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(A) :: Alice Brito: "Já votamos, já temos doutoramentos. Há quem pergunte: o que é que as mulheres querem mais?"

Alice Brito: "Já votamos, já temos doutoramentos. Há quem pergunte: o que é que as mulheres querem mais?"

"Perdeu-se Relógio de Senhora" é o novo romance de Alice Brito e conta a história de três mulheres entre o fim da ditadura e o início da democracia. "É um alerta e uma homenagem", diz em entrevista.

Cláudia Marques Santos
text
Francisco Romão Pereira
photography

Três mulheres, idades diferentes, geografias diversas. As vidas cruzam-se e elas acabam a viver juntas por um período de tempo, num apartamento da Rua Duque d’Ávila, em Lisboa. A época é a da ditadura e atravessa várias décadas até chegarem os ventos de mudança. O novo romance de Alice Brito, Perdeu-se Relógio de Senhora (ed. Companhia das Letras), é um livro sobre a alegria e a memória. É ficção contada a partir de factos históricos. Como a frase que dá título ao livro, expressão usada pelas mulheres cujos maridos tinham sido presos pela PIDE.

A narrativa traça o percurso, a diferentes ritmos e camadas de sofrimento — da violência física ao escrutínio social, da tortura à mesquinhez superlativa dos costumes —, daquilo que foi ser mulher durante o salazarismo e firma-se também por isso como um testemunho irredutível de memória, para que não nos esqueçamos “do que era o portugalinho de então, a fome e a miséria materiais e mentais que grassavam o território de norte a sul”.

Mas a obra quer ser também uma referência de alegria, aquando do fim do regime, da revolução de Abril, a ida em massa das pessoas para as ruas, a abraçarem-se, sedentas do novo. As páginas do livro que descrevem esses dias são protagonizadas por Beatriz, Benvinda e Bia. Três corajosas, três anónimas, “como muitas das pessoas que fizeram a revolução”. O livro vai ser apresentado na Feira do Livro de Lisboa esta quinta-feira, dia 28 de maio, data em que passam 100 anos do golpe de estado que instaurou a ditadura militar em Portugal e que abriu caminho para o Estado Novo.

O narrador é muito poderoso. Porque razão coloca o próprio processo de pensamento do narrador na narrativa?
Isso é uma constante em todos os meus romances. Eventualmente, serei eu que sou muito dirigista. Preciso de me escudar de alguma maneira… Digo “dirigista” para não dizer “autoritária”. Não sou, acho que não sou. Mas, na escrita, as coisas precisam de ter algum pulso. E escudo-me na narradora para ter esse pulso durante a narração. E também para poder opinar. Não consigo estar a descrever um tempo, como é que se viveu, sem que eu própria, de uma forma às vezes direta e outras indireta, dê a minha opinião. As formas indiretas têm a ver com o funcionamento das personagens. Como é que reagem, o que é que lhes acontece, o que cai sobre elas. E depois há aquelas formas mais diretas, diria até diretíssimas. Quando eu digo, por exemplo, que “é muito feio falar mal de uma personagem, só se essa personagem for, de facto, uma besta”. Aí, estou de alguma forma a ironizar a situação, com o facto de ser autora de uma narrativa. Tento pôr os pontos nos is, digamos.

Normalmente, quando se escreve o que se pensa, apaga-se, reescreve-se, limpa-se o texto. Não é o caso.
Sim, mas isso é propositado. Gosto de escrever assim. Sai assim. Com palavrões e tudo. Como viu, são muitos. Não só quando as pessoas falam, mas o narrador também se dá a liberdade de ter, de vez em quando, um ou dois palavrões ditos por si próprio.

Que pesquisa fez para estas personagens? Há momentos no texto em que faz referências ao processo, como a consulta de arquivos.
É uma história sobre três mulheres. Uma delas existiu de facto, as outras são ficção. Existiu, mas com outro nome. Eventualmente com o mesmo percurso. Esse percurso vi-o nos arquivos da PIDE. Tenho a sorte de ter um historiador privado, o meu marido. Ele estava a fazer o levantamento dos presos políticos em Setúbal e chamou-me a atenção para a existência de um casal na Rua Tenente Jean Raymond, que era a rua onde eu morava quando tinha 13 anos, altura em que eles foram presos. Deu-me um baque. Não tinha ouvido falar de nada, na época.

Não assistiu à cena que descreve no livro, pelos olhos da Beatriz?
Não vi, nem se terá falado lá em casa. Eu estava já muito atenta às coisas, nessa altura. Apesar de ser uma adolescente de 13 anos, em 1967, não me apercebi de nada. Então, tirei o nome das pessoas e fui ao Conservatório do Registo Civil. Pedi as certidões de nascimento delas e vi que uma tinha morrido, mas a outra estava ainda viva. Da pesquisa que fiz acerca do Dinis Évora, cheguei à conclusão que ele foi depois deputado à Assembleia Constituinte. Morreu cedo. Era um militante muito importante do PCP.

O que a surpreendeu mais, nas pesquisas e descobertas que fez?
Li todas as declarações que a Benvinda deu à PIDE.

Não se perderam? A PIDE tentou destruir muitos documentos, aquando da queda do regime.
Sim, mas estes existem. Estão na Torre do Tombo. O que mais me impressionou foi imaginar o que estava por detrás daquelas declarações. O ambiente de terror. Aquele edifício de crueldade que caía sobre as pessoas. As cartas que ela escreve. No livro não diz, mas ela escreveu ao diretor da cadeia para poder ver o companheiro. As promessas que lhe foram feitas: “o senhor disse que me deixava ver o meu companheiro, se…” Esse edifício de terror, essa crueldade toda, isso ainda hoje me provoca um arrepio.

Descreve muito bem no livro o momento em que ela cede e fala.
Este livro pretende ser um alerta para as pessoas que sofreram nas mãos da PIDE e acabaram por falar. E é uma homenagem a essas pessoas também. Não são só aqueles que não falaram que merecem ser lembrados. Esta mulher é uma mulher que não é letrada. Quando ela começa a viver com o companheiro, é praticamente analfabeta. Existem no processo dela cópias que ela fazia para treinar a letra. Com leituras e com a convivência, foi-se tornando uma pessoa diferente daquela que tinha saído de São João da Madeira. Era uma pessoa sem escolaridade e sem formação política. E acabou ali por circunstâncias determinadas, aconteceu. Não foi propriamente uma coisa por convicção, no caso dela. Acabou por ser por convicção, depois. Não tinha estrutura mental para aguentar a brutalidade daquela violência. Era muito difícil não falar. Era demasiado pesado e demasiado mau.

Os agentes da PIDE tiveram formação com técnicas de tortura, inclusive a psicológica.
Tinham um saber torturador instalado. Estuda-se e pratica-se, como se fosse uma coisa normal. A Amnistia Internacional, creio que há anos, falava em agências de tortura, que ensinavam a torturar. Quando se deu o golpe no Chile, foram enviados especialistas brasileiros para dar formação em tortura. A tortura não é uma coisa só de dar uns safanões, a pessoa cair e depois levar um pontapé. É muito mais profunda do que isso e é estudada cientificamente.

Tem também uma personagem secundária, o Deodato, que, por ser homossexual, sofre especialmente nas mãos da PIDE.
Foram pessoas que ficaram com muitas mazelas para o resto da vida, que viram encurtado o seu prazo de vida. Morreram mais cedo. Algumas não chegaram a ver o 25 de Abril, uma enorme injustiça. Os medos que perseguiam as pessoas… O medo é um sentimento terrível. O medo menoriza-nos, dá cabo de nós, tolhe-nos o passo, a inteligência, a visão, tudo. E a desmemória dos tempos é uma coisa exasperante. Até parece que essa desmemória é planificada. Se se quer que as pessoas estejam assim, guarda-se a memória em gavetas, em museus. Comemora-se no dia X e tal, mas isso não é uma memória trabalhada de forma ativa, interativa. E aqui vou falar com a minha costela, com o meu esqueleto, de esquerdista: aquilo que, de facto, assusta o poder é que essa memória se transforme em experiência. E a transformação da memória em experiência é terrível.

O que quer dizer com isso?
Se as pessoas soubessem efetivamente o que era viver nestes anos, tinham uma visão sobre o passado que hoje não têm. Se as pessoas soubessem como é que as lutas se passaram, como é que as coisas aconteceram, quer de um lado quer de outro, como é que os trabalhadores avançaram, como é que recuaram, porque é que avançaram, porque é que recuaram. Se as pessoas soubessem… Há historiadores a estudar os anos 30 do século passado que ficam completamente assustados com as parecenças com os dias de hoje. Essas parecenças existem. Podemos estar perante uma hecatombe porque não há memória. Se as pessoas tivessem memória, essa perspetiva não existiria. Faria parte da sua compreensão cívica. E isso desapareceu. Essa ausência de memória é tremenda.

"O estatuto de uma mulher que vivia com um homem sem ser casada era quase de prostituta. Não havia divórcio. Na maior parte das vezes, as pessoas que viviam em união de facto não eram respeitadas. Isso era a pequenez, aquela moral com cheiro a mofo. O peso que a Igreja tinha e, ao mesmo tempo, a hipocrisia daquilo tudo."

Tem a ver com a questão das três gerações, em que uma quarta já não tem contacto com a que vivenciou um determinado tempo? A memória sofre uma cisão?
Possivelmente, mas sofre uma cisão porquê? Porque não é preservada, porque não é contada. Veja, neste momento existem pessoas que dizem que eram necessários hoje três Salazares. A gente sabe quem são. Elas não viveram no tempo de um só Salazar. Se tivessem vivido, eventualmente não falariam assim. Digo “eventualmente” mas é, na verdade, má fé dizer uma coisa destas nos tempos que correm. Este tipo de discurso vai ao encontro de quem? Não vai ao encontro dos intelectuais que conhecem minimamente a História. Vai ao encontro dos pobres. É pôr os pobres contra os pobres. Ou seja, quando um pobre diz que os subsídios são uma pouca-vergonha, os bancos descansam porque ninguém se está a rebelar contra os bancos. Quando um pobre fala mal do outro pobre por qualquer outra coisa, os patrões descansam porque ficam mais aligeirados da fúria que as pessoas têm dos seus salários. E essa é a base do populismo, pobre contra pobre. E é isso que o torna ainda mais inaceitável, mais irracional, mais injusto… e, pronto, acabaram-se-me os adjetivos.

É estratégico.
É estratégico, claro. Acho que há intenção e sabe-se muito bem o que se está a fazer.

Regressando ao livro, há também, e já aflorou isso há pouco, o lado do acaso. Que papel acha que o acaso desempenhou na vida destas mulheres, como é que as desenhou, lhes traçou o percurso?
O acaso tem sempre um peso muito forte na vida das pessoas. Havia um livro na minha juventude que se chamava O Acaso e a Necessidade [1970, Jacques Monod]. Referia que o universo existia pelo acaso e pela necessidade. A existência do Major Santana na conjuntura de uma violência doméstica sofrida por Beatriz é um acaso. Aí não será uma necessidade, mas é um acaso que lhe foi favorável. Ou o facto de o Major Santana a levar àquele advogado e não a outro qualquer. Tudo na vida tem a sua grande dose de acaso.

Como é que desenhou as personagens? Criou primeiro um percurso e depois atribuiu-lhes nomes?
Não, o livro foi-se escrevendo.

Nunca sabe como vai acabar?
Nunca sei como vai acabar. Vou adivinhando as personagens. A primeira foi a Beatriz, porque é de Setúbal, que aparece sempre nos meus livros. Aqui, a cidade nem sequer tem um papel fundamental. A Beatriz tinha que nascer naquela data [1922] para haver depois uma certa continuidade entre elas. Depois vem a Benvinda, que é 10 anos mais nova. E, finalmente a Bia, que tem menos 20 anos que a Benvinda.

E vive, até ir para a faculdade, em Évora.
É uma cidade de que gosto muito. É Alentejo, o meu marido é alentejano, o meu pai era alentejano. Eu sou alentejana por vocação. Aliás, Setúbal e Lisboa foram sempre os sítios onde vivi. Creio que Setúbal é culturalmente alentejana, só por uma questão administrativa é que não pertence ao Alentejo. E, portanto, as personagens foram-se escrevendo. E a própria narrativa… Tinha algumas coisas a que queria chegar, mas à medida que fui avançando elas foram-se impondo.

Nada de folhas esquemáticas a traçar personagens e enredos, portanto?
O Alves Redol tinha, no seu escritório, folhas A4 penduradas na parede. Ia seguindo aquilo tudo, sem falhar, e tinha o romance escrito. Eu não consigo. Não consigo pré-determinar o que uma personagem vai dizer ou o que é que lhe vai acontecer. Isso são coisas que a vida vai… A vida não é assim.

Ao descrever as partes em que mulheres são maltratadas, sentiu mais dor ou sobretudo uma espécie de alívio, por poder exteriorizar e dar visibilidade àquelas injustiças?
É uma coisa dilacerante. Em todos os meus livros aparecem mulheres sujeitas a violência doméstica. Algumas das descrições que aparecem nos livros são descrições reais de casos que me chegam ao escritório — e que nunca na minha vida os identificaria. E, por vezes, estão mascarados, mas depreendi, tive a perceção. Portanto, a maior parte daquelas coisas é verdade. E não conto mais coisas mais escabrosas, porque tenho de ter algum pudor. Ainda que nem de longe nem de perto se possa identificar a pessoa que serviu de inspiração para aquela narrativa. Mas creio que tem de haver algum pudor a descrever a violência. No meu livro anterior, aparecia também uma mulher que era vítima de um tipo que era tarado, um legionário. É muito perturbador escrever sobre isso, mas existe e não podemos fechar os olhos.

Não fechar os olhos é denunciar?
Violência é violência, ponto final. Neste livro, temos a violência de que Beatriz foi vítima e temos a violência de que Betty, a filha, foi vítima, com o Lingrinhas a dar-lhe um bofetão. O bofetão era apenas o pontapé de saída. Conseguimos antever muito bem o que teria sido aquela relação. E, sobretudo, o arrojo de bater em alguém logo no namoro, que é uma coisa que se verifica hoje.

A violência está a aumentar entre os casais jovens.
E verificamos hoje um discurso de imposição machista que é insuportável. A extrema-direita, neste momento, é uma das suas bandeiras. É, de novo, pôr a pata em cima das mulheres. A subalternidade, a obediência. Enfim, isso é inaceitável. E é o espelho dos tempos terríveis que vivemos hoje. Já descrevi isto: a gente vê os anúncios na televisão com raparigas em cima de motas, de calções, cabelos ao vento. Felizes, contentes. Já votamos. Já vamos para as faculdades. Já temos mestrado. Já temos doutoramento. Aliás, é maior a percentagem de mulheres com cursos superiores. E há quem pergunte: o que é que querem mais? É que, exatamente enquanto isso acontece, a violência doméstica continua. Os homens continuam no topo, as mulheres continuam a ganhar menos. É essa contradição que é preciso denunciar.

Retratar as características sociais de um Portugal noutro regime, foi uma preocupação desde o início?
Eu vivi as coisas que o livro retrata. Tinha 20 anos quando aconteceu o 25 de Abril. As coisas pequeninas eram e são miseráveis. A maneira como a virgindade era vista, por exemplo. O estigma que era não se ir virgem para o casamento.

Faz referência a palavras agressivas que se usavam, como “estragada”.
O estatuto de uma mulher que vivia com um homem sem ser casada era quase de prostituta. Não havia divórcio. Na maior parte das vezes, as pessoas que viviam em união de facto não eram respeitadas. Isso era a pequenez, aquela moral com cheiro a mofo. O peso que a Igreja tinha e, ao mesmo tempo, a hipocrisia daquilo tudo.

Refere também no livro que o grau de violência da tortura da PIDE variava consoante a condição social dos detidos.
Digo no livro que a PIDE fazia um orçamento. Até onde é que podia ir. Se era filho de boas famílias, levava uns estalos e tal, ficava uns tempos enclausurado e a coisa ficava por ali. Tenho amigos que foram presos e que eram filhos de boas famílias. E, por isso, a PIDE foi logo visitada por advogados. Os pais puseram um cerco àquilo. Sofreram muitíssimo menos que um Sua Nhé, um Deodato. Ou que um Dinis Évora. Ou que a Benvinda. O Mascarenhas C*, que gostava de jazz, também sofreu bastante, mas aí a PIDE estava histérica com a questão da luta armada. Era diferente.

Chegou ao fim do livro e sentiu algum tipo de alívio?
Não. Cheguei ao fim do livro e disse “opá, já acabou”. Gosto das personagens.

A sua profissão também está sempre muito presente. Há um advogado, há um juiz, há descrições de audiências de julgamento. Como é cruzar as facetas de advogada e de escritora?
Há algumas coisas que aparecem no texto que são, obviamente, paleio jurídico. Isso é muito interessante. É evidente que a profissão que exercemos tem sempre um peso muito grande na forma como escrevemos. Quando se escreve em Direito não se pode fazer propriamente poesia, não é? Ou não se pode ter a liberdade que a literatura nos dá. Tem de ter-se aquele colete de forças formal, aquele jargão jurídico, aquela escrita encriptada que é própria do Direito.

Não deveria ser o contrário de encriptada? Não deveria ser acessível, clara?
Quando digo encriptada é porque aquilo tem fórmulas jurídicas. Acho piada quando as pessoas vão tribunal e dizem “mas isto é assim?”. Porque aquilo é uma coisa muito ritualizada, das becas às togas, aos cumprimentos. Esse ritual já não tem grande razão de ser, mas continua a existir. E, portanto, escrever qualquer coisa fora desse colete de forças é uma grande libertação. Uma escrita muito contida encontra, de repente, na literatura um fulgor.

"Isto era um país pobre, muito pobre. Setúbal era uma cidade muito pobre. A fome era íntima dos setubalenses. Nasci em Setúbal, fui criada em Setúbal, numa família pequeno-burguesa. O meu pai era funcionário da Caixa Geral de Depósitos e a minha mãe era professora primária. Mas chegava-nos o eco, por exemplo, das conserveiras, a fome que passavam. E quando se diz fome, era fome mesmo. Não era só vontade de comer, não era só a fraqueza, era fome."

Há outra afirmação forte no livro, em que refere que um juiz tem um teor elevado de subjetividade nas decisões que toma, referindo-se à personagem do juiz Anselmo Fonseca.
Tem demasiado poder. Temos no livro o caso de um juiz que é um crápula, o pai da Bia. Não estou a dizer que os juízes são crápulas, mas estou a dizer que os tribunais continuam a ser esses espaços cheios de poder, às vezes demasiado poder. E, quando é demasiado, entorna-se.

Mas há escrutínio, há instâncias superiores.
Há uns tribunais superiores, que têm determinados procedimentos relativamente àquilo que já foi julgado. Acho que não colmatam completamente as falhas de um primeiro julgamento, aquele em que as pessoas estão cara-a-cara com advogados, com juízes, a fazer os seus depoimentos. Digamos que a base da ação, que é o julgamento de primeira instância, falha muitas vezes.

A falha — agora no caso da escrita — é assumida por si sem medos. Quer comentar a frase do livro em que diz “escrever é soltar a indecisão e a insegurança”?
A gente nunca sabe se aquilo que está ali escrito tem algum nexo, se tem algum valor literário, se está bem escrito, se está mal escrito. Eu gosto, não sei é se é bom. E, portanto, essa insegurança de saber se hei-de ir por aqui ou por ali faz parte da minha escrita, da forma como escrevo, dos sentimentos que tenho ao escrever.

Fala também nos anos 60, que foram anos de grande mudança em Portugal.
Foram tempos preparatórios. A manta era de tal modo pesada, asfixiante, que ia-se levantando um bocadinho aqui, outro bocadinho ali, outro bocadinho acolá. Os anos 60 foram levantando pontas um pouco por toda a parte. Foram fundamentais para o que veio a seguir.

Faz muitas descrições. Ficamos a conhecer os costumes, a decoração das casas, as modas. Fez algum tipo de pesquisa ou isso é tudo de memória?
É a minha memória. Os anos 60 foram, também, os meus anos 60, a minha adolescência. Lembro-me das cores fortes, das casas, das alcatifas.

A novidade do saco de plástico, azul.
Os sacos de plástico não eram usados com a anarquia, com a brutalidade com que são usados hoje, em que damos cabo de tudo com o plástico. Tenho pena de não me lembrar de muitas coisas do dia-a-dia. Aquelas de que me vou lembrando, vou apontando. Por exemplo, na mercearia, a faca de cortar o bacalhau estava embutida no balcão. O fiambre era um luxo e era uma coisa recente.

A Bia é a rapariga que não aceita a condição de mulher a que a época a quer votar.
Para a altura, ela é, de facto, rebelde. Muito rebelde. Ela quer romper. Quer estudar Físico-Química, uma coisa impensável para mulheres.

Como é que a desenvolveu?
Frontal e sem papas na língua. Muito frontal. A Bia nasceu sem pai nem mãe. Ou seja, tem um pai que não a assume e que, pelo contrário, é um travão na sua vida, a todos os níveis. Não gosta dela, nunca houve para com ela uma manifestação de afeto por parte daquele traste que é aquele juiz. Há uma cena em que ela lhe pede dinheiro para ir comprar um bolo e ele lhe diz: ”Olha lá, não queres beber também uma laranjada? Vai mas é ter com a tua madrinha”. Portanto, ela nasce sem pai e sabe perfeitamente que a Etelvina, que ocupa o papel de mãe, não é mãe. É uma personagem com uma rebeldia em relação a tudo, desde o início da vida.

Já com a Benvinda, quando era criança, a crescer sem qualquer afeto por parte dos pais, houve um episódio em que uma mulher se dirigiu à mãe a perguntar-lhe se não a queria dar. Não é a primeira vez que ouço falar deste tipo de episódio. Era comum?
Era uma coisa vulgar, sim. Tive um tio-avô que foi cedido a um casal sem filhos, que ficaram padrinhos, e que depois foi devolvido, porque a criança não aguentava. Não aguentava estar longe dos pais. Agora, a gente pergunta como é que se dá um filho. Eu não imagino, mas na altura parece que era uma prática comum.

As famílias eram numerosas e pobres e era menos uma boca para comer.
Isto era um país pobre, muito pobre. Setúbal era uma cidade muito pobre. A fome era íntima dos setubalenses. Nasci em Setúbal, fui criada em Setúbal, numa família pequeno-burguesa. O meu pai era funcionário da Caixa Geral de Depósitos e a minha mãe era professora primária. Mas chegava-nos o eco, por exemplo, das conserveiras, a fome que passavam. E quando se diz fome, era fome mesmo. Não era só vontade de comer, não era só a fraqueza, era fome. Chegavam ecos da repressão. Enfim, eram tempos terríveis. E é isso que pretendo mostrar.

"Uma pessoa libertada tem um passado de prisão que eventualmente lhe tolhe o passo em relação à liberdade. Mas, apesar de ir aos tropeções, vai. Hoje vamos a uma manifestação completamente descontraídos. Já fui militante de partidos em que ia colar cartazes e ia sem medo. Parece que foi tudo dado, que caiu do céu aos trambolhões, que foi sempre assim, mas não foi sempre assim."

Já teve retorno de pessoas próximas que tenham lido o livro?
O meu marido. Gostou muito. Fico sempre muito satisfeita quando recebo reações positivas, porque acredito nas pessoas que tenham vivido aquela época. É muito vívido. Foi tudo tão bonito, tão… No meu livro anterior, A Noite Passada, a filha diz à mãe aquilo que a minha filha me diz e que eu respondo. Ela diz-me que gostava muito de ter vivido esse tempo. E a mãe responde-lhe: “Dou-te tudo da minha vida, menos o meu 25 de Abril”. Já disse isto muitas vezes à Ana, a minha filha.

Como viveu o seu 25 de Abril?
Era uma jovem, estava a estudar em Lisboa. Foi o início de uma nova vida. A minha vida tem dois grandes períodos. Antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril. Não meto aí a vida profissional, falo da vida pessoal. A minha vida cinzenta até ao 25 de Abril e a minha vida com sol depois do 25 de Abril. Por muita crítica que se possa fazer, foi o melhor que pôde acontecer a este país. É engraçado porque A Noite Passada está traduzido em espanhol e fui a Espanha apresentá-lo, no ano passado. Havia lá um tipo que me disse que os espanhóis têm muita inveja dos portugueses. “O nosso ditador morreu na cama. Nunca tivemos um 25 de Abril, que foi para nós um alerta para aquilo que poderia ter sido feito.” De facto, a nossa revolução é a mais bonita do mundo, não há outra. As pessoas a abraçarem-se, enfim, a liberdade nas ruas.

O socialista António Campos disse há dois anos em entrevista ao jornal Público que Mário Soares se questionava se o povo português estaria preparado para a democracia. O passo foi maior do que a perna?
É Foucault quem diz que uma pessoa libertada é diferente de uma pessoa livre. E tem razão. Uma pessoa libertada tem um passado de prisão que eventualmente lhe tolhe o passo em relação à liberdade. Mas, apesar de ir aos tropeções, vai. Hoje vamos a uma manifestação completamente descontraídos. Já fui militante de partidos em que ia colar cartazes e ia sem medo. Parece que foi tudo dado, que caiu do céu aos trambolhões, que foi sempre assim, mas não foi sempre assim.

E um livro como este poderá ter algum papel entre os jovens?
Vivemos no presentismo. Estamos a criar seres acéfalos e acríticos. Não quero ser reacionária e falar mal das redes sociais só por falar, mas elas são, de facto, um instrumento poderosíssimo para dar cabo de qualquer sentimento de rebeldia que se tenha. Um sentimento de rebeldia que não seja de pele, que seja uma coisa estruturada, pensada, em que se analisa a realidade e se identifica onde é que ela está mal, porque é que está mal, o que há a fazer, a que forças nos podemos juntar.

Por outro lado, essas mesmas redes são igualmente uma ferramenta útil de denúncia, de movimentação civil, de práticas alternativas de jornalismo, por exemplo.
São as mesmas redes sociais, mas a necessidade é outra.

Tornámos-nos indiferentes?
Estamos todos adormecidos. É uma sociedade sem a profundidade que deveria ter, sem uma análise crítica da realidade, as pessoas não param para pensar. Quando, na Assembleia da República, vemos aqueles discursos infames, grosseiros, e as pessoas batem palmas, faz lembrar o Império Romano aquando da sua decadência, alimentado a pão e circo. Hoje, há muito circo. Como dizia a primeira frase do livro de Hannah Arendt [Homens em Tempos Sombrios]: “Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança”.