A página de Facebook do café Hogo, no centro de Kiev, sinaliza que o espaço tem esplanada e está agora “aberto”. Mas podia não estar: no domingo, meras horas depois de ter aberto portas na capital ucraniana, um dos maiores ataques que a Rússia já lançou em partes centrais da cidade destruiu a parte da frente da loja. Apesar disso, a vida continua: a máquina de café ficou intacta, os donos voltaram lá para servir quem quisesse e o Hogo já está a ser descrito como um símbolo de esperança no meio da devastação da Ucrânia.
O Telegraph conta a história de Yehven Prusak, que abriu o espaço com a mulher, Olena Saienko, usando as poupanças que tinha para cumprir um sonho antigo. Este sábado, receberam os primeiros clientes, enquanto um DJ passava música no Hogo, onde se exibiam flores e uma exposição de arte. Um poeta também foi convidado para ler versos aos clientes, que se reuniram ali, numa das zonas mais populares do distrito de Podil.
Ao Telegraph, Prusak contou que na noite de sábado para domingo acordou com os mísseis russos que aterravam em Podil, incluindo um que passou perto da janela da sua casa. Ouviu a explosão que atingiu o museu de Chernobil, ali a menos de 100 metros, e que pegou fogo a quase metade dos artefactos e obras em exposição. Ao mesmo tempo, recebia um alarme no telemóvel: era o alarme instalado no café que tinha disparado, e conseguia ver que as janelas tinham explodido.
O casal vestiu-se e dirigiu-se imediatamente ao Hogo mas, vendo como Olena estava destroçada, Prusak acabou por lhe dizer que fosse para casa descansar. E ficou, constatando que as janelas tinham desaparecido, que parte da parede também e que parte do edifício estava em chamas. Mas ainda havia máquina de café — e foi aos elementos dos serviços de emergência, que descreve como “os titãs ucranianos”, que começou a oferecer a bebida.
A partir daí, para o dono do café aconteceu “magia”: algumas pessoas começaram a aproximar-se e, à medida que nas redes sociais se começava a falar do café que apesar do ataque permanecia aberto, quiseram entrar e pedir. “Primeiro, senti que alguém próximo de mim tinha morrido. Que tudo tinha acabado. Mas quando as pessoas começaram a chegar, a minha força reapareceu“, disse ao jornal britânico.
Muitos clientes esperaram até uma hora e meia, no meio de uma vaga de calor, para receber um copo com café através de uma janela partida, numa rua ainda cheia de vidros partidos e destroços. E os voluntários continuaram a receber café gratuito. “Se não fosse pelo nosso povo, pelos ucranianos, com o seu carácter, força, amor e cuidado, nada disto existiria. Vamos continuar a trabalhar e a reconstruir”.
Como é possível ver nas fotografias do Facebook recém-criado, o Hogo, que se apresenta como uma cafetaria saudável com esplanada, foi construído num edifício moderno, adornado com um grafiti por cima do café. Agora, em fotografias publicadas pelo Kyiv Independent, resta a parte interior, onde pelo meio dos vidros partidos se veem os bolos de decorações elaboradas de pistácio ou frutos vermelhos.
O resultado do ataque noturno, no qual foi usado um míssil hipersónico com capacidade nuclear, foi a morte de quatro pessoas e cerca de 100 feridos. O Kyiv Independent, que também visitou o café, contabilizou 90 mísseis e 600 drones lançados durante a noite, que causaram “danos em todos os distritos da cidade”, disse o presidente da câmara, Vitali Klitschko. Nesta zona, onde se concentram várias ruas pedonais, parques, centenas de lojas e restaurantes, é raro haver grandes ataques, mas este já é descrito como um dos maiores do ano.