares destes dois médicos no Palácio de Belém. Desconheço se no âmbito do seu Pacto Estratégico para a Saúde em Portugal, mas não me parece. A menos que a estratégia do pacto passe por seguir rumo a Gaza numa embarcação muito grande, onde caiba todo o Portugal, e onde haja mais profissionais de saúde prontos a sinalizar virtude do que há placas a sinalizar estacionamento proibido em Lisboa. Mas não, num contexto diluviano destes, parecer-me-ia bizarro António José Seguro revelar-se um eficaz empreendedor Noé. Muito mais depressa Seguro seria o responsável pela inundação. Ou não tivesse ele ganho protagonismo político exactamente na altura do famoso pântano.