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China e EUA unem-se na ONU nas críticas à interferência em assuntos internos

O ministro chinês apelou à igualdade soberana e à não interferência em assuntos internos. Mas aproveitou também o debate para criticar as ações militares unilaterais "inaceitáveis" dos Estados Unidos.

Agência Lusa
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A China e os Estados Unidos uniram-se esta terça-feira na oposição à interferência internacional em assuntos internos, embora com críticas mútuas indiretas, num debate do Conselho de Segurança da ONU.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, convocou e presidiu a um debate de alto nível do Conselho de Segurança das Nações Unidas, sob o tema: “Defender os propósitos e princípios da Carta da ONU e fortalecer o sistema internacional centrado na ONU”. No debate, Wang defendeu a necessidade de revitalizar e fortalecer essa organização multilateral de 193 Estados-membros.

A causa fundamental “do caos no mundo atual” não é que o espírito da Carta da ONU esteja ultrapassado, mas sim que a ordem internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais não estejam a ser efetivamente mantidas e observadas, observou.

“A comunidade internacional deve recordar a visão fundadora da Carta, levar avante o seu espírito e cumprir as obrigações nela previstas”, defendeu o ministro chinês, que discursou a seguir ao secretário-geral da ONU, António Guterres. “Devemos defender a igualdade soberana e opor-nos à interferência nos assuntos internos”, acrescentou Wang, num discurso traduzido por uma intérprete.

Na mesma linha de Pequim, o representante norte-americano do Departamento de Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico, Michael George DeSombre, criticou as tentativas de interferência na soberania de cada Estado.

DeSombre frisou que, sob a liderança do Presidente, Donald Trump, a política externa norte-americana “não está mais subordinada a uma rede de instituições internacionais, frequentemente impulsionadas pelo transnacionalismo que procura dissolver a soberania de cada Estado“.

No entanto, apesar destas duas potências rivais e membros-permanentes do Conselho de Segurança da ONU, concordarem na oposição à interferência internacional em assuntos internos, criticaram-se mutuamente, embora de forma indireta.

A China, que considera ilegítima a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, opôs-se ao uso da força e indicou que “quaisquer ações militares unilaterais que contornem o mandato do Conselho de Segurança são inaceitáveis”.

“Os maiores países, em particular, têm a responsabilidade de liderar pelo exemplo, seguindo o estado de Direito e o caminho correto, e não devem praticar dois pesos e duas medidas, o excecionalismo ou a aplicação seletiva”, afirmou Wang Yi.

“A participação no Conselho de Segurança não traz privilégios, mas sim responsabilidades. Os membros devem elevar-se acima dos interesses nacionais restritos e utilizar os bens públicos internacionais de forma responsável”, acrescentou.

O chefe da diplomacia chinesa também defendeu a importância de reforçar o sistema de desenvolvimento e proporcionar aos países do Sul Global mais financiamento, apoio tecnológico e intelectual em áreas-chave, como a redução da pobreza.

Desde o regresso de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, os Estados Unidos cortaram significativamente a ajuda internacional, incluindo o encerramento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), decisão que afetou os países mais pobres do mundo.

Devemos defender firmemente o multilateralismo, dar plena importância ao papel da ONU como plataforma central para a governação global e apoiar o estabelecimento de regras internacionais e mecanismos de coordenação universalmente aceites, tendo a ONU como principal canal”, defendeu Wang.

Por outro lado, a administração de Donald Trump retirou os Estados Unidos de dezenas de organizações internacionais, incluindo da agência de população da ONU e do tratado da ONU para negociações internacionais sobre clima, distanciando-se cada vez mais da cooperação global.

O Governo de Trump já tinha suspendido o apoio a agências como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), ao mesmo tem que adotou uma abordagem mais seletiva no pagamento das contribuições para o organismo mundial.

Nesta reunião, DeSombre afirmou que “as Nações Unidas ainda não concretizaram plenamente o nobre objetivo da Carta de salvar as gerações vindouras do flagelo da guerra” e, por isso, Washington está a “liderar os esforços na ONU (…)  para torná-la adequada ao seu propósito e devolvê-la à sua missão fundadora”.

O representante dos Estados Unidos criticou os países que, no mês passado, impediram a aprovação de uma resolução no Conselho de Segurança que visava reforçar a segurança no Estreito de Ormuz, embora sem nomear os países que fizeram uso do veto nessa ocasião (China e Rússia).

“Apelamos àqueles cujas ações minam a Carta das Nações Unidas — incluindo, por vezes, membros permanentes deste Conselho — para que mudem de rumo imediatamente”, instou o diplomata norte-americano.