Num recente artigo de opinião do Expresso, lamentou-se a “invasão milionária que está adescaracterizar Portugal” e que nos trouxe uma “elite a sugar a qualidade de vida que
encontraram e transformaram-nos no espelho do país que deixaram”.
Concordo que o país em que cresci tem-se transformado a olhos vistos – está a ficar
“descaracterizado”, como se admite – e este não é, de todo, um problema exclusivo de
Portugal mas que domina todo o debate político da Europa Ocidental. Por toda a Europa, políticos e eleitores levantam cada vez mais as suas vozes – e os seus votos – contra a “invasão” de que se sentem alvo e que tem, de facto, “transformado” as suas cidades e os seus países num “espelho do país que deixaram”. Este é um desabafo que tem sido comum a milhões de eleitores pela Europa fora, nos últimos anos. A surpresa, para mim, é esse exército de “invasores”, no nosso país, ser um exército de “milionários”.
Segundo o “Global Wealth Report 2025”, da UBS, Portugal tinha, em 2024, cerca de 175 mil milionários, mais 3.200 do que no ano anterior. Segundo os dados do INE, em 2024 a população no nosso país era de 10.749.635 pessoas, o que significa que cerca de 1,6% da nossa população era “milionária”. Quando olhamos lá para fora, tínhamos assim tantos “milionários” nesse ano?
Cruzando os dados da UBS com a projecção populacional da ONU para 2024, percebemos que os milionários representavam 2,3% da população de Itália, 2,5% de Espanha, 3,2% da Alemanha, 3,8% do Reino Unido, 4,3% de França, 4,6% da Suécia, 4,7% da Bélgica, 5,3% do Canadá, 6,2% da Noruega, 6,3% da Dinamarca, 6,9% dos EUA, 7% da Holanda, 7,1% da Austrália e 12,5% da Suíça! Em suma, quando olhamos para o resto da Europa Ocidental, para a América do Norte ou para a Austrália, o nosso problema não é termos milionários a mais mas termos milionários a menos!
Isto fica ainda mais patente quando comparamos a evolução de milionários em Portugal
com a evolução da população estrangeira no nosso país. De 2023 para 2024, o número de estrangeiros a viver em Portugal aumentou em mais 238.864 pessoas, para 1,543,697. No pior cenário em que nenhum dos 3.200 novos milionários de 2024 fosse português, mas todos frutos de imigração, os milionários teriam representado apenas cerca de 1,3% das entradas no nosso país! Facilmente se percebe que, na realidade, os milionários representarão menos de 1% dos estrangeiros que Portugal recebe.
“A culpa é dos ricos!” é uma acusação muito antiga mas um país que persegue os poucos
milionários que tem e aposta só na imigração “de portas abertas”, precária e com poucas
qualificações, está a seguir a receita que nos tornará num país de terceiro mundo. Na
verdade, quem nos dera a todos receber mais milionários, que nos ajudassem a transformar Portugal num espelho dos países que deixaram.