O cenário era o Olympiastadion, em Berlim, e o relógio marcava o minuto 45+2′ da primeira parte. Jogava-se um jogo particular entre a Alemanha e a Turquia, em novembro de 2023, quando uma bola saiu do pé de Kenan Yildiz a toda a velocidade para gelar o histórico estádio germânico. Aquele golo não significava apenas a vantagem da Turquia, num jogo que acabou mesmo por vencer (3-2). Significava muito mais que isso: Yildiz não ia ser a repetição de uma história que, entre outros, levou Gündogan e Mesut Özil para a Mannschaft, crónica favorita a vencer qualquer competição em que entra.
Kenan Yildiz não é a primeira nem será a última vírgula numa história que junta e afasta, simultaneamente, a Turquia e a Alemanha. Alguns atletas de origem turca decidiram, no passado, vestir a camisola alemã – uma opção frequentemente associada à estabilidade competitiva e ao pragmatismo das estruturas de elite do país onde nasceram. Nascido na Baviera e com formação dividida entre o Bayern e a Juventus, Yildiz tinha esse mesmo roteiro de conforto desportivo à sua disposição, com os responsáveis germânicos atentos ao seu desenvolvimento e já com uma passadeira vermelha estendida para representar a seleção alemã. Contudo, ao optar por representar as seleções da Turquia desde os escalões de formação, o avançado estabeleceu um contraste com os precedentes, reafirmando a sua escolha com aquele remate em Berlim.
O extremo da Juventus é agora a grande luz da seleção turca que ainda conta com outros talentos, como Arda Güler ou a experiência de Hakan Çalhanoglu, mas nenhuma figura junta atualmente tanta atenção ou brilha como Yildiz. O protagonismo e a camisola 10 alcançados na Serie A italiana colocaram-no no centro da engrenagem ofensiva desenhada pelo técnico italiano Vincenzo Montella, o primeiro treinador estrangeiro da história da seleção turca, que obteria nacionalidade turca caso conseguisse ganhar um lugar nas 48 vagas para disputar o Campeonato do Mundo. “Sinto-me turco, penso como um turco a cada passo que dou. O passaporte é apenas uma formalidade para mim, sinto-me sempre turco”, afirmou depois de conseguir o apuramento.
Nos relvados norte-americanos, o Mundial de 2026 surge como o palco definitivo para testar a maturidade desta geração, com as aspirações turcas firmemente depositadas na qualidade de um rapaz que preferiu o caminho das suas origens. O regresso da seleção turca a uma fase final de um Mundial, 24 anos depois, curiosamente coincide com a era em que Kenan fintou a história.

BI
- Ranking FIFA atual: 22.º (a 1 de abril de 2026)
- Melhor ranking FIFA: 5.º (junho de 2004)
- Patrocinador: Nike (desde 2003)
- Alcunha: Bizim Çocuklar (Os Nossos Rapazes) ou Ay-Yıldızlılar (As Estrelas Crescentes)
- Presenças em fases finais: 3
- Última participação: 2002 (3.º lugar, Brasil nas meias-finais)
- Melhor resultado: 3.º lugar em 2002
- Qualificação: 2.º lugar do grupo E da UEFA (13 pontos em 6 jogos com Espanha, Geórgia e Bulgária) e vencedor do playoff C da UEFA (Roménia, 1-0 e Kosovo, 1-0)
- O que seria um bom resultado? Passar a fase de grupos
Jogos desde junho de 2025
- Qualificação UEFA, 31/3: Kosovo (fora), 0-1 (V)
- Qualificação UEFA, 26/3: Roménia (casa), 1-0 (V)
- Qualificação UEFA, 18/11: Espanha (fora), 2-2 (E)
- Qualificação UEFA, 15/11: Bulgária (casa), 2-0 (V)
- Qualificação UEFA, 14/10: Geórgia (casa), 4-1 (V)
- Qualificação UEFA, 10/10: Bulgária (fora), 1-6 (V)
- Qualificação UEFA, 7/9: Espanha (casa), 0-6 (D)
- Qualificação UEFA, 4/9: Geórgia (fora), 2-3 (V)
- Jogo particular, 11/6: México (fora), 1-0 (D)
- Jogo particular, 07/6: EUA (fora), 1-2 (V)
O onze
- 4x2x3x1: Mert Günok; Zeki Çelik, Merih Demiral, Abdülkerim Bardakci, Ferdi Kadioglu; Hakan Çalhanoglu, İsmail Yüksek; Irfan Can Kahveci, Arda Güler, Kenan Yildiz; Baris Alper Yilmaz
O treinador
- Vincenzo Montella (italiano, 51 anos, desde setembro de 2023)
- Outros clubes: Roma, Catania, Fiorentina, Sampdoria, AC Milan, Sevilha e Adana Demirspor
- Títulos (1): 1 Supertaça de Itália (AC Milan)

O craque
- Kenan Yildiz (21 anos, avançado/extremo da Juventus)
- Outros clubes: Bayern (formação)
A revelação
- Arda Güler (21 anos, médio ofensivo do Real Madrid)
- Outros clubes: Fenerbahçe
O mais internacional e o maior goleador
- Rüştü Reçber (120 internacionalizações) e Hakan Şükür (51 golos)

Os 26 convocados
- Guarda-redes (3): Altay Bayindir (Manchester United, Inglaterra), Ugurcan Çakir (Galatasaray, Turquia) e Mert Günok (Fenerbahçe, Turquia)
- Defesas (9): Ferdi Kadioglu (Brighton, Inglaterra), Mert Müldür (Fenerbahçe, Turquia), Merih Demiral (Al-Ahli, Arábia Saudita), Çaglar Söyüncü (Fenerbahçe, Turquia), Ozan Kabak (Hoffenheim, Alemanha), Eren Elmah (Galatasaray, Turquia), Zeki Çelik (Roma, Itália), Abdülkerim Bardakci (Galatasaray, Turquia) e Samet Akaydın (Çaykur Rizespor, Turquia)
- Médios (7): Arda Güler (Real Madrid, Espanha), Hakan Çalhanoglu (Inter, Itália), Orkun Kökçü (Beşiktaş, Turquia), Can Uzun (Eintracht Frankfurt, Alemanha), Salih Özcan (B. Dortmund, Alemanha), Kaan Ayhan (Galatasaray, Turquia) e Ismail Yüksek (Fenerbahçe, Turquia)
- Avançados (7): Kenan Yildiz (Juventus, Itália), Deniz Gül (FC Porto), Yunus Akgün (Galatasaray, Turquia), Kerem Aktürkoglu (Fenerbahçe, Turquia), Irfan Can Kahveci (Fenerbahçe, Turquia), Baris Alper Yilmaz (Galatasaray, Turquia) e Oguz Aydin (Fenerbahçe, Turquia)
O local do estágio
- Courtyard Mesa at Wrigleyville West, Mesa, no Arizona (treinos: Arizona Athletic Grounds)
A antevisão
A ligação a Portugal
- A ligação entre os dois países não é nova. Jorge Jesus, José Mourinho e Fernando Santos, ex-selecionador nacional, são apenas alguns dos treinadores que já trabalharam na Primeira Liga turca. Hoje, João Pereira é o único treinador principal português na Liga turca. Quando ainda era jogador, seguiu as pisadas de muitos portugueses e juntou-se ao Trabzonspor em 2016/2017. Entre os que já tinham feito esse trajeto estão Ricardo Quaresma, Nani, Bruno Alves ou Pepe – todos internacionais. Mais recentemente, também Rafa jogou no futebol turco, antes de regressar ao Benfica, que já teve no seu plantel Kerem Aktürkoglu e Orkun Kökçü. Olhando para os convocados, Demiral, central do Al Ahli, da Arábia Saudita, passou pelo Sporting B antes de rumar à Serie A, além do único jogador que está na Liga portuguesa e vai mesmo ao Mundial: Deniz Gül, do FC Porto.