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Natalidade e prioridades, uma perspetiva de gestão

Quando a atividade principal da vida deixa de ser a construção familiar, não devemos surpreender-nos com a queda da natalidade.

António Pimenta de Brito
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Tenho refletido sobre o inverno demográfico aqui no Observador. A hipótese que sustento, baseada em dados, é que, mesmo sendo este um fenómeno multifatorial — e existe consenso científico nisso mesmo, estamos perante uma mudança civilizacional estrutural. Demógrafos conceituados, como Ron Lesthaeghe, chamaram-lhe “segunda transição demográfica”: uma transformação profunda dos valores, prioridades e modelos de vida das sociedades modernas.

As pessoas não deixam de ter filhos apenas por razões financeiras. Isso seria uma simplificação grosseira. Mas também me parece cada vez mais evidente que uma parte substancial do fenómeno resulta de uma mudança de prioridades. Em muitos casos, as pessoas podem ter filhos, mas optam por não os ter, ou por ter menos. Noutras situações, não querem precisamente porque antecipam os custos pessoais, profissionais e existenciais associados à parentalidade. E há ainda quem queira, mas sinta que não consegue. O fenómeno é complexo. A honestidade intelectual exige reconhecê-lo.

Enfermamos frequentemente em dois erros na análise desta matéria.

O primeiro é o monocausalismo económico ou de “género”. Sempre que o INE ou a ONU publicam dados sobre a natalidade, a explicação tende a recair quase exclusivamente sobre fatores económicos: habitação, precariedade, salários. Noutras leituras, por exemplo o comentador Henrique Raposo, culpa-se unilateralmente o homem contemporâneo ou a desigualdade doméstica, o que é falso e injusto. Bem explica a OCDE que, em primeiro lugar não existe desigualdade e que a “igualdade de género” provocou precisamente a reversão de prioridades e desvendou aos pais o chamado “custo de oportunidade da parentalidade”:

“Por exemplo, mais igualdade de género nos agregados familiares, juntamente com normas parentais mais rigorosas – pais a gastar mais tempo e dinheiro em cada filho individual – expuseram mais pais aos custos (de oportunidade) da parentalidade. À medida que tanto homens como mulheres encontram mais frequentemente sentido para a vida fora da parentalidade, podem mais frequentemente adiar ou renunciar a ter filhos para perseguir outros objetivos de vida, incluindo o avanço na carreira e a auto-realização.”

O segundo erro é assumir que o problema se resolve sobretudo com “políticas públicas”. Não tenho dúvidas de que apoios à família ajudam: creches, flexibilidade laboral, licenças parentais ou estabilidade económica reduzem fricções reais. Mas a evidência internacional mostra também que o seu efeito é limitado quando confrontado com mudanças culturais profundas.

O exemplo da Noruega é paradigmático. Poucos países investiram tanto em políticas familiares: licenças generosas, creches subsidiadas, proteção laboral, forte apoio estatal à parentalidade. Ainda assim, a fertilidade caiu significativamente nas últimas décadas. A própria OCDE reconhece que estas políticas, embora importantes, não conseguem contrariar plenamente tendências estruturais relacionadas com estilos de vida, mercado de trabalho, adiamento da parentalidade e mudança de valores.

Como dizia Peter Drucker, “a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço”. E talvez seja precisamente isso que acontece aqui. Não vale a pena acreditar que um fenómeno civilizacional se resolve apenas através de instrumentos administrativos ou financeiros.

Mas afinal o que mudou?

Mudaram as prioridades. E não o digo num sentido moralista ou acusatório. As sociedades modernas oferecem possibilidades inéditas de escolha individual, carreira, mobilidade, lazer e autorrealização. Homens e mulheres trabalham mais, vivem sob maior pressão profissional e procuram também desfrutar da vida, preservar tempo, autonomia e equilíbrio psicológico. Isso tem consequências inevitáveis.

Criar filhos exige tempo, disponibilidade emocional, estabilidade e sacrifício. E isso não é totalmente substituível por creches, avós, escolas ou serviços. Apoiam, mas não substituem. A gestão quotidiana da família continua a recair sobre os pais: decisões, rotinas, doenças, logística, acompanhamento emocional, atividades, conflitos, educação. A parentalidade moderna tornou-se intensiva.

É verdade que o elemento masculino foi historicamente menos presente nas tarefas domésticas e de cuidado, e os dados mostram que as mulheres continuam a suportar uma carga maior. Mas também é verdade que os tempos mudaram profundamente. Hoje, a maioria dos pais participa ativamente na vida doméstica e familiar. O problema não é apenas “falta de participação masculina”. É também a dificuldade crescente de compatibilizar dois percursos profissionais altamente exigentes com uma parentalidade igualmente exigente.

E é aqui que me ocorre uma analogia com Michael Porter e a gestão estratégica.

Porter distingue atividades primárias de atividades de suporte numa organização. As primeiras geram o valor essencial; as segundas sustentam esse objetivo. Durante grande parte da história humana, a família era entendida como atividade primária da sociedade. O trabalho existia, em larga medida, para a sustentar. Hoje, essa hierarquia tornou-se opcional, e frequentemente invertida.

Não critico isso moralmente. Constato apenas que, quando o trabalho, a carreira e a lógica produtiva absorvem quase toda a energia disponível, a família tende inevitavelmente a ocupar um lugar secundário. E quando a atividade principal da vida deixa de ser a construção familiar, não devemos surpreender-nos com a queda da natalidade.

Talvez o verdadeiro debate esteja aqui: para que trabalhamos, afinal? Para servir a vida ou para que a vida sirva permanentemente o trabalho?

Não digo que trabalho e família sejam incompatíveis. Nem proponho qualquer romantização do passado. Mas uma sociedade que organiza toda a sua estrutura em torno do desempenho económico e da satisfação individual imediata tenderá inevitavelmente a produzir menos filhos. Não apenas porque “não pode”, mas também porque passa a querer outras coisas primeiro. E isso não se altera apenas com subsídios.

A verdade mais difícil de aceitar é talvez esta: a baixa natalidade não resulta apenas de um problema económico. Resulta também de uma transformação profunda da forma como entendemos realização, liberdade, tempo, família e sentido de vida.

E enquanto não tivermos coragem para discutir essa dimensão cultural, continuaremos a procurar soluções técnicas para um fenómeno que é, antes de tudo, civilizacional.

Esta postura não é construtiva e não cria valor no longo prazo para a sociedade, mas apenas ganhos imediatos. E por isso não é “sustentável” no sentido tão propalado, pois, ao satisfazer necessidades atuais, compromete que as futuras (e atuais) gerações alcancem as suas.