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O próximo incêndio não começa com uma faísca

A biomassa está no cruzamento exato das grandes prioridades nacionais: transição energética, prevenção de fogos e fixação de valor no interior. Mas os projetos chocam com burocracia e indiferença.

Manuel Pitrez de Barros
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Portugal entra no verão de 2026 sob um aviso severo. A combinação de temperaturas elevadas com a acumulação extraordinária de combustível florestal, resultante de meses anteriores muito húmidos, coloca-nos perante um risco agravado. À escala global, os dados do World Weather Attribution são avassaladores: mais de 150 milhões de hectares arderam no mundo logo nos primeiros quatro meses do ano – um aumento de 20% face ao anterior máximo histórico.

As alterações climáticas e a intensidade dos fenómenos meteorológicos são uma realidade incontornável. Contudo, em Portugal, o verdadeiro acelerador do perigo não é o clima: é o abandono do território.

Temos áreas florestais imensas sem gestão ativa, onde a floresta deixou de ter valor económico. E a verdade é cruelmente simples: quando a floresta deixa de valer dinheiro, deixa de ser cuidada. O problema é que, mesmo sabendo isto, o país continua a agir tarde demais. Especializámo-nos em investir milhões no combate à emergência, mas tardamos em estruturar uma verdadeira economia da prevenção.

É precisamente neste impasse que a valorização da biomassa assume uma relevância estratégica vital. A biomassa não é apenas uma fonte de energia limpa e renovável; é, acima de tudo, uma ferramenta de segurança territorial e de coesão económica para o interior do país.

Quando os sobrantes florestais e os resíduos da limpeza das matas passam a ter valor económico, cria-se um incentivo real, financeiro e imediato para que os proprietários limpem, geram e cuidem da terra. A prevenção deixa de ser um custo e passa a ser um rendimento.

Nas centrais de biomassa de Viseu e no Fundão, por exemplo, gerimos uma capacidade combinada de 30MW, e testemunhamos diariamente o impacto prático desta transição. Ao transformarmos resíduos florestais em energia limpa, injetamos diretamente valor na economia local, criamos emprego e, crucialmente, retiramos do terreno toneladas de combustível que, de outra forma, alimentariam os incêndios catastróficos que todos tememos. O que fazemos nestas centrais não é apenas produzir eletricidade; é criar um escudo de resiliência para as regiões do Dão e da Cova da Beira.

A biomassa está no cruzamento exato das grandes prioridades nacionais: transição energética, prevenção de fogos e fixação de valor no interior. Por isso, tornam-se incompreensíveis os sucessivos atrasos burocráticos e a falta de agilidade na implementação de projetos e concursos para este setor.

O país sabe hoje muito mais sobre o risco do que sabia há dez anos. O que continua a faltar é capacidade de execução. Precisamos de menos burocracia, mais coordenação e de políticas plurianuais que não dependam da urgência mediática de cada verão.

O próximo grande incêndio em Portugal não começará com uma faísca num dia de calor. Começa muito antes. Começa agora, sempre que permitimos que o território seja abandonado e que a prevenção seja adiada. Valorizar a biomassa e apoiar as centrais que a transformam é escolher gerir o futuro, em vez de nos limitarmos a chorar sobre as cinzas.