Há uma ideia persistente no debate europeu: a de que a China representa um risco a conter, uma influência a limitar, um parceiro a desconfiar. Mas os números — teimosos como sempre — continuam a desafiar essa narrativa.
Pelo sétimo ano consecutivo, o investimento chinês na Europa atingiu um novo máximo, fixando-se nos 16,8 mil milhões de euros. Não se trata de um episódio pontual, nem de um pico circunstancial. Trata-se de uma tendência consolidada, sustentada por uma visão estratégica de longo prazo que tem faltado, em muitos casos, ao próprio projeto europeu.
A China não investe por impulso. Investe com critério, com foco e com uma leitura clara das oportunidades globais. E a Europa continua a ser, apesar de todas as reservas políticas, um destino privilegiado para esse capital.
Convém, por isso, recentrar o debate: o investimento chinês não é, por definição, uma ameaça. É, em muitos casos, uma oportunidade concreta de crescimento, modernização e competitividade.
Ao longo da última década, esse investimento permitiu revitalizar setores estratégicos, reforçar infraestruturas críticas e trazer liquidez a economias que, em vários momentos, enfrentaram constrangimentos severos. Em países como Portugal, esse impacto é particularmente visível.
Num contexto em que a Europa enfrenta desafios estruturais — crescimento anémico, envelhecimento populacional, perda de competitividade industrial — rejeitar ou travar investimento estrangeiro com base em receios genéricos é um luxo que dificilmente podemos permitir.
Entretanto, a China continua a fazer o seu caminho. A sua economia, longe de colapsar como alguns anteciparam, continua a expandir-se, a sofisticar-se e a afirmar-se como um dos principais motores do crescimento global. A transição para setores de maior valor acrescentado, o investimento massivo em tecnologia e a aposta em energias limpas mostram uma economia em evolução, não em retração.
Mais do que isso, a China tem demonstrado uma consistência estratégica que contrasta com a volatilidade política e económica de muitas democracias ocidentais. Planeia a décadas, executa com disciplina e adapta-se com rapidez.
Para a Europa — e para Portugal em particular — a questão não deveria ser se devemos aceitar investimento chinês. A verdadeira questão é como podemos tirar melhor partido dele.
Isso implica inteligência estratégica, capacidade de negociação e, acima de tudo, pragmatismo. Nem ingenuidade, nem hostilidade ideológica. Apenas lucidez.
Num mundo em que o capital é cada vez mais seletivo, afastar quem quer investir é uma escolha — mas raramente uma boa escolha.
Talvez esteja na altura de reconhecer uma evidência simples: a China não é apenas parte do desafio global. É, também, parte da solução.