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Austrália (grupo D). Os filhos de uma maldição revertida que só foi quebrada por um apresentador de TV

É mais uma qualificação da Austrália para a fase final de um Mundial – a sexta seguida. A sequência começou quando Safran decidiu reverter uma maldição que começou em Maputo e teve dedo português.

Manuel Conceição Carvalho
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A mais mítica história da Austrália no futebol de seleções começou em 1969 e teve lugar num sítio improvável: Moçambique. Os socceroos deslocaram-se a África para defrontar a Rodésia (hoje Zimbábue), que não podia receber o jogo no seu território, na qualificação para o Mundial de 1970. A Austrália nunca tinha ido a um Campeonato do Mundo e desejava que o ano seguinte fosse de estreia na prova.

A 23 e 27 de novembro de 1969, as seleções africana e oceânica não foram além de um empate (0-0 e 1-1, respetivamente), o que significou um terceiro jogo no início de dezembro. Para desatar o empate, os australianos recorreram a um bruxo moçambicano – um nyunga – para amaldiçoar a seleção adversária e conseguir a vitória importante para o apuramento. O triunfo acabou por acontecer (3-1) e a Austrália estava na fase seguinte.

Mas os problemas estavam para chegar: depois da vitória dos socceroos, o bruxo exigiu um pagamento de 1.000 dólares australianos pelos seus serviços e os jogadores acabaram por não pagar. O bruxo reverteu a maldição, lançando-a sobre a seleção australiana. Os efeitos foram imediatos e a seleção não conseguiu apurar-se para o Mundial de 1970, que se realizou no México. A oportunidade seguinte de entrar num Campeonato do Mundo seria apenas quatro anos depois e os socceroos conseguiram chegar à fase final em 1974, na Alemanha Ocidental. Contudo, a praga parecia pairar subtilmente: a equipa foi eliminada logo na fase de grupos, sem conseguir marcar um único golo.

Depois do Mundial de 1974 na Alemanha, a seleção da Austrália foi, de quatro em quatro anos, saltando de desilusão em desilusão nas tentativas de se apurar para as fases finais dos Mundiais. A maior foi em 1997, diante da seleção iraniana: a cerca de 15 minutos dos 90′, a ganhar por 2-0 e com um pé na fase final, a seleção australiana sofreu dois golos e acabou por falhar o Mundial de 1998, em França.

Chegava o ano de 2004 e o Mundial da Coreia e do Japão já tinha sido havia dois anos. A Austrália continuava na longa espera de conseguir entrar num Campeonato do Mundo, desde aquele em 1974. O desespero e a frustração dos adeptos alimentavam a teoria da maldição, ao ponto de o tema saltar dos relvados para o horário nobre da televisão. Foi então que o apresentador de televisão australiano John Safran decidiu pegar no assunto pelas próprias mãos.

Em 2004, para o seu programa na estação nacional SBS, Safran viajou propositadamente até Maputo, em Moçambique, determinado a quebrar o enguiço de vez. Com a ajuda de um curandeiro local chamado Paulino, Safran regressou ao exato relvado onde a promessa tinha sido feita em 1969. Ali, realizou um ritual para anular a praga e saldar a dívida que os socceroos carregavam há mais de três décadas. A 16 de novembro de 2005, no Estádio Olímpico de Sydney, depois de uma caminhada em mais um playoff, a Austrália garantiu finalmente o regresso à elite do futebol mundial, depois de bater o Uruguai nas grandes penalidade. “A minha caixa de e-mails estava a rebentar pelas costuras. A Austrália tinha-se qualificado pela primeira vez [em 32 anos] e toda a gente me agradecia e dizia Conseguiste!”, revelou o apresentador, citado pela ABC Australia.

Além do facto de a Austrália se ter qualificado para o Mundial de 1974 – o que desafia a narrativa da maldição –, os mais céticos apontam razões práticas para os fracassos seguintes: a seleção dominava adversários com menor qualidade na Oceânia, mas chegava às eliminatórias decisivas sem o ritmo competitivo das equipas da Ásia ou da América do Sul. O historiador do futebol australiano Roy Hay contraria a história de Johnny Warren, na altura capitão da seleção australiana, argumentando que a maldição foi, na verdade, uma partida inventada por Tom Patrick e por Brian Corrigan, da equipa técnica, para elevar a moral da equipa após os dois empates diante da Rodésia.

Com ou sem os feitiços que Warren deixou na sua autobiografia, que Safran leu e inspirou a sua viagem a Maputo, a verdade é que a partir de 2006 a Austrália nunca mais falhou a fase final de um Mundial. Esta é mais uma presença, na sequência de muitas outras que surgiram só depois daquele ritual em Maputo, que até hoje não se sabe se teve reais efeitos ou se se tratou apenas de mais um efeito de placebo.

BI

  • Ranking FIFA atual: 27.º (a 1 de abril de 2026)
  • Melhor ranking FIFA: 14.º (setembro de 2009)
  • Patrocinador: Nike (desde 2004)
  • Alcunha: The Socceroos
  • Presenças em fases finais: 7
  • Última participação: 2022 (oitavos, Argentina)
  • Melhor resultado: Oitavos de final em 2006 e 2022
  • Qualificação: 1.º lugar do grupo I da 2.ª fase da AFC (18 pontos em 6 jogos com Palestina, Líbano e Bangladesh) e 2.º lugar no grupo C da 3.ª fase da AFC (19 pontos em 10 jogos com Japão, Arábia Saudita, Indonésia, China e Bahrain)
  • O que seria um bom resultado? Passar a fase de grupos

Jogos desde junho de 2025

  • Jogo particular, 6/6: Suíça (neutro)
  • Jogo particular, 31/5: México (fora), 0-1 (D)
  • Jogo particular, 31/3: Curaçau (casa), 5-1 (V)
  • Jogo particular, 27/3: Camarões (casa), 1-0 (V)
  • Jogo particular, 19/11: Colômbia (casa), 0-3 (D)
  • Jogo particular, 15/11: Venezuela (casa), 0-1 (D)
  • Jogo particular, 15/10: EUA (fora), 1-2 (D)
  • Jogo particular, 11/10: Canadá (fora), 0-1 (V)
  • Jogo particular, 9/9: Nova Zelândia (fora), 1-3 (V)
  • Jogo particular, 5/9: Nova Zelândia (casa), 1-0 (V)
  • Qualificação AFC, 10/6: Arábia Saudita (fora), 1-2 (V)
  • Qualificação AFC, 5/6: Japão (casa), 1-0 (V)

O onze

  • 4x2x3x1: Mat Ryan; Gethin Jones, Harry Souttar, Kye Rowles, Aziz Behich; Keanu Baccus, Jackson Irvine; Martin Boyle, Ajdin Hrustic, Craig Goodwin; Mitchell Duke

O treinador

  • Tony Popovic (australiano, 52 anos, desde setembro de 2024)
  • Outros clubes: Western Sydney Wanderers, Perth Glory, Melbourne Victory e Karabükspor (Turquia)
  • Títulos (3): 1 Liga dos Campeões da Ásia (Western Sydney Wanderers) e 2 Premierships da A-League (Wanderers e Perth Glory)

O craque

  • Alessandro Circati (defesa central do Parma)
  • Outros clubes: Perth Glory (formação)

A revelação

  • Nestory Irankunda (20 anos, extremo do Watford)
  • Outros clubes: Bayern, Grasshoppers e Adelaide United

O mais internacional e o maior goleador

  • Mark Schwarzer (109 internacionalizações) e Tim Cahill (50 golos)

Os 26 convocados

  • Guarda-redes (3): Mathew Ryan (Levante, Espanha), Paul Izzo (Randers, Dinamarca) e Patrick Beach (Melbourne City, Austrália)
  • Defesas (10): Milos Degenek (APOEL, Chipre), Alessandro Circati (Parma, Itália), Jacob Italiano (Grazer AK, Áustria), Jordan Bos (Feyenoord, Países Baixos), Jason Geria (Albirex Niigata, Japão), Kai Trewin (New York City FC, EUA), Aziz Behich (Melbourne City, Austrália), Harry Souttar (Leicester, Inglaterra), Cameron Burgess (Swansea, País de Gales) e Lucas Herrington (Colorado Rapids, EUA)
  • Médios (6): Connor Metcalfe (St. Pauli, Alemanha), Ajdin Hrustic (Heracles, Países Baixos), Aiden O’Neill (New York City FC, EUA), Cammy Devlin (Hearts, Escócia), Jackson Irvine (St. Pauli, Alemanha) e Paul Okon-Engstler (Sydney FC, Austrália)
  • Avançados (7): Mathew Leckie (Melbourne City, Austrália), Mohamed Touré (Norwich, Inglaterra), Awer Mabil (Castellón, Espanha), Nestory Irankunda (Watford, Inglaterra), Cristian Volpato (Sassuolo, Itália), Nishan Velupillay (Melbourne Victory, Austrália) e Tete Yengi (Machida Zelvia, Japão)

O local do estágio

  • Claremont Hotel & Spa, Berkeley, na Califórnia (treinos: Oakland Roots/Soul Training Facility)

A antevisão

"Qualquer equipa que nos subestime vai apanhar um choque brutal quando chegarem os jogos da fase de grupos."
Tony Popovic, selecionador da Austrália

A ligação a Portugal

  • No histórico de confrontos entre a seleção australiana e a Seleção portuguesa, a ligação é nula. Não por empates a zeros, mas precisamente por nunca ter a havida uma partida entre as duas seleções, desde que há registo. Na história da maldição de Maputo há, no entanto, “dedo” português: o árbitro dos três jogos entre a Austrália e a Rodésia. Não foram só os australianos que tiveram de permanecer em África durante mais de dez dias. Também António Saldanha Ribeiro, árbitro da Associação de Futebol de Leiria, esteve em Maputo e fica ligado a um dos mais míticos capítulos da história da seleção australiana.