Deve ser a primeira vez que concordo com algo dito por Luís Montenegro: “O povo está farto de eleições”. E, de facto, tem razão. Não porque os portugueses estejam cansados de votar, nem porque a democracia seja um incómodo. Estão fartos, isso sim, de viver permanentemente em campanha, de ver o país suspenso em cálculos partidários e de assistir a debates televisivos que substituem políticas capazes de resolver os problemas concretos que enfrentamos.
Portugal precisa de estabilidade. Precisa de um Governo que governe de facto, em vez de submeter ao Parlamento uma moção de confiança que acabou por provocar a queda do próprio Executivo em março de 2025. Para quem agora diz que o povo está cansado de eleições, Montenegro parece ter-se esquecido de que uma das últimas crises políticas nasceu de uma iniciativa do seu próprio Governo. Não foi a oposição que decidiu colocar o Executivo em risco. Foi o Governo que escolheu transformar um momento político delicado numa prova de sobrevivência parlamentar.
É por isso que a frase de Montenegro, embora certeira, tem um lado profundamente triste. Para alguém que tanto fala, que tanto anuncia e que tanto diz fazer, é difícil olhar para o estado do país desde as últimas eleições legislativas e não ver um cenário de desorientação. A governação parece muitas vezes mais preocupada em marcar território ideológico do que em enfrentar os problemas estruturais que há anos bloqueiam Portugal.
Poucas reformas verdadeiramente necessárias avançaram com a coragem exigida. Na saúde, continua a sensação de remendo permanente. Na habitação, persistem as dificuldades de quem quer viver com dignidade. Na administração pública, falta modernização. Na coesão territorial, o Interior continua demasiadas vezes tratado como parente pobre. Na economia, fala-se de crescimento, mas muitos portugueses continuam sem sentir esse crescimento no salário, na qualidade dos serviços ou na segurança do futuro.
Em vez de resolver os problemas reais, o Governo tem perdido tempo e energia em não-assuntos. A reforma laboral surge mais como bandeira política do que como resposta equilibrada às necessidades dos trabalhadores e do país. E episódios como o das bandeiras que as entidades públicas devem ou não erguer alimentam polémicas durante dias, sem acrescentar nada ao que é verdadeiramente urgente discutir no contexto em que Portugal se encontra.
Os sinais de desgaste político começam a ser visíveis. Uma sondagem da Aximage para o Diário de Notícias coloca o PS na liderança das intenções de voto, com a AD a cair para o terceiro lugar, atrás do Chega. Independentemente das leituras partidárias que cada um possa fazer, há um dado político evidente: um ano depois das eleições, o Governo não conseguiu consolidar confiança nem transformar a expectativa inicial em apoio duradouro. Quando um Executivo passa mais tempo a gerir ruído político e agendas laterais do que a resolver problemas concretos, o desgaste acaba inevitavelmente por chegar.
A esta altura do campeonato, Montenegro devia estar mais preocupado com a situação do Governo que lidera. Não pode apontar constantemente o dedo à oposição, nem culpá-la por todos os males que resultam da ação (ou da falta dela) do seu próprio Executivo.
A estabilidade que o país deseja não pode ser confundida com resignação. Os portugueses não querem eleições todos os anos, mas também não querem quatro anos de prioridades trocadas, cheios de legislação que pouco responde ao essencial: saúde, habitação, economia, salários e direitos laborais.
Por isso, sim, o povo está farto de eleições. Mas está ainda mais farto de ser chamado a votar e depois ignorado quando precisa do essencial: uma vida digna, com condições e direitos. A democracia não fica mais fraca por haver eleições. Fica mais fraca quando a política deixa de corresponder e de resolver o dia a dia de cada cidadão.