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Hospital Pulido Valente inaugura centro para rastreio de doenças da visão. Exames são analisados por Inteligência Artificial

O novo centro iSIGHT, em Lisboa, terá capacidade para rastrear mais de 60 doentes por dia para retinopatia diabética e glaucoma. Diagnóstico será feito com ferramenta de IA.

Tiago Caeiro
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O Hospital Pulido Valente, em Lisboa, inaugura esta terça-feira o centro iSIGHT, dedicado ao rastreio, confirmação diagnóstica e monitorização de duas doenças da visão (a retinopatia diabética e o glaucoma), que são as principais causas de cegueira evitável em Portugal. Com capacidade para receber mais de 60 doentes por dia e fazer 10 mil rastreios por ano, o centro integra uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) nos exames, o que vai permitir rastrear mais doentes e melhorar a precisão do diagnóstico, sobretudo no caso do glaucoma.

Sabemos que, neste momento, os algoritmos de IA são melhores do que os humanos a fazer rastreios. Já é pacífico na comunidade científica”, diz ao Observador o coordenador do centro iSIGHT, o oftalmologista Luís Abegão Pinto, ressalvando, no entanto, que a confirmação dos resultados gerados pela ferramenta de IA será sempre feita por um médico.

Para o novo centro, inaugurado esta terça-feira pela secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, serão convocados, uma vez por ano, os doentes diabéticos da área de influência da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, que abarca o Hospital Pulido Valente, de modo a fazerem o rastreio da retinopatia diabética, uma doença que se estima afetar cerca de um terço da população diabética em Portugal, ou seja, mais de 300 mil pessoas.

No caso do glaucoma —a principal causa de cegueira irreversível e uma doença com elevado subdiagnóstico em fases iniciais —, o centro iSIGHT torna-se-á pioneiro a nível mundial, ao inaugurar, pela primeira vez, um programa de rastreio populacional em larga escala com recurso a IA. Serão convocados para o rastreio todos os doentes entre os 55 e os 65 anos, a faixa etária em que habitualmente a doença começa a manifestar-se.

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No centro iSIGHT, os doentes passam por um circuito integrado que combina rastreio, confirmação diagnóstica, estadiamento e seguimento clínico no mesmo local. Se o rastreio for negativo, o processo acaba na primeira sala das cinco salas de rastreio. Se for positivo, o doente faz todos os exames necessários de seguida, num circuito fluido, acompanhado por uma equipa de seis ortoptistas, que estão em contacto permanente com a equipa do Serviço de Oftalmologia, localizado no Hospital de Santa Maria. Em menos de uma hora, o circuito é concluído, permitindo uma poupança de recursos quer ao SNS quer ao próprio utente, que evita mais deslocações aos cuidados de saúde.

A ferramenta da IA utilizada no rastreio, desenvolvida por duas universidades na Finlândia e na Bélgica, permite, com o mesmo exame, analisar o grau de retinopatia diabética e definir a probabilidade de o doente ter glaucoma, numa escala de 0 a 100. “A ferramenta vai olhar para o fundo do olho, e vai tentar perceber se há algum padrão da doença [glaucoma]. No nervo ótico, temos 1,2 milhões de fibras, como se fosse uma fibra ótica, e portanto a ferramenta analisa a falta dessas fibras”, explica o coordenador do centro iSIGHT, assinalando que o diagnóstico de glaucoma será, desta forma, mais rigoroso, uma vez que, apenas com a análise médica, o diagnóstico é difícil de fazer, sendo por vezes o glaucoma confundido com miopia.

Para além do rastreio, o novo centro vai também seguir doentes de baixo risco, considerados estáveis, acompanhados atualmente pelos oftalmologistas do Hospital de Santa Maria, o que, estima a ULS, vai permitir deslocalizar quatro mil consultas hospitalares por ano, reduzindo deslocações desnecessárias ao hospital e libertando capacidade hospitalar para casos mais complexos e urgentes. “Permite-nos dar um salto qualitativo na prestação de serviços e na organização”, destaca o médico Luís Abegão Pinto.

https://observador.pt/opiniao/o-glaucoma-uma-doenca-silenciosa-que-pode-provocar-cegueira/

“O centro é feito numa lógica de otimizar recursos e o bem-estar do doente, porque o doente é visto no momento certo. Não vamos estar a utilizar recursos hospitalares tendo em conta que o doente pode ser tratado fora do hospital”, diz a administradora hospitalar Rita Guimarães, que fala numa “transformação digital transformadora”.

O novo centro, resultado de um investimento de cerca de 500 mil euros, integra ainda equipamentos de retinografia e Tomografia de Coerência Ótica (OCT) e avaliação funcional.

Quanto à IA, para além de auxiliar o diagnóstico, vai permitir estruturar automaticamente dados clínicos, permitindo uma monitorização contínua de indicadores assistenciais e resultados clínicos em tempo real. Como sublinha a própria ULS de Santa Maria, em comunicado, o “objetivo não é apenas fazer mais consultas ou mais exames, mas medir de forma objetiva se aquilo que está a ser feito melhora efetivamente a vida dos doentes”. A integração destas ferramentas permitirá comparar resultados entre diferentes centros e estabelecer comparações com parceiros europeus.