Não há tréguas para Luís Montenegro. A mais recente aparição de Pedro Passos Coelho trouxe também os ataques mais violentos que já fez em público, falando de políticos “postiços” que, numa tentativa de imitarem os populistas — acusação tantas vezes lançada ao atual primeiro-ministro –, acabam por ficar como “prostitutos sem caráter”. Mas não foram só as palavras de Passos, no palanque da apresentação de um livro, que revelaram uma postura particularmente ácida contra o Governo: quem o ouvia na primeira fila era André Ventura, e foi ao lado de Ventura que escolheu aparecer para criticar a falta de “ritmo” do Executivo.
A ocasião era a apresentação do novo livro do constitucionalista Carlos Blanco de Morais, “Constituição Fluida”, e representava uma oportunidade perfeita para Ventura aparecer ao lado do homem que tantas vezes apresenta como referência (chegou a ter uma foto de Passos no seu gabinete). Assim, mal chegou Ventura mostrou-se satisfeito com o “ressurgimento” de Passos em eventos públicos e quis desafiá-lo, em declarações aos jornalistas, a falar “mais” e a dizer de sua justiça em temas em que pode estar alinhado com o Chega, da revisão constitucional à polémica no SIRESP.
E Passos não foi de meias palavras. Desde logo, e apesar de não ter querido falar aos jornalistas à chegada, um momento simbólico: permitiu que as televisões filmassem uma curta conversa com o líder do Chega, antes de se sentarem nos lugares reservados, lado a lado. Sobre os resultados do Governo, numa aparente referência às expectativas dos eleitores e depois de há meses vir criticando a falta de reformismo do Executivo, Passos respondeu: “Impacientes, parece-me que sim. Era bom que as coisas ganhassem um pouco mais de ritmo, porque a expectativa que as pessoas têm é essa quando fazem escolhas”.
“E as pessoas esperam desta maioria também no Parlamento, que faça essas mudanças”, respondeu Ventura, consciente de que Passos já defendeu publicamente que o Governo deveria ter procurado um entendimento com a direita parlamentar, embora tenha depois atacado fortemente a proposta do Chega para baixar a idade da reforma. “Julgo que sim, pelo menos estão prometidas”, respondeu Passos sobre as tais “mudanças”, antes de se sentar ao lado de André Ventura e da deputada do Chega Cristina Rodrigues.
Durante a sua intervenção, uma vez que lhe cabia apresentar o livro, o antigo líder do PSD foi mais longe, deixando poucas dúvidas sobre o seu alvo. Depois de, nos últimos meses, ter criticado o Executivo por acreditar que se limita a gerir o dia a dia ou que não se atreve a fazer as reformas de que o país precisa — e sendo que há muito tem a convicção de que a estratégia do “não é não” ao Chega é errada –, Passos foi violento, agora com os políticos que “não querem desagradar a ninguém” e imitam os populistas (uma crítica que a oposição tantas vezes lança contra Montenegro, particularmente no que diz respeito a dossiês como a segurança ou a imigração).
“Quando, com medo do populismo, o político do mainstream lhe veste a casaca para evitar que o populismo chegue com o voto ao palácio, e resolve então ser mais populista do que o populista, achando ele – não sendo verdadeiramente populista – para evitar que o verdadeiro lá chegue, normalmente a História mostra que a coisa não funciona”, começou por avisar Passos, com Ventura — o tal político que Montenegro é acusado de imitar, para tentar estancar o crescimento do Chega — na primeira fila.
“O que é autêntico e genuíno sempre se manifesta de forma muito mais eficaz do que o que é postiço. E então o postiço fica sem nada: fica sem integridade, fica como um prostituto sem caráter, sem reduto de pensamento, simplesmente vendido ao aplauso que o momento lhe possa fornecer”, atirou. “A mesma multidão que o aplaude o condena passado muito pouco tempo quando o futuro, que não é desejado, chega”.
Para Passos, a ideia de não desagradar a ninguém — uma “maldição” que tomou conta tanto do espaço político europeu como português — é uma coisa “virtualmente impossível”, pelo menos durante muito tempo. E um verdadeiro líder deve contrariá-la, fazendo algo que o “distinga dos outros”.
E disse mais: voltou à referência a eleições, depois de em fevereiro ter defendido que, se as oposições se tornarem forças de bloqueio, esse é “um ponto importante para [o Governo] se dirigir ao eleitorado e para pedir mais força para as concretizar”. Agora, como antes, não está a sugerir que deve haver eleições antecipadas, garantiu. Mas reforçou: “Até se podem perder as eleições, não é verdade? Mas às vezes há coisas mais importantes do que uma eleição. Claro que todas as eleições são importantes, porque a democracia vive grandemente dessa forma. E a forma da eleição é crítica para o funcionamento da democracia. Agora, o desfecho de uma eleição não é a coisa mais importante no mundo.”
Por isso, contra os políticos que acredita que se limitam a agarrar o poder e a gerir depois o dia a dia, focados na própria sobrevivência, disparou: “Há pessoas que não se importam de perder a defender aquilo em que acreditam. E o mundo vive disso. O mundo não vive daqueles que só querem ganhar com as ideias dos outros. (…) Às vezes é preciso contrariar a corrente e deixar as pessoas escolherem”. Em democracia, defendeu, os eleitores devem conhecer “verdadeiras alternativas” para decidirem em liberdade. “Só é possível escolher quando há coragem de apresentar as alternativas. Se estivermos todos à espera da mesma decisão, nenhum é digno do futuro que nascerá”.

Passos criticou imigração “excessiva”
Antes, numa intervenção que durou cerca de 50 minutos, Passos tinha começado por referir as reservas que teve na altura dos primeiros alargamentos da União Europeia, falando do clima de otimismo que já existia na altura — e lembrando que já na na altura defendia que “não devemos apenas confiar que as coisas correrão, é preciso pensar sobre elas”. Ponte para uma primeira crítica ao estado da arte, ou da política, em Portugal: “E, embora exista muito vício no nosso país de considerar velhos do Restelo, todos aqueles que olham para as coisas e não se encantam apenas com o que de bom pode acontecer, mas que se preocupam também com algumas consequências que podem ser menos desejadas”.
Depois, analisando as mudanças que o mundo e a Europa atravessam desde então, o antigo líder do PSD referiu-se aos movimentos identitários que emergiram, o “empobrecimento relativo” da Europa e a “insatisfação larvar” que se sente agora no velho continente. Falou das “ansiedades e apreensões” do mundo atual, da evolução tecnológica — incluindo o nível de “substituição” em várias profissões que esta vai implicar — e de como esta leva a uma perda de autoridade no Estado, dos partidos e uma “inversão dos princípios de autoridade” na sociedade.
Além disso, existem as guerras “perturbadoras” em que a Europa se vê envolvida. E uma modernidade “fluida de dissolução social” e de valores, ligada, para Passos, aos problemas identitários e também da migração — outro tema de que já falou em público e que já levou o líder do Chega a considerar-se alinhado com o homem que liderava o PSD quando o próprio Ventura era ainda militante e candidato autárquico.
A migração, insistiu Passos, nos Estados Unidos e na Europa, é “excessiva, sentida como excessiva por quase todas as pessoas”, que ficam “assustadas”. E — numa concessão ao Governo de Montenegro — sentenciou: “Ainda bem que, por cá, as coisas, pelo menos, se travaram, vamos ver se se resolvem, acho que ainda estamos longe disso. Mas pelo menos [foram] travadas. Ao ritmo em que as coisas estavam a progredir, qualquer dia, estaríamos, com certeza, a falar não do povo português, nem da cultura portuguesa, nem de coisa nenhuma, estaríamos a falar de outra coisa qualquer. Isso acontece na história, aconteceu na história, mas nunca aconteceu pacificamente”.
Sobre este tema, Passos continuou: não lhe parece que fosse boa ideia “deixar correr as coisas como estavam a correr”; e na Europa esse “deslaçamento” já está a acontecer. “Não conseguimos viver sem os imigrantes, mas também não conseguimos viver com a quantidade de imigrantes que não se aculturam, que não se integram, que não estão disponíveis para se identificar com aquilo que nós podemos chamar de idealização do nosso destino comum, que é feita na base de uma História que nós trazemos connosco”, disse Passos, assegurando que até pela composição da sua família “seria o último a fazer considerações de natureza racista“.
Na mesma intervenção, teve ainda tempo de referir que o SNS está a “rebentar pelas costuras” e que a Segurança Social vai “engordando” mas a “fatura” vai aparecer mais tarde — e que tudo isso tem também a ver com as entradas “descontroladas” de imigrantes em Portugal. E quis avisar que por cá chegou às universidades ou à opinião e “um pouco por todo o lado” uma auto-censura e uma sensação “irrespirável” de medo de se dizer o que se pensa.
Na apresentação de um livro sobre a Constituição, Passos usou a conversa com Ventura para contar ao público que este lhe tinha perguntado sobre se o texto incluía alguma coisa sobre uma possível mudança na Lei Fundamental. O Chega tem insistindo nisso e já entregou um projeto, mas o PSD só está disponível para iniciar o processo no próximo ano.
E Passos aproveitou para deixar a ideia e o desejo de que “esta liquefação de valores, de identidades, não venha progressivamente, de forma submissiva, a tornar inevitável a sua consagração em princípios constitucionais, direitos constitucionais novos, demasiado fluidos, que têm pouco de ver com a nossa cultura e com aquilo que somos. Nessa medida, vejo aqui uma proposta, portanto, preventiva. (…) Ela deve ter uma expressão política concreta. Quando nós achamos que alguma coisa está em risco, devemos fazer qualquer coisa para o prevenir”.
Antes de entrar, Ventura tinha desvalorizado as divergências entre ambos sobre a descida da idade da reforma — que Ventura coloca como condição para aprovar a reforma laboral do Governo, e da qual Passos discorda — e preferido falar das “proximidades” entre os dois. “Talvez seja uma boa oportunidade hoje de se falar da revisão constitucional. Hoje era um bom dia para dizer se concorda ou não”, atirou, referindo as propostas do Chega para alterar a Lei Fundamental de forma a mudar o modelo económico que ali se prevê, estabelecer claramente a hipótese da perda da nacionalidade ou permitir uma reforma da Justiça.
“Perante o projeto que apresentámos com estas coisas concretas penso que Passos concordaria, mas não vou vinculá-lo”, defendeu. Passos não lhe fez a vontade, uma vez que não quis quis falar em concreto da revisão constitucional, mas no fim da sua intervenção foi possível ouvir Ventura, apanhado pelas televisões, agradecer ao antigo líder do PSD: “Gostei muito de o ouvir!” Luís Montenegro dificilmente terá gostado tanto.