Machiavelli escreveu O Príncipe para aqueles que querem conquistar e manter o poder. O que se segue dirige-se aos que, com toda a sinceridade do mundo, trabalham afanosamente para o perder.
Nunca vi tanta dedicação ao fracasso revestida de tanta convicção moral — e raramente a vi tão bem fotografada.
Há dois tipos de homens que destroem os seus próprios movimentos. O primeiro destrói-os por corrupção, por ambição pessoal, por covardia. Esse, ao menos, tem um motivo compreensível.
O segundo fá-lo com fervor, com sacrifício, com uma pureza de intenção que não deixa margem para o erro — e é precisamente essa pureza que o condena. O segundo tipo é mais trágico.
E, neste início de século, tornou-se a figura dominante da política climática europeia.
Para o leitor, permita-me guiá-lo, passo a passo, nesta arte da autodestruição.
Passo I – Declare as instituições irremediavelmente corrompidas
Os governos são cúmplices. Os media são capturados. As empresas são criminosas. Não há diálogo possível, não há reforma imaginável — só há o sistema e quem o combate.
Esta visão é emocionalmente satisfatória e politicamente desastrosa. Fecha de imediato as três portas por onde a mudança real entra: a negociação, a aliança e a pressão institucional. Um movimento que recusa jogar em qualquer terreno existente não conquista terreno nenhum — apenas fica parado a condená-lo. A condenação, por mais eloquente que seja, não reduziu ainda uma única emissão de carbono.
Passo II – Proclame a santidade do vosso círculo
Tem a ciência do vosso lado — e, portanto, a razão, e portanto a moral, e portanto, por uma lógica que nunca consegui seguir completamente, o direito de decidir pelos outros. Todos os demais estão manchados: pelo conforto, pela cumplicidade, pela indiferença.
Esta crença é reconfortante e politicamente suicida. Nenhum movimento cresce sem aliados imperfeitos. Nenhuma coligação se forma entre santos. A história dos movimentos sociais que venceram — direitos civis, sufrágio feminino, independências nacionais — é uma história de alianças improváveis, não de pureza preservada em câmara de vácuo. Os puros morrem sozinhos, e morrem obscuros.
Passo III – Alargue a definição de culpa até ela incluir toda a gente
Primeiro são as petrolíferas. Depois os governos que as financiam. Depois os agricultores que usam adubos. Depois os que apanham aviões para visitar a família. Depois, em suma, a esmagadora maioria da população que esperavam conquistar.
Um movimento que transforma potenciais aliados em réus do presente não alarga a sua base: amputou-a. O trabalhador que chegou atrasado ao emprego porque a rotunda estava bloqueada não ficou mais preocupado com o clima — ficou enraivecido com quem o bloqueou. Esse é o efeito real. O resto é narrativa interna.
“A virtù sem fortuna é ingenuidade. A pureza sem estratégia é vaidade. E a vaidade, por muito bem-intencionada que seja, nunca mudou o curso de um só rio.”
Passo IV – Declare-se acima das regras que eles criaram
As regras existem para proteger o poder deles — logo, quebrá-las não é apenas justificado, é necessário.
Compreendo o raciocínio. Mas há uma distinção que os activistas apaixonados tendem a esquecer: entre transgredir estrategicamente uma regra para ganhar, e transgredi-la por princípio para perder com dignidade. A sopa atirada ao Van Gogh rendeu milhões de visualizações e converteu, segundo todos os estudos disponíveis, um número próximo de zero pessoas à causa climática. Em Lisboa, esta semana, activistas do Climáximo entraram num Continente, saíram sem pagar e foram distribuir os produtos junto à Estação do Oriente. Robin Hood, alegaram. O supermercado, dizem, é cúmplice do capitalismo fóssil. O pequeno accionista que tem poupanças em fundos de investimento ligados à Sonae ficará, provavelmente, confuso com a sua nova condição de vilão. A transgressão não vos dá poder. Dá-vos um belo epitáfio e óptimo material para os vossos adversários.
Passo V – Intensifique. Sempre. Sem excepção.
Hoje é o bloqueio de uma rotunda. Amanhã é a interrupção de um concerto. Depois é a cola no asfalto de uma auto-estrada. Depois o vandalismo de uma instituição cultural. E depois? Incendiar cabos eléctricos numa capital europeia em pleno inverno, com temperaturas negativas — deixando 45 mil famílias sem luz e sem aquecimento durante dias. Um homem que dependia de um aparelho cardíaco esteve perto de morrer.
Isto não é o desvio radical de um movimento saudável — é o destino lógico de qualquer movimento que substituiu a estratégia pela escalada. A força sem freio não é força — é queda livre com bandeira verde.
Passo VI – Expulse os que hesitam. O núcleo puro basta.
Os danos colaterais multiplicam-se. Alguns membros, desconfortáveis, partem para organizações que preferem o diálogo institucional, a pressão eleitoral, o trabalho lento e pouco fotogénico de mudar políticas. Deixai-os ir — eram fracos, eram reformistas, eram comprometidos.
O que resta é ideologicamente intacto. É também, neste momento, numericamente irrelevante. Um grupo de dez activistas absolutamente convictos vale menos, na aritmética do poder, do que cem cidadãos razoavelmente preocupados com o clima. Sempre foi assim.
Passo VII – Veja o movimento fragmentar-se e chame a isso radicalização
Os moderados partiram. O que sobra é coeso, isolado, e cada vez mais convencido de que a radicalidade crescente é prova de comprometimento, não sintoma de irrelevância.
Mas a radicalização não é força — é o sinal de que um movimento perdeu a capacidade de crescer e encontrou na intensidade um substituto para o impacto. As sondagens europeias dos últimos anos são inequívocas: o apoio à acção climática ambiciosa cresce quando é apresentada como oportunidade económica e social; colapsa quando é associada a disrupção, criminalidade e moralismo. Estão a construir, com as vossas próprias mãos, o argumento eleitoral dos inimigos que dizem combater.
Passo VIII – A aposta final. Tudo ou nada.
Nada funcionou. Os governos não colapsaram. As petrolíferas continuam a operar. O público virou-se contra vós. O desespero instala-se — e o desespero é o pior dos conselheiros. O gesto supremo, o confronto directo, a acção que “já não pode ser ignorada” — não é coragem. É o reconhecimento, disfarçado de heroísmo, de que o jogo está perdido dentro das vossas próprias regras. Quem chega ao passo oito já não está a tentar ganhar. Está a tentar que a derrota tenha um nome bonito — e, se possível, que seja filmada em vertical para o Instagram.
Escrevo isto não por desprezo por quem acredita genuinamente que o planeta está em perigo — acredita bem, e tem a ciência consigo. Escrevo-o precisamente porque esse desprezo seria fácil, e a facilidade raramente é instrutiva.
O que descrevi nestes oito passos não é um defeito de carácter. É um defeito de método. É a confusão entre convicção moral e eficácia política — coisas relacionadas mas não idênticas, cuja confusão tem destruído mais causas justas do que toda a resistência dos poderosos.
A urgência climática é real. O planeta está, de facto, a aquecer. As consequências serão, de facto, graves. E é exactamente por isso que uma estratégia que aliena sistematicamente a maioria que precisava de ser convencida não é apenas ineficaz — é um luxo que a própria causa não se pode dar.
Os cabos incendiados em Berlim eram reais. O frio era real. E o senhor com o aparelho cardíaco que quase não sobreviveu à noite também era real — tal como o são todos os que ficaram no frio enquanto alguém, em nome do planeta, decidia por eles qual o sofrimento aceitável. Para aqueles que ainda duvidam que esta violência existe, a realidade tem uma forma inconveniente de não pedir permissão para acontecer.
Tornaram-se aquilo contra o qual lutam. E esse, meus caros, é o fracasso que nenhum inimigo vos poderia ter imposto.