No último livro da sua monumental biografia em seis volumes de António de Oliveira Salazar, Franco Nogueira chama “ficção de tragédia posta em teatro” ao espaço de tempo, entre 5 de fevereiro de 1969 e 27 de julho de 1970, data da sua morte, em que, após a queda da cadeira no Forte de Santo António e o AVC sofrido no Hospital da Cruz Vermelha, Salazar, cujo precário estado de saúde o impedia de regressar à normalidade anterior, voltou para São Bento, não sabendo que já não era chefe do governo e havia sido substituído por Marcello Caetano como Presidente do Conselho. Ninguém lhe contou a verdade e ele continuou, até ao último dia, a ser tratado como se ainda estivesse em funções por todos os que o rodeavam e visitavam.
Franco Nogueira escreve que nunca teve “a menor dúvida de que Salazar ignorava em absoluto que já não era presidente do Conselho. Não lhe ocorria mesmo que, por motivo de doença, pudesse deixar de o ser; não tinha consciência da gravidade da doença, não se dava conta de quanto tempo tinha estado a estava doente, não se apercebeu das diminuições mentais que tinha sofrido”. Mas nota também que a sua mulher, que visitou Salazar muitas vezes separadamente e deu vários passeios com ele, tinha “uma opinião inteiramente oposta: sabia que já não era Presidente do Conselho; mas o próprio estado de morbidez levava-o a não admitir as consequências do facto perante si mesmo”.
Estes últimos tempos de vida de Salazar, e a grande ficção – piedosa ou absurda, dependendo do ponto de vista — que foi encenada em seu redor, sobre a sua falsa permanência no poder, dariam um filme (ou uma série) do maior interesse, com todos os seus enredos e intrigas, ocultações e mentiras, pequenas histórias e episódios, bem como toda a sua carga trágica, política, histórica e simbólica. Os seus autores tinham abundante informação, quase um rascunho de guião, na parte final deste sexto e derradeiro volume da biografia de Franco Nogueira, O Último Combate (1964-1970).
Em Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar, José Filipe Costa passa ao lado desse filme. Em vez de um esforço de abordagem séria, rigorosa e politicamente desprendida da figura de Salazar e dos acontecimentos desse mais de ano e meio de “ficção de tragédia posta em teatro” no palacete de São Bento, o que temos é uma reconstituição dominada pelo infantilismo ideológico, pela estereotipação diabolizadora e pela caricatura grosseira. E que representa uma regressão, quando comparado com a aceitável minissérie A Vida Privada de Salazar, com Diogo Morgado no papel principal, exibida pela SIC em 2009 e que também teve uma versão para cinema.
[Veja o “trailer” de “Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar”:]
https://www.youtube.com/watch?v=DXfn9eVknc8
O descalabro começa logo pelo ator que interpreta Salazar. A voz de Jorge Mota não está lá, o sotaque vai e vem, a presença não tem dimensão, nada ali convence. (Aliás, quem ele lembra é um José Sócrates mais velho e mais gordo). Tal como José Filipe Costa o filma, este Salazar é um boneco esquemático, trivializado e reduzido ao cliché maléfico, racista e mesquinho, agora muito diminuído pelo seu estado de saúde, mas que não deixa de se manifestar aqui e ali. Ver a sequência em que, examinado pelo médico moçambicano Manuel Henriques de Nazareth, que tinha toda a confiança pessoal e clínica por parte de Salazar e era seu amigo, este o trata com cinismo paternalista e se põe a imaginar castigos horríveis para as mulheres (incluindo as grávidas), as crianças e os velhos africanos.
A forma que José Filipe Costa tem de sublinhar o absurdo da situação em que Salazar se encontra, é pô-lo a ter visões ridículas (pessoas com cabeças de animais, como galinhas, porcos ou pavões) e pesadelos anedóticos. O mais chocarreiro mete-o num enorme caldeirão de água quente cheio de verduras, enquanto as criadas o mexem e lhe dizem que o estão a cozinhar para ser comido pelos portugueses. Estas sequências onírico-fantásticas convivem com situações realistas, algumas delas factuais, como a entrevista feita pelo jornalista Roland Faure, do L’Aurore, as visitas de ministros que vêm pôr Salazar ao corrente dos assuntos da governação, como se ele ainda estivesse aos comandos do país, ou de dignitários nacionais e estrangeiros, e ainda de íntimos seus.
[Veja uma sequência do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=CvhZJKh-2SE
Mas são episódios pouco substanciais e soltos, quase todos igualmente caricatos e simplistas. Américo Thomaz também aparece, interpretado por um João Lagarto que nem de perto nem se longe se assemelha ao antigo Presidente da República, e acompanhado por duas meninas pequenas e traquinas. O filme não esclarece quem sejam, porque na altura as duas filhas de Thomaz eram já adultas, e ele tinha dois netos e não duas netas. A fiel D. Maria de Jesus é vivida por Catarina Avelar e mostrada como uma espécie de Elena Ceausescu de trazer por casa, fanaticamente devotada a Salazar, controlando a frente doméstica com mão de ferro e tiranizando a criadagem.
Lúgubre e lento, reducionista e superficial, Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar denota a incapacidade do cinema português, mais de meio século após o 25 de Abril, de se libertar das visões políticas jurássicas, do anedotário zombeteiro, dos fantasmas velhos e relhos, e dos lugares-comuns ideológicos na representação do antigo regime e na descrição e explicação de figuras como António de Oliveira Salazar. E enquanto assim for, continuará a ser incapaz de evocar, retratar e interpretar com credibilidade esse período da história portuguesa e os seus maiores protagonistas, e a repelir e alienar os espectadores em vez de os interessar e envolver.