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(A) :: #ÉAVida

#ÉAVida

Agora, internado na UCI, anos após a reforma, regressava ao mesmo hospital, a esse mesmo Serviço onde fora Chefe de Serviço, para se entregar nas mãos de quem sempre desdenhara...

José Torres da Costa
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– Bom dia, Sr. Francisco. Então, como passou a noite?

Dormi como um passarinho, respondeu! Na verdade, a imagem que de si tinha era a de uma coruja de olhos vidrados. Uma coruja em constante sobressalto, respondendo aos sons, apitos, sirenes e gemidos daquela parafernália de doentes, funcionários e equipamentos. Eram noites que se repetiam como partituras por escrever, sem memória da noite anterior, sempre as mesmas árias.

“Como passei a noite?”, questionava-se coberto pela fina e curta bata que lhe desnudava a dignidade que ainda lhe sobrava. Descartável, era assim que se sentia, descartável como um qualquer objeto sem reutilização possível.

Como passara a noite? Era não era uma pergunta, era um automatismo, algo mecânico sem preocupação, interesse, ou mesmo uma discreta curiosidade. Como passara a noite? Não era uma pergunta legítima para quem não se imagina a calçar os sapatos do outro.

E como seria possível passar bem a noite, ou sequer descansar sem dormir, se estava rodeado de fantasmas que na penumbra da noite piscavam, tremeluziam, cintilavam e vestiam, ora de amarelo-pálido, ora se assumiam com um laser intimidatório e perturbador. Como era possível embalar ensimesmado por entre frio, luzes e ruído constante?

A certa altura, da madrugada, desistira de procurar o sono ausente e entregara- se à estranha sinfonia daquela UCI. De olhos arregalados na penumbra, com um olhar expectante que a tudo atenta e já sem espaço para o descanso, seguia cada ruído como se entrasse numa nova linguagem, um dialeto mecânico onde intuía o próximo som e nele o novo andamento do que se lhe assemelhava a uma grande composição.

Primeiro vinham sons dispersos, desordenados, como músicos entrando no fosso de uma orquestra antes do espetáculo começar. Um monitor soltava notas agudas e insistentes, mais ao fundo, uma bomba de infusão marcava um compasso metálico e paciente. Rodas de macas deslizavam pelo corredor com o arrastar grave de contrabaixos cansados. Havia até ruídos que lhe lembravam afinações de instrumentos – pequenos apitos, cliques e sopros mecânicos, como se cada máquina procurasse encontrar o tom certo antes da apresentação.

Depois, sem que percebesse exatamente quando, toda aquela cacofonia parecia ganhar ritmo e harmonia. Os passos rápidos dos enfermeiros cruzavam-se em cadência, portas abriam e fechavam como pratos de percussão, e as vozes dos funcionários subiam ou desciam em diferentes tons e, numa encenação perfeita pareciam substituir pela escala que percorriam os cantores de uma grande ópera ali improvisada, num cenário performativo onde exaltavam a miséria humana. Um pedido dito à pressa assumia tons recitativos, uma ordem curta tinha a firmeza do maestro, e não muito longe, duas camas ao lado, o Sr. Amadeu expirava gemidos intermitentes, intervalados pelo roncar barítono de inspirações compassadas. Ao longe, para além do zénite da visão, sussurrava-se uma doce melodia de suspiros e queixumes de uma sofrida mezzo-soprano, soprada por duas almas que do outro lado as emitiam como árias dolorosas em que as pausas prolongadas pelo seu silêncio sublinhavam o estridor constante dos alarmes.

E o Sr. Francisco, imóvel, sentia-se espectador e instrumento de uma composição interminável. Com o olhar fixo no teto, vigilante como uma ave noturna pousada sobre a própria insónia, percebia que, sendo noite, ali ninguém dormia verdadeiramente. O frio prendia-lhe os pés, os olhos ardiam de cansaço, mas havia qualquer coisa de hipnótico nessa orquestra noturna que como serenata lhe recordava que entre a morte e o suplício extremado não existe linha divisória. E assim se embalou naquela noite, entre a saudade de um passado que apenas se resumia à memória de tudo o que fora e um presente agora dominado por uma música sem beleza nem ensaio. Uma música feita de máquinas, sofrimento e vigilância que, em matinée tardia continuaria a tocar até o amanhecer dissolver lentamente o espetáculo.

O Sr. Francisco ou o Doutor Francisco Castro, como fora conhecido anos antes até se reformar, nascera no Alto Alentejo, onde passara a infância e a meninice e de onde lhe vinham os largos sonhos e uma quase narcísica vertigem pelas liberdades a perder de vista, virtudes que equilibrava com um gosto pecaminoso pelos prazeres da vida.

Filho de parcas posses e com os calções despidos à pressa, migrou rumo à capital para completar os estudos que lhe marcariam a vida. Sem estrelato que negasse as sempre irrevogáveis origens, teve uma carreira brilhante, mas não luminosa o suficiente para encandear o nepotismo e as marcas endogâmicas de castas que nos tempos da “outra senhora” dominavam a sociedade das sete colinas.

E se Francisco era inteligente, competente, esforçado, faltava-lhe porém o traço de sangue que lhe permitiria ascender às largas planícies onde a sua imaginação tinha crescido. Via-se nessa sociedade de cumplicidades, intrigas e aristocracia burguesa decadente, como um corpo estranho sempre à beira da rejeição. E antes que a sociedade regenerasse a sua integridade endogâmica, resolveu antecipar-lhe os desejos e emigrou.

Como tantos portugueses na década de sessenta, fê-lo não por perseguição, mas como fuga e escapatória a uma vida já escrita e onde os que permaneciam declamavam como ladainha as deixas de um autor anónimo. E foi assim que, como tantos outros, emigrou para Angola.

Angola deverá de início ter-lhe surgido como uma palavra excessiva, pronunciada em surdina, como uma ideia subversiva articulada em cafés enfumarados e nos corredores universitários, numa mistura de excitação, deslumbramento e cobiça. Dizia-se que em África tudo era maior, as distâncias, o calor, os rios, as oportunidades, e para Francisco que crescera por entre os horizontes sem fim no Alto Alentejo, aquela imensidão sentiu-a de imediato como algo de familiar. Era como se as planícies da infância, apertadas pela pobreza e pelas convenções de uma sociedade imóvel, finalmente se dilatassem à escala exata da sua ambição. Havia em Francisco um ego silencioso, cuidadosamente escondido sob maneiras educadas e mérito académico, mas vasto demais para continuar encerrado nos salões abafados de Lisboa.

Quando desembarcou em Angola, teve a estranha sensação de regressar à geografia íntima com que sempre sonhara. A luz parecia mais larga, o céu mais alto e a terra estendia-se com uma autoridade quase bíblica diante dos olhos. Pela primeira vez em muitos anos, Francisco deixou de sentir os ombros comprimidos pelo peso invisível das castas, dos apelidos, do sangue e das cumplicidades herdadas. África oferecia-lhe espaço, um espaço físico, social e simbólico, suficientemente largo para acomodar a imagem grandiosa que fazia de si e a vida que acreditava merecer. Não procurava fortuna ou estatuto, queria mais, muito mais, queria confirmação.

E Francisco caminhava como quem sabia que o caminho pertence aos que têm pernas para o percorrer. E ele possuía passos largos, seguros, alimentados por uma fome já esgazeada de justiça e reconhecimento. Trabalhava com uma disciplina quase feroz, dedicava-se à profissão e movia-se pelos corredores dos hospitais de Luanda com a determinação de quem recusava permanecer no lugar que o nascimento lhe destinara. Atingiu pouco depois dos trinta anos o topo da carreira e ainda novo ascendeu a Diretor de Serviço, conquistando uma autoridade que em Lisboa seguramente lhe teria sido eternamente adiada. Entre jantares coloniais, noites humedecidas em gin tónico e hospitais erguidos entre poeira vermelha e improviso, crescia nele a convicção de que o destino não pertencia necessariamente aos bem-nascidos, mas aos que possuíam coragem suficiente para se reinventarem. África, com a sua vastidão quase indomável, dava-lhe finalmente a ilusão perigosa de que nenhum horizonte lhe voltaria a impor limites. Porém, como todas as ilusões, são só ilusões. É a vida!

Francisco tinha atingido o topo da carreira jovem demais. No Hospital Dona Maria Pia, onde para além da clínica, vocação que sempre abraçara com fervor, começava então também a ensinar, abria-se-lhe enfim um horizonte que os do Restelo jamais lhe teriam consentido.

E foi nesse equilíbrio que tomara como seguro, que a estabilidade soçobrou quando a Revolução dos Cravos lhe caiu com estrondo e esventrou um mundo que, brevemente, tomara como seu.

O regresso ao continente teve para Francisco a violência silenciosa das derrotas que ninguém anuncia. Aproximava-se dos quarenta anos, idade em que imaginara colher finalmente a estabilidade construída a pulso e no entanto via-se outra vez reduzido ao princípio de tudo. O Portugal que reencontrou continuava fechado sobre si próprio, húmido, prudente e desconfiado, uma realidade habituada a medir os homens que nunca aceitava, uma realidade que agora se agravava pelas exigências de um “PREC” louco que tudo tentava normalizar pelo medíocre.

Depois da liberdade, da vastidão africana, das distâncias largas, a sensação de crescimento contínuo, sem limites e sem céu, o regresso à pequenez de outrora reaparecia-lhe como uma vida apertada nas suas conveniências, mesquinha nos gestos, frugal nas ambições e sufocante no velho hábito português de vigiar sem pudor o sucesso alheio. Havia qualquer coisa de espartilho moral no mundo cinzento onde regressava quase estrangeiro.

Regressara para o Porto, sem carreira hospitalar, sem posição académica e sem o prestígio institucional que em Angola alcançara muito antes dos quarenta. Trouxera o diploma com experiência em excesso para recomeçar do início e um orgulho ferido que aprendera entretanto a esconder nas maneiras contidas, mas que exalava no bafo e fedia nos poros sempre que se descomedia.

A medicina privada surgiu-lhe não como escolha, mas como forma de sobrevivência. Instalou consultório, começou devagar, reconstruiu clientelas e viu-se novamente dependente de favores, apresentações e recomendações murmuradas nos círculos que nenhuma revolução consegue desconstruir, mas apenas lhe muda os protagonistas. Custava-lhe aceitar que depois de ter chefiado serviços e construído jovens médicos, tivesse agora de disputar o reconhecimento curvando as costas e venerando hierarquias que teria de aceitar, mas que verdadeiramente nunca reconheceria.

Quando se é louco da injustiça, quando a revolta apenas se contém porque se cerram os dentes e com esforço se impede que se morda todos quantos estão por perto, nesse estado de alma, nesse misto de azedume e revolta surda, perde-se a lucidez da racionalidade e todos são vistos como medíocres cujo único talento reside na arte provinciana das influências.

Foi talvez nessa época que a nata da ambição começou lentamente a azedar. O orgulho que em Angola lhe alimentara os passos largos dava agora lugar a um amargo persistente, uma revolta surda que lhe endurecia o olhar e lhe tornava a ironia mais afiada e um sarcasmo cada vez mais ácido e venenoso. Continuava competente, disciplinado e respeitado pelos doentes, mas a amargura que lhe marcara a adolescência lisboeta e se agravara com o esfumar de sonhos africanos, nunca lhe permitiu ser querido por todos quantos por perto poderia ter amado. Esforçava-se, acredito, mas algo em si era mais forte e o alimentava de uma permanente acidez cáustica.

Perdera a crença ingénua no mérito e na grandeza dos horizontes. Trabalhar deixara de ser conquista e passara a ser resistência. Compreendeu então que existem homens condenados a carregar dentro de si geografias demasiado vastas para os lugares onde o destino os obriga a viver.

É a vida! Porém, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe! E o destino, num revoluto perpétuo, acabaria por lhe trazer outras oportunidades e fortunas. Se profissionalmente, muito decorrente do seu virtuosismo e lucidez, as portas de um grande hospital se lhe abririam de novo e ornadas de carreira universitária, a vida pessoal trazer lhe ia um desgosto, o maior que a um pai pode alguma vez ser pedido.

Por muitas portas que se abrissem, por muitas oportunidades que agora se lhe oferecessem, a vida continuava a ser injusta e a revolta o sal mais constante do seu interior.

Foi assim que, na segunda metade da vida profissional, completou o Doutoramento, mas viveu sempre distanciado de pares que o viam num misto de soberba, arrogância e desdém, um lastro que o próprio permitia e cultivava sem que nenhum adjetivo isoladamente lhe definisse o temperamento por inteiro. Vivia assim, isolado, ensimesmado, alimentado pelas iniquidades que lhe moldavam o carácter e, quanto mais as estações se sucediam, mais o amargo lhe moldava o carácter.

Agora, internado na UCI, anos após a reforma, regressava ao mesmo hospital, a esse mesmo Serviço onde fora Chefe de Serviço, para se entregar nas mãos de quem sempre desdenhara e a quem nunca terminara um elogio sem um “mas” sempre verrucoso e assassino.

Deitado nessa cama oito da UCI, coberto como um monge budista, expondo toda a nudez e fragilidade, agora, reduzido ao mínimo do que e quem sempre fora, agora de nada lhe serviria o ego e a prosápia que usava como escudo contra as contrariedades da vida. E assim estava, vulnerável, frágil e indefeso, quando mais tarde o Dr. Almerindo dele se abeirou para as rotinas do dia.

O Dr. Almerindo era o Diretor da Unidade. Poucos anos antes tinha trabalhado sob a sua orientação e agora dirigia uma unidade que o Doutor Francisco Castro, num misto de desconfiança e inveja amargurada, sempre tinha posto em dúvida.

Quando o viu aproximar, sentiu-o como o “Caronte”, o que o iria acompanhar na última viagem. Despido que estava, sem posses nem preces, viu-se incapaz de garantir o sossego eterno.

Durante anos o Doutor Francisco Castro cultivara entre os mais novos uma reputação feita de admiração, mas também de medo e receio, um misto que se dividia em partes quase iguais. Reconheciam-lhe o brilho clínico, a rapidez de raciocínio e uma intuição que muitas vezes antecipava os próprios exames. Porém, dele raramente ouviam elogios e todos os comentários, e em particular os bons, terminavam com um “mas” sempre cáustico e assassino.

Entrava nas enfermarias com a segurança austera de quem raramente duvida e falava diante dos internos numa linguagem precisa, cortante, onde cada observação surgia como sentença definitiva. Os mais novos ouviam-no com atenção e reverência, anotando-lhe frases e gestos como discípulos diante de um mestre difícil, conscientes contudo que o próprio mérito só poderia ser medido pela ausência de críticas.

O Doutor Francisco Castro não era marcial, não ensinava como quem endurece soldados para uma guerra, era apenas e só incapaz da doçura humana. Havia nas suas correções sempre uma ironia mordaz, por vezes cruel, que expunha fragilidades sem piedade e deixava muitos internos suspensos entre a humilhação e no desejo quase infantil de se diluírem nos próprios sapatos. Nunca levantava a voz, não precisava. Bastava-lhe um silêncio mais prolongado, um olhar demorado sobre um erro banal ou um comentário cáustico dito em tom baixo, o mais baixo possível para que, além de ouvido, fosse também escutado. Bastava esse sussurrar para se instalar o desconforto em redor e gelar até o mais intrépido. E, no entanto, os mais novos continuavam a procurá-lo! Faziam-no porque por detrás de uma dureza áspera e de uma arrogância erigida como armadura, apesar de tudo isso reconheciam nele um médico excecional e um homem cuja amargura parecia nascer não da maldade, mas de uma consciência dolorosa de tudo quanto o mundo lhe prometera e nunca verdadeiramente lhe dera.

Agora, indefeso e despido de posses, julgou que no juízo final lhe iriam ser assacados todos os comentários e sublinhados com que tinha mimoseado todos quantos invejara o brilho e a juventude. Porém, nem mesmo quando reconhecemos o quão injusto que possamos ter sido, nem mesmo nessas alturas a pena e castigo vem paramentada das vestes que imaginamos.

É que, ácido ou não, amargurado com ou sem razão, o Doutor Francisco Castro tinha mesmo sido mestre de dezenas que com ele aprenderam.

O Diretor de Serviço, o Dr. Almerindo era um desses discípulos. Tinha ele também sido vítima dos seus comentários, mas sabia que nunca teria atingido a excelência sem os ensinamentos do Doutor Francisco Castro. E a gratidão é algo com que se nasce e quando presente e na dose suficiente, quase tudo desculpa deixando que na cola da memória apenas as coisas boas ganhem protagonismo.

E foi assim, que O Dr. Almerindo, sentado num banco improvisado, passou largas horas na companhia do doente da cama oito, alguém que então precisava do calor genuíno e abnegado como um caminho para a redenção.

Em memória do Mestre. Nasceu Francisco, cresceu Doutor Francisco e por cá deixou o Doutoramento antes de partir. É a vida!