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"Eles estavam sempre aos gritos". Marine Rousseau mudou várias vezes de casa antes do abandono dos filhos em Portugal

Vizinha de Marine e do ex-marido recorda "gritos" e "discussões" constantes do casal antes da mudança para Colmar. Crianças vão voltar à cidade sob o cuidado das autoridades francesas.

Martim Andrade
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Em Troyes, a semana começou quente e silenciosa. O feriado da segunda-feira de Pentecostes quando se registaram 32 °C nesta cidade francesa, em plena cúpula de calor, fechou as lojas da Rue Émile Zola, onde viveu Marine Rousseau. Durante quase uma década, foi lá que morou com os filhos e o então marido e pai de B. e Z., as duas crianças encontradas em Monte Novo do Sul. A mulher, agora em prisão preventiva em Portugal tal como o atual companheiro, não deixou recordações nos novos moradores e, até no sítio onde trabalhou até 2022, não passa de uma cara que apareceu nas notícias.

Só na terça-feira é que o Centre Médico-Psycho-Pédagogique (CMPP) da região de Aube reabriu as suas portas. Aqui, segundo o seu perfil de LinkedIn, Marine Rousseau acompanhou várias crianças e adolescentes dos quatro aos 20 anos e organizou “oficinas de relaxamento” para adolescentes entre os 16 e os 18. Realizou, também, várias sessões especiais destinadas a menores “com perturbações de representação espacial e perturbações práxicas”.

Este foi o seu local de trabalho durante quase oito anos, desde 2014 até 2022. Mas a sua longa passagem pelo centro de apoio psicológico, que nos dias de hoje até tem uma nova direção, não é relembrada. O nome “Marine Rousseau”, que por si só não suscita reação às funcionárias, só ganha sentido com a menção do caso. É a mulher que abandonou os filhos em Portugal.

Porém, Troyes foi a cidade onde Marine passou mais tempo desde que saiu da Universidade de Sorbonne, onde se formou em psicomotricidade a cerca de um quilómetro da Catedral Notre Dame em Paris. Mal recebeu o diploma, começou a afastar-se gradualmente da capital francesa. Começou por Villejuif, ainda na Área Metropolitana de Paris, onde terá nascido o seu primeiro filho B., que é meio-irmão das duas crianças abandonadas.

A mulher viveu quatro anos na periferia da capital até se ter mudado durante dois anos para Provins. Seria a sua última paragem antes de Troyes, onde foi sempre discreta, e onde se começou a interessar por outra área de estudo.

Os “gritos” constantes e uma saída “abrupta”

Em 2018, quando ainda estava no CMPP de Troyes, Marine Rousseau passou a envolver-se em mais iniciativas sobre sexologia e, no ano seguinte e em paralelo com os jovens que ia recebendo no consultório, já dava também consultas na área da saúde sexual de forma autónoma.

Marine acabou por abandonar o Centre Médico-Psycho-Pédagogique e a cidade de Troyes para tornar-se sexóloga em regime full-time. Ela, o marido e os filhos decidiram comprar uma casa na aldeia de Saint Phal, a aproximadamente meia hora de carro de Troyes. Apesar de se situar já fora da “rolha” a que é comparada a forma da região histórica de Champagne, os tons bege e castanho dos edifícios mantêm-se e as planícies verdejantes acompanham toda a estrada.

Quase sempre vazio, o autocarro pára junto à imponente igreja gótica de Saint Phal, uma autêntica aldeia-dormitório. “As pessoas vão trabalhar para Troyes logo de manhã e só voltam à noite, para dormir”, relata uma funcionária da autarquia local. O sol queima e as sombras escasseiam. Em Saint Phal, não há um café, um restaurante, um supermercado ou até uma esquadra da polícia. É a hora de almoço e a aldeia está deserta.

Enquanto lá viveu e como os seus então vizinhos, Marine continuava a trabalhar em Troyes, onde os filhos estavam inscritos na creche e na escola. A sexóloga dava consultas online, mas também tinha um consultório na cidade. “Não estiveram cá muito tempo e nunca passaram aqui pela Câmara”, conta a funcionária da autarquia, que nunca se cruzou com Marine na aldeia.

O Observador sabe que Marine terá saído da casa número cinco da Rue des Canes, em Saint Phal, com os filhos no verão de 2025. Passado quase um ano, na moradia exibe-se um cartaz a anunciar que foi vendida mas não há sinais dos novos inquilinos: o relvado frente à casa continua abandonado.

Os vizinhos não sabem quem comprou a casa, mas entre eles, há quem recorde uma passagem “instável” de Marine pela aldeia. “Tentei falar várias vezes com ela, mas nunca me deu conversa”, conta uma vizinha ao Observador. E uma noite, o marido teve que “intervir numa discussão” entre a sexóloga e o pai dos dois filhos.

“O meu marido teve de ir lá às 21h, porque eles não paravam de gritar e de certeza que as crianças precisavam de dormir. Estavam sempre aos gritos”, recorda. Quando o pai das crianças saiu de casa, a vizinha relata que Marine “proibiu” várias vezes o ex-marido de ver os filhos. Foi Marine que ficou com a guarda total das duas crianças, B. e Z., após o divórcio. Ao pai só foram permitidas “visitas limitadas e supervisionadas”, decisão de que entretanto recorreu, de acordo com o procurador de Colmar.

Segundo o relato da vizinha de Marine, a sexóloga abandonou a moradia número cinco “abruptamente” em direção a Colmar e encarregou o pai do transporte dos seus pertences de Troyes até à cidade na região de Alsácia.

Crianças abandonadas vão regressar a Colmar e ficar ao cuidado dos serviços de apoio social

Marine e os filhos chegaram a Colmar no verão de 2025 e, menos de um ano depois, a mulher e Marc Ballabriga começaram a viagem num Opel cinzento que culminaria na sua detenção em Portugal. Só depois é que a cara de Marine deixou de ser uma incógnita e passou a ser facilmente identificada como a da “mãe que abandonou os filhos” entre Alcácer do Sal e a Comporta. No dia 11 de maio, o pai de B. e Z. participou o desaparecimento das crianças e da ex-mulher às autoridades em Colmar, onde a ausência dos meninos também foi notada nas escolas que frequentavam.

As crianças foram abandonadas numa mata próxima da Nacional 253, salvas pelo padeiro Alexandre Quintas, e Marine Rousseau e Marc Ballabriga foram detidos pela GNR dois dias depois, em Fátima. Após duas noites no hospital, B. e Z. passaram a última semana ao cuidado de uma família de acolhimento, enquanto a mãe e o padrasto estão em prisão preventiva. Esta terça-feira, o juiz-presidente do Tribunal Judicial da Comarca de Setúbal confirmou que os dois menores iriam ser repatriados.

“Este regresso ao país da sua residência habitual vai ser articulado e executado entre as autoridades portuguesas e francesas competentes com vista a garantir o mínimo prejuízo para o superior interesse destas crianças, esgotando-se assim, com a sua execução, a intervenção das autoridades judiciárias portuguesas”, informou António José Fialho num comunicado emitido esta terça-feira.

Foram as autoridades judiciárias francesas que tomaram a decisão de colocar B. e Z. aos cuidados dos serviços de apoio social de Colmar, enquanto “procedem à avaliação de familiares ou terceiros com vista a aferir as condições destes para acolher as crianças, considerando a situação da mãe e o regime de visitas supervisionado e controlado do pai”. Assim, mais de duas semanas após terem entrado em Portugal de carro através da fronteira com Espanha em Miranda do Douro, os menores irão regressar ao local onde viveram durante os últimos meses, sem a mãe.