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Coro das Mulheres da Fábrica: uma orquestra de “operárias da voz” canta e espanta os dias em Coimbra

É um coletivo feminino, intergeracional, que se reúne em torno de canções tradicionais com fundo interventivo e também serve de amparo. Assistimos a um ensaio, numa quarta-feira à noite, em Coimbra.

Carina Fonseca
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Maria João Gala
photography

Nas noites de quarta-feira, em Coimbra, há um grupo heterogéneo de mulheres que põe em pausa o trabalho, a maternidade, todas as tarefas, para se concentrar apenas na palavra cantada e falada, no Atelier A Fábrica. Faz quatro anos que este espaço cultural, na Baixa, acolhe os ensaios semanais do Coro das Mulheres da Fábrica, nascido quase por acaso, no rescaldo da pandemia, pela mão da cantora e música Vânia Couto. Canções de trabalho que acompanharam mulheres ao longo de gerações, no campo ou no lar, ganham outro poder pela junção das vozes.

Na hora de batizar o projeto, Vânia lembrou-se de que os Madredeus ensaiavam na Rua da Madre de Deus, em Lisboa, e assumiu como nome o local dos encontros. “Pensei também no 8 de março e na Catarina Eufémia, nas mulheres que morrem para ganhar os seus direitos na fábrica”, acrescenta a fundadora do Coro, que cresceu para lá da sua imaginação. Hoje, esse grupo de mulheres que não precisam de saber cantar recebe convites para atuar um pouco por todo o lado, até em colaboração com artistas consagrados, como A Garota Não.

A fundadora do Coro recorda como tudo começou, na ressaca da pandemia e do consequente distanciamento social: “Eu estava em casa e até pensei ir para o hóquei. Queria fazer parte de um grupo”. Como conhecia Élia Ramalho, responsável pelo Atelier A Fábrica, lembrou-se de fazer uma convocatória, via Facebook, para um ensaio naquele espaço. Pretendia criar um coro de mulheres comunitário e intergeracional. No dia seguinte, espantou-se com a quantidade de partilhas e de reações à sua publicação. “Contava com 7 ou 8 mulheres e apareceram 40 e tal.” Atualmente, serão mais de uma centena, embora só cerca de metade seja presença regular nos ensaios, que decorrem às quartas-feiras, das 20h às 22h30 (horário escolhido pelas próprias, até porque muitas são mães).

O Coro das Mulheres da Fábrica nasceu, pois, em 2022, reunindo mulheres dos mais diversos contextos, idades e profissões. Portuguesas e estrangeiras. Dos 6 anos aos 80 e tal. Desde empregadas domésticas até artistas e investigadoras. Os homens podem participar no projeto, desde que seja nos bastidores, por exemplo, como técnicos de som, porque o objetivo é pô-las na linha da frente — muitas vezes, após vidas inteiras na invisibilidade. Vânia guarda na memória a frase dita por uma companheira de Coro com mais de 50 anos, perante tamanha diversidade: “Nunca pensei que ser mulher pudesse ser isto”.

Trata-se, portanto, de um coletivo focado na polifonia feminina popular, que explora a tradição oral e o sentido de pertença à comunidade. Não exige formação musical prévia, nem que se saiba cantar. Tem uma forte costela de intervenção social e política. Une mulheres muito diferentes, vindas até de outras cidades, que se apresentam como “operárias da voz”. Estão a partir pedra juntas, entre canções tradicionais portuguesas e do mundo. Uma curiosidade: enquanto em Portugal os cantos são mais tristes, na Galiza é ao contrário. Todas entram no cancioneiro, que acolhe diversos estados de espírito e mensagens.

O repertório são as mulheres que trazem, diz Vânia. O único tema que se lembra de ter levado para o grupo foi “Desenrola o teu cabelo”, de uma recolha que fizera nas Aldeias do Xisto. Trabalham canções populares (isto é, vindas do povo), mas também de criação própria. “Trazemos a base e depois a composição é coletiva”, exemplifica Vânia. Entretanto, o Coro tornou-se associação e promove Assembleias Gerais, “como se faz nas aldeias”. Há encontros, debates, votam-se propostas e a maioria decide. “Até houve um coro que nasceu daqui, com pessoas que quiseram ir fazer outra coisa.”

Mirian pensou que os figurinos deveriam fazer jus àquele “coro livre de preconceito e de idade”, cabendo a cada mulher decidir como usá-los. Algo que se prolongasse no tempo, que pudesse ser utilizado por pessoas diferentes, com corpos diferentes, e readaptado ao gosto de cada uma. Assim nasceram os cinco moldes que garantem “grande liberdade em termos de forma”, chamados “manifestos”, pela ideia de “dar voz às pessoas da fábrica, que são o parente pobre da cadeia”.

Vânia Couto é uma das três regentes do Coro das Mulheres da Fábrica, juntamente com Liliana Abreu e Vanerli Beloti, natural do Brasil. Cabe-lhes organizar os ensaios e estar à frente, nos concertos, a garantir que “a coisa acontece”. Todas têm experiência profissional na área da música, embora não seja condição essencial, sublinha a primeira: “Normalmente, os coros têm maestro; aqui, não há partituras”. Certo é que os seus currículos são longos. Vânia, por exemplo, passou por projetos como Macadame e Pensão Flor; criou a associação Catrapum Catrapeia (à qual já não preside); dá aulas de canto e adufe; dirige e ajuda a criar outros coros, país fora; faz parte do Mãe Bruxa, que descreve como “um grupo feminista punk com música de intervenção”; e está a preparar um álbum a solo.

Já Liliana Abreu, que vive no Porto, além de participar no grupo Mãe Bruxa, faz ainda parte do CRUA, centrado nos adufes; é diretora artística do projeto Sons do Douro, do Museu do Douro; está à frente de coletivos como o Coro dos Vizinhos ou o Conjunto da Alegria; e ainda é Doutora Palhaça, no âmbito da Operação Nariz Vermelho.

Do canto contra a violência doméstica aos palcos com A Garota Não

No ensaio a que assistimos, algumas mulheres surgem pela primeira vez. São “as novas”, recebidas de forma calorosa. Na sala povoada de referências à arte, da pintura de Frida Khalo à escrita de João Damasceno, formam uma roda, de mãos dadas. No centro, vários adufes. Entre as suas pernas circulam um gato resgatado em bebé, Limpompom, e uma cadela, Alma. Das recém-chegadas fazem parte Maria José, mexicana a viver na cidade há um ano, que é mãe recente e sentia falta dos laços comunitários; ou Gisela, que nasceu em Coimbra, mas viveu a maior parte da vida em Lisboa e regressou à base em busca de melhor qualidade de vida.

“Agora, vamos ter de fazer uma audição!”, graceja Vânia Couto. Depois, chama “as novas” para o centro da roda, convida a um abraço coletivo e Liliana começa a cantar, em jeito de boas-vindas, acompanhada pela shruti box, uma caixa de som de harmónicos usada no canto molgol. O que se segue são exercícios coletivos, conversas, mais canções. Testam-se as vozes, divididas entre baixas (graves), rasas (médias) e ribas (agudas). Para clarificar, surgem referências a Amália e ao famoso “siiiiim” de Cristiano Ronaldo. “Trabalhamos uma questão cívica e social, a responsabilidade pelo coletivo e a crença de que todos podem cantar”, defende Liliana. Vânia completa: “O que interessa é que cantem, sintam. O coro inteiro suporta”.

Consciente de que há “quem nunca tenha cantado com gente a olhar”, a fundadora do Coro desafia: “Vamos cantar a ‘Canção sem medo’ [no original, ‘Canción sin miedo’, de Vivir Quintana]!”. De súbito, as vozes elevam-se, fortes, capazes de suscitar arrepios, ou não fosse o tema a violência doméstica. É “uma homenagem às mulheres que já cá não estão”, explica. Há quem chore ao som desta canção contra o femicídio, cuja letra reza assim: Cantamos sin miedo, pedimos justicia / Gritamos por cada desaparecida / Que resuene fuerte: Nos queremos vivas! / Que caiga con fuerza el feminicida!

“Aqui há, como em toda a sociedade, vítimas de violência doméstica”, afirma Vânia, o semblante agora mais fechado. Sabe disso porque fez um trabalho sobre a liberdade antes, durante e depois do 25 de Abril, em que conduziu entrevistas individuais, e esse foi o assunto que mais aflorou. Tem notado que há homens a chorar nos seus espetáculos, cumprindo um dos objetivos a que se propõem: “impactar o público masculino”.

Diz Ana Castelo: “É claramente visível que há ali muitas mulheres, de muitas origens, de muitas idades. Há muitos lugares de fala, muitas realidades que ganham voz. Foi isso que me puxou. Poder estar aqui e perceber cumplicidades com pessoas que estão nos antípodas do que eu penso. É maravilhoso”.

Já sentadas, sobra espaço para as Mulheres da Fábrica analisarem outros temas e a forma como podem ser adaptadas as letras. “O que gostariam de dizer à sociedade?” Fica para trabalho de casa “pensar na força das palavras e na métrica”, pensar em algo que possa substituir, por exemplo, o termo “labuta” no “Vira de Quatro”, canção popular da Serra d’Aires e Candeeiros que é fruto de uma recolha do Rancho Folclórico do Covão do Coelho. “A música tradicional sempre foi viva, é a música mais livre que existe, as letras não estão cristalizadas”, esclarece Liliana.

Entretanto, as mulheres aventuram-se, usando as palmas das mãos para marcar o ritmo, num canto de trabalho tradicional popular na Galiza: “Las Panaderas”. Nos intervalos, partilham morangos e cerejas, oferecem alfinetes com a bandeira da Palestina. A propósito: no dia 25 de junho, o Coro das Mulheres da Fábrica apresenta-se ao vivo em Lisboa, no âmbito de um festival pela Palestina. Continuam a chegar convites para espetáculos e colaborações. Ainda recentemente, no 25 de Abril, houve mini digressão com A Garota Não, tendo a artista partilhado no Instagram o que pensa do coletivo: “Elas são a lição perfeita do que é ser gente”.

A mulher da fábrica que criou os “manifestos”

Nas apresentações ao vivo, as participantes usam vestes em tons de tons terra, criados por uma delas: Mirian Aires, modelista numa fábrica de confeção têxtil. “Eu trabalhava na área da arquitetura quando fiquei grávida de gémeas, de surpresa, e decidi reequacionar a minha vida. Já tinha uma filha mais velha. Agora, em vez de esperar meses, vejo o trabalho concretizado em duas ou três horas”, conta, numa pausa do ensaio. Chegou quase no início do projeto, a convite de uma amiga que também tem três filhos e lhe disse: precisamos de um bocadinho para nós. Acabou por ficar e assumir o papel de figurinista quando surgiu a necessidade de adotar “uma atitude algo teatral, em palco, que complementasse as mensagens do Coro”.

Mirian pensou que os figurinos deveriam fazer jus àquele “coro livre de preconceito e de idade”, cabendo a cada mulher decidir como usá-los. Algo que se prolongasse no tempo, que pudesse ser utilizado por pessoas diferentes, com corpos diferentes, e readaptado ao gosto de cada uma. Assim nasceram os cinco moldes que garantem “grande liberdade em termos de forma”, chamados “manifestos”, pela ideia de “dar voz às pessoas da fábrica, que são o parente pobre da cadeia”. “Sinto que os manifestos deixaram de ser meus, e são sempre diferentes quando os vês em palco; são individuais e coletivos ao mesmo tempo”, conclui.

E o que fez Mirian continuar no Coro? “Trouxe-me tempo para respirar. Quando a minha amiga disse que precisávamos de tempo para nós, eu achava que não precisava.” Estava enganada. “É um amparo. Ontem, fui ao funeral da minha madrinha, e hoje senti necessidade de vir. Surpreende-me sempre que, apesar de estarmos aqui juntas, aquilo que somos profissionalmente, ou em termos familiares, muito pouco interesse, muito pouco falemos sobre isso. Aqui, sou só a Mirian.” Também reaprendeu o gosto por demonstrações de afeto: “Comecei a receber abraços e dei-me conta de que tinha perdido o jeito para abraçar. Tinha dificuldade em abraçar alguém que conhecia há pouco tempo. Agora, adoro chegar aqui e ser abraçada nas coisas boas, nas coisas más ou só porque sim”.

Ana Castelo, por seu lado, diz que ”há uma energia qualquer” que se transmite. Sentiu isso, quando se juntou ao coletivo. “Não sou puxada para ambientes muito femininos. Para mim, era um bocadinho contra natura. O que me estava a puxar para ali?”, questiona. Para logo responder: “É claramente visível que há ali muitas mulheres, de muitas origens, de muitas idades. Há muitos lugares de fala, muitas realidades que ganham voz. Foi isso que me puxou. Poder estar aqui e perceber cumplicidades com pessoas que estão nos antípodas do que eu penso. É maravilhoso”.

Inês Estanqueiro, de 18 anos, começou por acompanhar a mãe aos encontros, um par de anos antes. Ainda tímida, tratava toda a gente por “você”. Atualmente, está certa de que ingressar no Coro das Mulheres da Fábrica mudou, desde logo, a forma como interage com outras pessoas. “Hoje, se eu vir um comportamento de que não gosto, algo misógino, já não sou uma espetadora – intervenho. Deu-me poder, enquanto estava a crescer. Foi no Coro das Mulheres da Fábrica que conheci uma socióloga, e fui para Sociologia porque quero estudá-lo”, assevera.

Já Adriana Aragão traz o tema da nostalgia para a mesa, “a nostalgia das avós, das tias, um sentimento que a gente perde na vida adulta” e ali recupera, ao ver o respeito reinante entre todas. E Liliana serve-se das palavras de José Mário Branco para descrever o projeto, pondo fim ao encontro, numa noite que já vai longa. Canta assim: “O Coro é um sonho lindo de viver, se toda a gente quiser”.