No passado Domingo, em Las Vegas, realizaram-se os Enhanced Games. Pela primeira vez na história moderna do desporto, organizou-se uma competição que não só admite, como encoraja, o uso de doping para melhorar a performance dos atletas. Como grande fã de desporto e também de substâncias ilícitas, é óbvio que fiquei entusiasmado. Estupidamente, diga-se. A desilusão foi muito grande. Só recuperei tão rapidamente porque tomei um Xanax.
Promovidos como os “Jogos Olímpicos do Doping”, os Enhanced Games defraudaram as expectativas. Nem são parecidos com os Jogos Olímpicos, nem abusam das drogas da maneira que se estava à espera. Como tudo em Las Vegas, é uma imitação em pechisbeque.
Para já, só teve três modalidades: halterofilismo, natação e corrida. Está mais perto de um dia de praia no Oeste de um pai com crianças pequenas: tem de carregar a lancheira, o guarda-sol e o saco de brinquedos; certificar-se de que os miúdos não se afogam na rebentação; correr atrás do guarda-sol quando é levado pelo vento. Mas isso nem é o pior. Até podia ser só uma prova, desde que os atletas estivessem tão repletos de químicos que os resultados fossem de ficção científica. Não foi o que sucedeu.
Pior ainda, em 31 provas só se bateu um recorde mundial. Foi nos 50 m livres, em que o grego Kristian Gkolomeev fez 20.81 segundos, tirando 7 centésimos à melhor marca. Nas outras modalidades, ninguém chegou sequer lá perto. Para se ter uma ideia, no peso morto, Thor Björnsson, o islandês que faz de Montanha na Guerra dos Tronos, levantou uns míseros 475 kg, quando o recorde mundial são 510 kg. Recorde que, diga-se, é do próprio. Ou seja, dopado tem menos força que limpo.
Nos 100 m, o vencedor fez 9.97, a 32 centésimos do recorde. Os outros 7 concorrentes nem baixaram dos 10 segundos. (O que até levanta dúvidas sobre a qualidade da droga, se pensarmos que Ben Johnson, em 1988, correu em 9.79. Querem ver que, tal como a música pop, os esteroides dos anos 80 também são superiores aos de agora?) Mais grave ainda: o vencedor, Fred Kerley, correu sem ter tomado nada. O que quer dizer que os seus adversários foram prejudicados pelo doping que tomaram. Os efeitos nefastos dos químicos, que só surgem ao fim de dez anos, desta vez apareceram ao fim de dez minutos.
Ora, isto é manifestamente muito pouco. O mínimo que se esperava duma competição em que todos os participantes têm acesso a qualquer tipo de substância, nas quantidades que desejarem, é que toda a gente tivesse batido o recorde mundial da modalidade em questão. E não era por fracções de segundo. O nadador que bateu o recorde tinha obrigação de ter completado a prova em metade do tempo. Aliás, a nadar crawl, devia era ter batido o recorde dos 100 m em corrida. Enquanto arrastava o peso morto do halterofilismo. Isso, sim, seriam façanhas dignas de um certame deste tipo.
Achei que ia assistir à criação de super-heróis da Marvel, afinal eram apenas atletas medíocres a tornarem-se atletas medianos. Se era para isso, mas valia ter ido a uma daquelas corridas de bicicleta que admitem trans, para ver homens, que nunca tinham ganho nada, a ficarem à frente de mulheres. Das duas, uma: ou usavam a droga para grandes atletas ficarem ainda melhores, ou davam-na a pessoas comuns para conseguirem competir com profissionais. Pagava bilhete para ver uma avózinha encharcada com hormona de crescimento a levantar 200kg.
Julgo que o problema prende-se com a forma como estes atletas se doparam. De acordo com o site da organização, ”os Enhanced Games não apoiam o uso indiscriminado de substâncias restritas. Defendemos o uso seguro, responsável e clinicamente supervisionado de substâncias de melhoria de desempenho. O que é ridículo. Doping tomado sob supervisão médica? Droga com segurança? Responsabilidade? Parece aquelas orgias modernas em que há aconselhamento psicológico. Transgredir, sim, mas sem excessos. Quebrar tabus dentro das convenções. Deve ter sido por isso que ninguém morreu. Uma competição com bar aberto de fármacos em que não haja um único ataque de coração é uma fraude.
Foi para isto que se usaram estupefacientes? É como se os Beatles, quando tomavam LSD, em vez do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, tivessem gravado O Carocha do Amor, de Fernando Correia Marques.