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O Mal, apenas o Mal

A cultura contemporânea desenvolveu uma dificuldade crescente em aceitar a hipótese mais antiga e mais desconfortável da condição humana: a de que existem pessoas capazes de fazer mal.

Inês Costa Maia
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Há crimes que parecem exceder a própria capacidade humana de compreensão e que, precisamente por isso, desencadeiam um ritual coletivo de uma procura febril por uma explicação suficientemente sofisticada para tornar o horror intelectualmente tolerável. O caso de Marine Rousseau e Marc Ballabrigade voltou a expor esse impulso contemporâneo. Em pouco tempo instalou-se uma onda de especulações psicológicas improvisadas como se o mal, para existir legitimamente no nosso imaginário, precisasse antes de ser verificado por alguma autoridade médica.

Importa sublinhar o evidente, não avaliei nenhuma das pessoas envolvidas, não conheço os protagonistas desta história, não disponho de elementos clínicos que permitam qualquer conclusão psiquiátrica séria. Mas talvez precisamente por isso seja útil refletir sobre o que este impulso revela acerca de nós próprios, esta necessidade quase compulsiva de categorizar tudo aquilo que nos perturba moralmente.

A cultura contemporânea desenvolveu uma dificuldade crescente em aceitar a hipótese mais antiga e mais desconfortável da condição humana: a de que existem pessoas capazes de fazer mal sem que exista por detrás disso uma arquitetura patológica suficientemente relevante para as absolver parcialmente. A mera existência da crueldade não exige sempre uma infância devastadora, um trauma oculto, uma perturbação profunda ou qualquer coisa que devolva compreensibilidade ao caos e preserve a ilusão tranquilizadora de que o mal autêntico pertence exclusivamente ao território da doença. Mas não pertence.

Admitir isto parece ser profundamente inquietante. Se houver sempre uma doença, então existe um mecanismo; se existir um mecanismo, existe previsibilidade; e se existir previsibilidade, preserva-se a fantasia de controlo sobre a violência humana. O mal torna-se então um problema potencialmente sanável em vez de permanecer aquilo que tantas vezes foi ao longo da história. Uma escolha deliberada, banal e desanimadoramente humana.

É precisamente a banalidade que mais nos aterroriza. Os atos mais monstruosos nem sempre emergem de mentes delirantes ou de mentes fragmentadas, mas frequentemente de indivíduos comuns, funcionais, integrados e perfeitamente capazes de distinguir o certo do errado. Há algo de quase ofensivo para a sensibilidade moderna nesta ideia porque ela destrói a confortável distância entre “nós” e “os monstros”. Preferimos imaginar aberrações e custa-nos aceitar a hipótese infinitamente mais perturbadora de uma maldade sem “exotismo” psiquiátrico.

Isto não significa que devemos negar o peso do sofrimento, do abandono ou das experiências precoces na formação da personalidade. O abandono deixa marcas reais, o trauma molda a vivência do afeto, distorce vínculos e fragiliza estruturas internas. Mas entre reconhecer vulnerabilidades e abolir responsabilidade existe uma diferença decisiva. Milhões de pessoas carregam histórias devastadoras sem converter essa dor em destruição alheia. Quando transformamos o sofrimento num destino inevitável, acabamos paradoxalmente por retirar dignidade moral àqueles que sofreram e, apesar disso, recusaram perpetuar o sofrimento.

Talvez a verdade mais difícil de aceitar seja também a mais simples e menos literária, a de que nem todo o horror tem uma explicação profunda. Às vezes, pessoas más fazem coisas más não porque estejam doentes, mas porque escolheram fazê-las. Talvez o nosso desconforto perante essa ideia resulte precisamente do facto de ela nos obrigar a reconhecer algo que preferíamos manter distante: que a possibilidade do mal não pertence apenas ao território da patologia, mas à própria condição humana.