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(A) :: Polémica no SIRESP. Mails provam críticas antigas de número dois do MAI. Adjunta de Neves atira a "interesses instalados"

Polémica no SIRESP. Mails provam críticas antigas de número dois do MAI. Adjunta de Neves atira a "interesses instalados"

Situação escalou com demissão de António Pombeiro. Ministro mantém confiança no homem que chamou para gerir SIRESP. Adjunta justifica críticas com reação de operadores que recebem "milhões".

Pedro Raínho
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O primeiro pedido de demissão que o secretário-geral-adjunto do ministério da Administração Interna apresentou a Luís Neves foi assinado a 28 de abril de 2026. Passavam cinco segundos das 7h51. Esta segunda-feira, o Ministério divulgou um esclarecimento em que dizia “estranhar” a posição de António Pombeiro e garantia que, entre esse primeiro pedido e o segundo, já na última sexta-feira, o discurso tinha mudado. Mas os emails a que o Observador teve acesso mostram que já há um mês Pombeiro atirava à gestão do SIRESP e, em particular, à intervenção do general Viegas Nunes nesse processo. A adjunta de Luís Neves só vê uma explicação: “Estamos a combater interesses instalados, os interesses dos grandes operadores de telecomunicações que estão há anos a receber milhões do SIRESP.”

O caos no Ministério da Administração Interna começou a instalar-se na última sexta-feira. No mesmo dia em que a SIRESP S. A. votava  — e aprovava — o regresso do general do Exército Viegas Nunes à presidência do organismo, António Pombeiro batia com a porta. Era a segunda vez que o fazia em cerca de um mês e agora a saída era inevitável.

Mas já em abril, quando pela primeira vez falou com Luís Neves sobre a intenção de sair, o número dois do MAI deixava uma extensa lista de críticas à forma como o sistema de comunicações de emergência estava a ser gerido e como, denunciava então, estava em marcha uma tentativa de aproximar o SIRESP das estruturas militares.

"Sem prejuízo de não estar disponível para ser tratado como um estagiário de redação, cumpri o solicitado e remeti oportunamente uma proposta de documento alinhada com as características indicadas."
António Pombeiro, no primeiro pedido de exoneração que apresentou, a 28 de abril

A rutura foi acelerada por um email da adjunta do ministro da Administração Interna, Valentina Marcelino, dias antes da apresentação pública do relatório do grupo de trabalho responsável por estudar o futuro do SIRESP.

Número dois do MAI recusava ser “estagiário de redação”

No email de Valentina Marcelino a meio da tarde de 24 de abril para António Pombeiro, o assunto era “SIRESP — comunicação e pedidos de informação”.

Nas linhas seguintes, a adjunta de Neves (a quem teria dado conhecimento daquela comunicação) sugeria “algumas adaptações para a versão pública do documento” que o grupo ia apresentar. E dividia-as em dois grupos: questões de forma e questões de conteúdo.

Uma das questões que maiores reparos acabaria por merecer de António Pombeiro, dias depois, era a sugestão de Valentina Marcelino de que alguns anexos fossem “omitidos, por razões de segurança”. A adjunta explicava: “Esta é uma opção desejável pois, em muitos pontos, o [Grupo de Trabalho] não se limitou a apresentar recomendações, identificou mesmo ‘como fazer’ e isso retira flexibilidade à implementação das recomendações.”

Valentina Marcelino pedia, no mesmo email, informações atualizadas sobre a “Implementação do Plano de implementação para a interoperabilidade da rede SIRESP com o Sistema de Comunicações Militares”.

Quatro dias mais tarde, António Pombeiro respondia ao email da adjunta de Neves juntando a chefe de gabinete do ministro da Administração Interna nessa troca de mensagens. E deixava um extenso documento com várias críticas internas. Primeiro, à própria Valentina Marcelino. Recusando-se a ser “tratado como um estagiário de redação” (a adjunta de Neves foi durante longos anos jornalista), garantia: “À luz de cerca de 38 anos de experiência como Oficial de Informações, não identifico qualquer risco ou quebra de segurança no conteúdo das propostas nele constantes”.

E logo a seguir admitia que, “não sendo as comunicações críticas o domínio de especialização” da adjunta do ministro, as questões sobre a migração de sistemas do SIRESP para a esfera militar só poderiam ter “origem em comentários transmitidos pelo Major-General Viegas Nunes”. Pombeiro alertava, já nesse email de abril, para a “dependência da área da Defesa na gestão das comunicações críticas do MAI” e dizia ter encontrado “diversas situações anómalas” na instituição.

Situações que teriam representado, em alguns casos, “encargos indevidos para o Estado, atrasos na execução do projeto e uma violação dos princípios da legalidade, transparência e boa gestão financeira”. Noutros casos, dizia António Pombeiro, estariam em causa “conflitos de interesses”, nomeadamente com a sugestão do então diretor técnico do SIRESP, Carlos Leitão, da contratação de uma empresa para prestar serviços à SIRESP S. A. com a qual tinha “uma relação familiar direta”.

Denunciava ainda a contratação de Leonel Simões, CEO da Euritex, por ajuste direto por um valor de 8.400 euros mensais, mais IVA, “alegadamente na sequência de uma ‘candidatura espontânea’”. Problema: Leonel Simões teria “uma relação pessoal próxima” com o general Viegas Nunes.

Esse longo email terminava com a formalização do pedido de demissão.

MAI contra “milhões” para as grandes operadoras

Durante a tarde desta segunda-feira, o gabinete do ministro da Administração Interna tornou público um esclarecimento em que manifestava “estranheza” pelas críticas de António Pombeiro.

“O ministro da Administração Interna estranha as acusações de alegada inércia da tutela quando, na realidade, o Dr. António Pombeiro sabe que as questões por ele levantadas foram a seu tempo alvo de uma auditoria da Inspeção-Geral de Finanças (IGF), que escrutinou ao mínimo detalhe a atividade do Conselho de Administração da SIRESP, SA. durante o mandato do Major-General Viegas Nunes, entre 2022-2024”, referia essa nota.

https://observador.pt/2026/05/25/mai-manifesta-absoluta-confianca-em-viegas-nunes-para-siresp/

A terminar, a mesma mensagem dos últimos dois dias: “O ministro da Administração Interna mantém absoluta confiança no Major-General Paulo Viegas Nunes para o exercício das funções de presidente da SIRESP S.A.”

Mas as críticas de Pombeiro tinham partido de um email enviado por Valentina Marcelino. Um email com sugestões que o agora ex-número dois do MAI entendia serem um condicionamento da informação sobre o SIRESP que o Ministério pretendia tornar pública.

O Observador confrontou a adjunta do ministro com essas críticas. Valentina Marcelino começa por explicar que “estava a ser feita a preparação da apresentação pública do relatório” do Grupo de Trabalho do SIRESP, nomeado cerca de um ano antes. E que as alterações tinham como objetivo tornar o documento “percetível a toda a gente”.

“Há um corporativismo, porque estamos a combater os interesses instalados, os interesses das grandes operadoras de telecomunicações, que estão há anos a receber milhões do SIRESP.”
Valentina Marcelino, adjunta do ministro da Administração Interna

Mais: Valentina Marcelino garante que, nesse momento, António Pombeiro não se limitou a “concordar” com as sugestões. “Foi ele próprio que as introduziu” na versão pública do relatório.

Numa troca de mensagens a propósito do documento, a que o Observador teve acesso, António Pombeiro, dirigindo-se à adjunta de Neves, escreve: “Agradeço as observações remetidas, as quais se revelam alinhadas com as preocupações já identificadas no âmbito dos trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Trabalho, em particular no que respeita ao equilíbrio entre rigor técnico, salvaguarda da informação sensível e clareza na comunicação pública.” E terminava: “Fico ao dispor para alinhar os próximos passos e assegurar a rápida produção da versão ajustada do relatório.” Os emails foram trocados entre 24 e 25 de abril — três a quatro dias antes do primeiro pedido de demissão de Pombeiro.

O Observador questionou ainda a adjunta de Luís Neves sobre a posição assumida pelo secretário-geral-adjunto do MAI no último mês. Recusando ser “protagonista desta história”, Valentina Marcelino acaba por dizer que Pombeiro sempre se manifestou “contra a aproximação” do SIRESP às estruturas militares. E concretiza: “Escrevi sobre esta área durante muitos anos e sempre senti de alguns setores uma aversão à participação das Forças Armadas” no controlo e/ou gestão do SIRESP. “Há um corporativismo, porque estamos a combater os interesses instalados, os interesses das grandes operadoras de telecomunicações, que estão há anos a receber milhões do SIRESP.”

Ventura critica “condicionamento”, Carneiro destaca “servidor do Estado”

Iniciativa Liberal e Chega foram os primeiros partidos a reagir à saída de António Pombeiro do MAI. Ainda durante o fim de semana, os partidos assinalaram a “urgência” de ouvir esclarecimentos do próprio Luís Neves no Parlamento, além do general Viegas Nunes, presidente do SIRESP que tomou posse, pela segunda vez, na sexta-feira.

Já esta segunda-feira, no canal Now, André Ventura considerava o assunto de “enorme gravidade” e acusava também Valentina Marcelino de tentar “condicionar” o conteúdo do relatório. “Apanhámos isto noutros momentos em relação aos incêndios e ao apagão: o SIRESP tornou-se uma estrutura central do Estado que falha sempre. E que falhou quando este senhor, que agora foi novamente designado, teve lá funções de administração entre 2022 e 2024”, disse o líder do Chega.

Em sentido contrário, José Luís Carneiro saiu em defesa de Viegas Nunes. “Sempre vi nele um servidor do Estado”, disse o líder socialista. Espero que não haja quem o queira prejudicar por ele ser um servidor do interesse público do Estado.”