O primeiro-ministro, Luís Montenegro, abriu na passada terça-feira a Cimeira da Indústria no Theatro Circo, em Braga.
Num evento organizado pelo Observador, em parceria com a AEMinho, Montenegro afirmou que a indústria pode ser “uma pedra angular” de um projeto de futuro para Portugal e considerou que o país deve aproveitar o atual momento para reforçar a atração de investimento, ganhar escala e consolidar a presença das empresas portuguesas nos mercados internacionais. “Portugal é uma economia que tem tudo, neste tempo de instabilidade, para ser uma referência de estabilidade”, disse o chefe do governo.
O primeiro-ministro enquadrou esta ambição numa estratégia assente na valorização do trabalho, na redução da fiscalidade sobre trabalhadores e empresas, na simplificação do Estado, na digitalização e na flexibilização das relações laborais. Segundo Montenegro, baixar impostos sobre o rendimento do trabalho é uma forma de dizer às pessoas que “vale a pena trabalhar” e que o retorno do esforço deve ser maior. A mesma lógica foi aplicada à fiscalidade das empresas, que o Governo quer reduzir para permitir maior rentabilidade, mais investimento, melhores salários e maior capacidade de inovação.
Na intervenção, Luís Montenegro insistiu também na importância da simplificação administrativa e destacou a criação da carteira digital da empresa, que apresentou como um instrumento para reduzir horas de trabalho burocrático e facilitar a relação das empresas com o Estado. E defendeu que o Estado não deve pedir repetidamente informação que já tem na sua posse e que a relação com cidadãos e empresas deve ser mais rápida, simples e consequente.




Outro dos pontos fortes do discurso foi a defesa de alterações na legislação laboral. Luís Montenegro rejeitou a ideia de que o Governo queira retirar direitos aos trabalhadores e afirmou que o Executivo não tem “nenhum fetiche pelas leis laborais”, argumentando que regras mais dinâmicas podem tornar as empresas mais competitivas, aumentar a capacidade de atração de investimento e criar condições para salários mais altos. O primeiro-ministro referiu ainda o banco de horas por acordo entre empregador e trabalhador, defendendo que este tipo de instrumento pode ajudar as empresas a responder a encomendas e oportunidades inesperadas.
O chefe do Governo ligou ainda a competitividade da indústria à formação e ao sistema educativo. Montenegro afirmou que o Executivo está a intervir “de forma muito profunda” na educação, do pré-escolar ao ensino superior, e destacou a aposta no ensino profissional, com verbas destinadas a escolas profissionais e ao novo ciclo de formação. Para o primeiro-ministro, a competitividade futura do país depende tanto da investigação e da inovação como da capacidade operacional necessária ao funcionamento das empresas.
Braga, cidade industrial e exportadora
A abertura da cimeira — que foi apresentada por Carla Jorge de Carvalho, editora das Manhãs 360 da Rádio Observador, e por Ricardo Conceição, subdiretor da rádio — contou também com intervenções de João Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Braga, António Carrapatoso, presidente do Conselho de Administração Executivo do Observador, e Ramiro Brito, presidente da AEMinho.
João Rodrigues destacou o papel de Braga como cidade industrial, tecnológica e exportadora, defendendo que o município quer ser “uma parceira séria, exigente e absolutamente disponível” para quem investe. O autarca sublinhou que Braga tem hoje uma base sólida em indústria, conhecimento, juventude, talento, tecnologia e qualidade de vida.
António Carrapatoso explicou a razão pela qual o Observador decidiu organizar a Cimeira da Indústria, defendendo que a indústria é essencial para criar riqueza, valor acrescentado, melhores salários e qualidade de vida. O presidente do Conselho de Administração Executivo do Observador afirmou ainda que o jornal acredita na iniciativa dos cidadãos, em mercados livres e abertos e num Estado ao serviço dos cidadãos.
Ramiro Brito, presidente da AEMinho, afirmou que a indústria e as empresas portuguesas são “provavelmente o maior agente de transformação económica e social do país”. O responsável defendeu que o Minho é um dos motores da economia portuguesa e apresentou a cimeira não como “um ponto de chegada”, mas como “um ponto de partida” para dar atenção permanente à indústria e às empresas.
Escala e competitividade
Depois da abertura, a Cimeira da Indústria prosseguiu com o primeiro grande tema do dia: “Escala e Competitividade”, que contou com a intervenção de Carlos Moreira da Silva, presidente da Business Roundtable Portugal. O empresário defendeu que o país continua a crescer abaixo do potencial da sua economia e alertou para a dificuldade das empresas nacionais em ganhar dimensão num mercado global cada vez mais competitivo. “Portugal tem talento, tem empresas e tem capacidade exportadora, mas continua com dificuldade de transformar este potencial em escala, em competitividade e em produtividade. E sem produtividade não há crescimento sustentável”.
O responsável destacou ainda o desequilíbrio entre microempresas e grandes empresas em Portugal face à média europeia, considerando que o país precisa de criar condições para que as empresas consigam crescer, internacionalizar-se e ganhar produtividade. “Temos 47% mais microempresas do que a média da União Europeia e 41% menos grandes empresas”, referiu. Carlos Moreira da Silva apontou ainda a burocracia, a fiscalidade e a lentidão da justiça administrativa e fiscal como alguns dos principais entraves à competitividade da indústria portuguesa.
Ainda no tema “Escala e Competitividade”, seguiu-se um painel de discussão com Luís Aguiar Conraria, presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, Carlos Jardim, administrador da Bosch Braga, e João Pedro Oliveira e Costa, CEO do Banco BPI.
Tendências decisivas
Durante a manhã, António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal, fez ainda uma intervenção dedicada aos desafios dos gestores no atual contexto económico, na qual sublinhou que as empresas enfrentam hoje um cenário marcado pela incerteza geopolítica, pela aceleração tecnológica e pela necessidade de adaptação rápida a novas tendências globais. O responsável destacou temas como a inteligência artificial, o talento, a cibersegurança, a energia e a produtividade como alguns dos principais desafios que gestores e empresas terão de enfrentar nos próximos anos.
António Brochado Correia alertou que muitas empresas continuam sem conseguir acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas e estratégicas. Citando dados de um estudo da PwC, referiu que apenas 12% dos mais de quatro mil CEO inquiridos afirmam já estar a sentir ganhos concretos da inteligência artificial, seja ao nível do aumento de vendas, da eficiência ou da redução de custos. “Os que se moveram mais rapidamente foram aqueles que começaram mais cedo a adotar critérios, formação e agentes de inteligência artificial nas suas organizações”.
O presidente da PwC Portugal sublinhou ainda que o talento será um dos fatores mais distintivos das organizações num contexto de crescente automatização. “Sem talento, as empresas não progridem, não prosperam”, afirmou, defendendo que as competências humanas, como comunicação, empatia, relacionamento e capacidade de compreensão do mundo, serão cada vez mais valorizadas. Segundo o gestor, as competências humanas estão hoje a ser mais procuradas pelas empresas do que as competências puramente tecnológicas.
A manhã fechou com o painel “Tendências Decisivas”, dedicado ao alinhamento entre inovação, tecnologia, competências e sustentabilidade, com Luís Dinis, diretor de Strategy & Program Delivery Portugal da Tabaqueira, Ricardo Costa, chairman do grupo Bernardo da Costa, Joaquim Moreira da Silva, diretor da região Norte da Siemens, e Maria Luísa Cabral, diretora para o Emprego de Qualidade, Condições de Trabalho e Diálogo Social da Comissão Europeia.
Custos de contexto
Na abertura da sessão da tarde, dedicada aos custos de contexto, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, defendeu que a reforma do Estado “tem tudo a ver” com a redução do peso burocrático que recai sobre empresas e cidadãos. Para o governante, o objetivo central passa por “simplificar a vida dos cidadãos e das empresas” e colocar ambos “no centro da ação do Estado”, num processo assente em dois pilares: simplificação e digitalização.
Gonçalo Matias apontou a duração dos processos judiciais e os licenciamentos como alguns dos principais custos de contexto identificados pelas empresas e defendeu que o país tem de substituir uma lógica de desconfiança por uma lógica de “confiança e responsabilidade”. “Nós desconfiamos todos uns dos outros” e essa cultura ajudou a criar “camadas sobre camadas de burocracia” que paralisam a administração pública.
O ministro apresentou a “guerra contra a burocracia” como uma prioridade do Governo e deu como exemplos a reforma dos ministérios, a reestruturação de entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a revisão do regime dos licenciamentos urbanísticos e a alteração das regras da contratação pública.
Depois da intervenção de Gonçalo Matias, a Cimeira da Indústria prosseguiu com o painel que juntou Isabel Furtado, CEO da TMG Automotive, Pedro Carreira, presidente do Conselho de Administração da Continental Mabor, e Vítor Abreu, CEO da Endutex.
Ultrapassar os obstáculos
Na abertura do bloco “Ultrapassar os Obstáculos”, Gonçalo Regalado, CEO do Banco Português de Fomento, defendeu que Portugal tem de voltar a colocar “a indústria no centro” e as exportações “no topo” da estratégia de crescimento. O responsável alertou para a perda de relevância económica da Europa no PIB global e apontou a inteligência artificial como uma oportunidade decisiva para recuperar produtividade, competitividade e capacidade de investimento. “A inteligência artificial é a eletricidade dos tempos modernos ou a internet do presente”, afirmou, defendendo que esta transformação deve ser encarada como um ativo estratégico e não como uma ameaça.
O CEO do Banco Português de Fomento apresentou ainda a ambição de mobilizar trinta mil milhões de euros de investimento nos próximos três anos, através de instrumentos de garantias, capital, subvenções, apoio à exportação, inovação, habitação e inteligência artificial. Gonçalo Regalado sublinhou que o banco quer ser “um banco das empresas” e contribuir para criar uma “cultura de campeões” na economia portuguesa. “A indústria é o pulmão do país”, concluiu, defendendo que “é em chão de fábrica que se faz a transformação de Portugal”.
Após esta intervenção, subiu a palco do Theatro Circo um painel para discutir o que podem fazer os empresários e gestores para contornar os contextos mais desfavoráveis, que integrou João Pinto, diretor da Católica Porto Business School, Joana Carvalho, CEO da SFGo, e José Teixeira, presidente do DST Group.
Uma nova política industrial
No encerramento da Cimeira da Indústria, Rui Moreira defendeu a necessidade de “uma nova política industrial” para responder a um mundo marcado pela reorganização das cadeias logísticas, pela transição energética, pela inteligência artificial e pelo regresso das políticas protecionistas. O embaixador de Portugal junto da OCDE destacou o papel do Norte industrial e exportador, sublinhando que é nesta macrorregião, “onde fervilha o empreendedorismo industrial mais interessante”, que muitas empresas têm conseguido “escalar, adquirir competências tecnológicas diversificadas, aprimorar os processos de gestão e inovar através de novos produtos mais complexos e de maior valor acrescentado”.

Ao longo da intervenção, Rui Moreira insistiu que “o regresso ao velho normal já não é suficiente” e que Portugal precisa de políticas públicas capazes de promover “uma transformação estrutural da economia portuguesa”. O responsável alertou para a crescente utilização de tarifas, subsídios e acordos comerciais preferenciais a nível global, ao mesmo tempo que decorre uma revolução tecnológica baseada na digitalização e na inteligência artificial. “A questão já não reside na necessidade de políticas industriais. A chave está na capacidade de as desenhar de forma adequada.”
Na parte final da intervenção, Rui Moreira deixou críticas ao centralismo, à burocracia e aos custos de contexto que continuam a penalizar as empresas industriais, defendendo uma estratégia de longo prazo que não fique dependente dos ciclos políticos. “É muito importante que, através das suas associações, as empresas participem ativamente no virar de página”, afirmou, concluindo que “é a partir desta macrorregião exportadora, altamente industrializada, que tem de surgir a inspiração e a iniciativa” para transformar a economia portuguesa.
Ao longo do dia, a Rádio Observador esteve também em direto, numa emissão especial dedicada ao tema da conferência. Pode ouvir aqui o que foi dito aos microfones da rádio, no foyer do Theatro Circo. Ou ver aqui o que se passou no palco da histórica sala de Braga.




















































































