Arriscamos que partilham o sorriso e a ânsia de uma vaga de fundo. Não nos atrevemos a comparar dimensões, nem ele quereria, mas depois de Dizzie, fará sentido começar a tratar de um crachá “Dozie a presidente”? Ao contrário do génio Gillespie, e dessa campanha lendária movida ao som do jazz, em 1964, a arma de combate de Dozie Kanu não é o trompete – apesar de a música, ou melhor, o ritmo, exercerem um papel fundamental na sua obra, muito antes das colaborações do artista com intérpretes e coletivos de vanguarda e underground. O carácter escultural da cada criação e performance é influenciado pela repetição, pela cultura do hip-hop, e por uma dança africana que nunca o desvia das raízes e do ímpeto de mudança por trás de cada gesto artístico seu. “O mais importante que estou a fazer é chegar-me à frente, sair da minha zona de conforto, e ser mais visível sob o olhar do público, certificar-me que este trabalho que é feito por uma pessoa negra não é apenas sobre uma pessoa, mas sobre consistência e continuidade, para que a próxima geração saiba que é possível.”, sublinha. “Na verdade gostava que as minhas peças estivessem num museu”, ri-se, quando sondado se prefere vê-las numa galeria de arte ou numa loja, nessa interseção que tanto ao simbólico como quer estar ao alcance de todos. “Ter uma peça num museu é um ato político.”

Nascido em 1993, de ascendência nigeriana, nascido em Houston, nos EUA, e desde 2017 a residir em Portugal, foi numa aldeia de Santarém – desacelerando e recorrendo a pouco dinheiro – que Dozie instalou o seu atelier, e de onde saiu o conceito do mais recente projeto para a marca de mobiliário Knoll, fruto de um aturado e profícuo garimpo pelo país. “Costumo alugar uma carrinha e andar pelo país a recolher desperdício que uso nas minhas peças. Às vezes com 50 euros consigo imenso material”. Esta semana, na QuartoSala, no Príncipe Real, no âmbito da Lisbon Design Week, apresentou as novidades que cruzam design, mobiliário e dinamismo, objetos ultimados em Itália que ilustram a transição do lixo ao luxo e relançam a reflexão e a emoção, talvez mais do que o propósito da forma e o desígnio da funcionalidade. “É importante para o trabalho servir a sua função mas o mais relevante é que o trabalho possa falar para lá da sua função.”

Partindo de peças que criara anteriormente, num presente diálogo com a História, Cultura, e mobilização, Dozie respondeu ao desafio da etiqueta lançada em 1938, em Nova Iorque, por Hans Knoll, que com a mulher, Florence, recrutou para esta máquina de mobiliário moderno os contributos de nomes como Harry Bertoia, Marcel Breuer, Frank Gehry ou Mies van der Rohe, que assinaram peças para a posteridade, muitas delas com lugar cativo no MoMa. Numa colaboração articulada por Jonathan Olivares, atual diretor de design, Kanu, sublinha, junta-se a um ainda limitado contingente negro que nos últimos anos se juntou ao catáloho Knoll, caso do designer industrial e músico Ini Archibong, que em 2022 convocou as referências da Nigeria e Los Angeles para a sua parceria com a marca norte-americana.

Dozie Kanu apresenta uma proposta de consola, mesa de centro e mesa de apoio que contrariam a ideia de objeto tipicamente estático, incorporando o universo contemporâneo nos interiores residenciais e acima de tudo uma linguagem táctil (é difícil resistir ao manuseio, num atrevimento, prazer e inocência quase pueris). O tampo em couro evoca um tambor africano da sua coleção pessoal, enquanto a saia de franjas une o traje cerimonial africano à cultura cowboy texana, unindo as pontas da sua geografia pessoal – que está em constante reformação. A indolência nunca foi boa conselheira de um artista em sobressalto permanente, portanto é possível que em breve o vejamos a mexer as peças mais uma vez, rumo a novos destinos, em busca de agitação renovada. “Ter que meter-me lá fora obriga-me a mudar, a estar desconfortável. É sempre bom desafiarmos o nosso próprio processo, não estar demasiado familiarizado com algo, procurar um sentido de urgência e delicadeza é bom para o artista.”, atira, antecipando possíveis novas casas no futuro próximo. Admite ter Roma na mira e também Providence, Rhode Island, como destinos pós-Portugal.

Entre pastéis de nata e outros clichês turísticos adocicados do país de acolhimento atual, seria fácil perguntar-lhe o que tem este país de melhor, mas perante inconformados atalhamos por outro caminho mais sensato. “Chegamos a cidades como Berlim e há uma inquietação artística permanente, uma vontade de estar sempre na vanguarda. Em Nova Iorque também, apesar de ser muito mais comercial, aqui é mais difícil. Sinto falta dessa mobilização.”, admite.
Apresentada no passado mês de abril na Milan Design Week, o ponto alto e intenso do calendário do design, a coleção está disponível nos tons metálicos bronze ou manganês, com acabamento em couro. Nos entretantos, o artista multitasking, ou “exhibition maker”, como gosta de se definir, rumou a Los Angeles para gravar o seu primeiro EP, Shirtlifters, com o artista performativo Matt Hilversa, que sairá “antes do fim do ano”; e está a trabalhar numa curta documental rodada no Bill Pickett Invitational Rodeo, um evento batizado em homenagem a Willie M. Pickett (1870-1932), o primeiro afro americano a garantir um lugar no National Rodeo Hall of Fame.
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O cruzamento de disciplinas vem de trás. Em fevereiro de 2020, por exemplo, o grupo nova-iorquino Standing On The Corner Art Ensemble, conhecido por abordar música, performance e arte visual tocou jazz no Studio Museum, no Harlem, num diálogo com esculturas da primeira exposição solo do artista nigeriano-americano. No futuro, avança Dozie, outras cores se juntarão à oferta deste trio de peças. Na calha, aliás, está também uma nova colaboração com a Knoll, mas por agora não levantamos nem uma ponta da franja.