Quem tem medo do coelho mau? A pergunta pode soar provocadora, mas ajuda a perceber a dimensão singular de Bad Bunny em 2026. Pouco antes de o artista subir ao palco de um Estádio da Luz praticamente lotado, discutia-se na televisão portuguesa o significado político e cultural do fenómeno porto-riquenho. Na CNN Portugal, a comentadora de política norte-americana Ana Cavalieri falava do posicionamento anti-Trump do músico. Horas antes, já Pedro Adão e Silva, ex-ministro da Cultura, sublinhara no mesmo canal a importância de um artista latino de 32 anos conquistar o centro da cultura pop global sem abandonar a língua espanhola. Que outro músico atual consegue atravessar desta forma o comentário político, cultural e identitário?
A resposta, ou parte dela, talvez esteja em DeBÍ TiRAR MáS FOToS, o álbum lançado em janeiro de 2025 e que transformou Bad Bunny em algo maior do que uma estrela pop. Numa altura em que boa parte da indústria musical empurrava os artistas latino-americanos para uma espécie de neutralidade internacional — menos sotaque, mais refrões que funcionem da mesma maneira em Los Angeles, Madrid ou Lisboa — Benito Martínez Ocasio fez precisamente o contrário. O artista mais ouvido do mundo fala, pasme-se, espanhol. Mais: canta a gentrificação de San Juan, recupera géneros tradicionais porto-riquenhos, recusa “modernizar” certos sons e deixa-os soar exatamente como são: antigos, locais, profundamente ligados à ilha.
Com o tempo, claro, a dimensão política da existência de Benito tornar-se ainda mais visível além das letras. O cantor criticou Donald Trump depois de comentários sobre Porto Rico durante a campanha presidencial norte-americana e aproveitou a atuação no intervalo da Super Bowl para reforçar símbolos da identidade porto-riquenha perante uma audiência global. Mais do que ativismo direto, a política de Benito faz-se através da afirmação cultural: cantar em espanhol, levar reggaeton aos maiores palcos do mundo, insistir na memória coletiva de Porto Rico num mercado desenhado para uniformizar.


Em Lisboa, no primeiro de dois concertos que deu no Estádio da Luz, essa política traduz-se de forma menos discursiva e mais emocional, mas nem por isso menos presente. “Estar em Portugal era uma questão de tempo”, começa por dizer ao público quase em tom de confidência, como se não estivesse perante dezenas de milhares de pessoas (não há números oficiais). Surge vestido de branco e creme, de fato elegante, mais próximo de um crooner caribenho contemporâneo do que da imagem tradicional do rapper latino. Minutos antes, Lorén Aldarondo, vocalista dos também porto-riquenhos Chuwi — banda responsável pela primeira parte — tinha subido ao palco com um vestido da marca portuguesa Béhen, num pequeno detalhe visual que ajuda a reforçar a ponte cultural que o concerto procurou constantemente construir entre Porto Rico e Lisboa.
Para o público português, de resto, este concerto teve um sabor de compensação histórica. É que o nome de Bad Bunny chegou a estar anunciado para o Primavera Sound de 2020, cancelado pela pandemia. Seis anos depois, o artista estreia-se em Portugal num contexto completamente diferente — mas não total. O homem nascido em Bayamón, em 1994, que começou por lançar canções no SoundCloud enquanto trabalhava num supermercado, já ultrapassou há muito a dimensão do rapper de nicho latino. Grammys, recordes no Spotify, digressões mundiais, Super Bowl: nada disso parece, ainda assim, tê-lo transformado numa vedeta distante. Prova disso foram os longos minutos em que se deixou tocar, abraçar e puxar pelos fãs das primeiras filas no Estádio da Luz. Falou frequentemente com o público, riu-se de si próprio. Há uma informalidade descontraída em Bad Bunny que ajuda a explicar porque é que um estádio inteiro parece tratá-lo menos como uma celebridade inalcançável e mais como alguém “dos seus”.

Os mais céticos talvez tenham ficado conquistados logo nos primeiros minutos do concerto. A certa altura, ouve-se um excerto de Lisboa Menina e Moça, clássico interpretado por Carlos do Carmo, com letra de Ary dos Santos e Joaquim Pessoa, tocado num cuatro porto-riquenho — instrumento central da música tradicional da ilha caribenha. O momento funciona como um gesto estudado de aproximação cultural, mas eficaz. Nada nos faz sentir mais vistos do que um estrangeiro reconhecer os nossos símbolos. “Minha primeira vez em Portugal, caralho”, surge depois num vídeo projetado nos ecrãs gigantes, acompanhado de imagens da cidade. Seguem-se as clássicas palavras soltas ditas em português — “bacalhau”, “pastel de nata”, “rissol”, “bifana”, “francesinha” — e uma piada sobre ter engordado graças à comida portuguesa. Regozijar-nos por imaginar Bad Bunny a enfardar pastéis de nata pode ser um comportamento básico, mas o estádio responde como se cada referência fosse uma declaração de amor personalizada.
As temperaturas elevadas da noite lisboeta tornavam-se, entretanto, o cenário perfeito para a primeira grande explosão coletiva: NUEVAYoL. Qual verão em Nueva Yol… este é o verão em Lisboa. Bad Bunny logo mergulhou numa sequência de temas como Tití Me Preguntó, transformando o Estádio da Luz numa massa compacta de gente a dançar reggaeton debaixo de um calor quase tropical.

Ao longo do concerto multiplicam-se bandeiras de Porto Rico — mas também muitas portuguesas. A “Casita”, o pequeno palco montado no meio do público e inspirado na arquitetura tradicional porto-riquenha, surge como um dos momentos centrais do espetáculo. É também aí que aparece um dos pontos menos conseguidos da noite: o chamado “casting” para ocupar o espaço. A expectativa em torno daquela estrutura vinha alta. Noutras cidades, a Casita recebeu convidados surpresa e figuras públicas — em Barcelona estiveram jogadores de futebol como Lamine Yamal, Gavi, Pedri ou Dani Olmo; noutros concertos surgiram nomes como Bad Gyal ou até a dupla Penélope Cruz e Javier Bardem. Não é um exagero dizer que Lisboa não teve equivalente. E embora Bad Bunny nunca tenha mostrado obsessão por celebridades, fica inevitavelmente a sensação de oportunidade perdida. Ana Malhoa teria feito explodir o estádio, mas não faltam outros artistas: Ana Moura? Pedro Mafama? Bárbara Bandeira? Nem futebolistas sul-americanos faltam nos planteis portugueses, agora todos de férias, findo o campeonato. Basta lembrar como ainda há pouco tempo a futebolista portuguesa Kika Nazareth protagonizou um dos momentos mais marcantes do segundo concerto de Rosalía em Lisboa.

“Atenção: esta música é exclusiva para vocês. Não se vai repetir noutra cidade”, vemos no ecrã a certa altura. A escolhida é Estamos Bien, tema de 2018 recebido quase como uma oferta íntima para os fãs portugueses. “Não tinha ideia de que tantas pessoas gostavam de mim em Lisboa”, admite Benito depois, genuinamente surpreendido. “Obrigado por este amor, por esta energia.” Mais tarde acrescenta: “Hoje todos somos porto-riquenhos.”
E talvez tenha sido esse o verdadeiro triunfo do concerto. Durante quase três horas, Lisboa entrou completamente no universo emocional de Bad Bunny: a nostalgia, a celebração, o amor comunitário, a memória coletiva, o orgulho cultural. Ojitos Lindos, Yonaguni, La Canción ou El Apagón foram recebidas como hinos de estádio, acompanhadas por um aparato visual constante de fotografias analógicas, dançarinos, fogo, luzes e vídeos caseiros.

No final, já depois de DtMF, canção que dá título ao álbum, transformar o estádio inteiro num coro gigantesco, Bad Bunny interrompe o espetáculo para um último pedido. “Já tirámos muitas fotos, muitos vídeos”, diz. “Mas este álbum também é sobre tirar fotografias com o coração.”
Pede então ao público para guardar os telemóveis. O público ergue as mãos e acena. Nos ecrãs surge apenas uma palavra gigante, vermelha: Perreo. O estádio abana os braços no ar enquanto rebentam os últimos foguetes de fogo de artifício. Durante uma noite, Porto Rico coube inteiro dentro do Estádio da Luz.
