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(A) :: A primeira derrota do Chega

A primeira derrota do Chega

Na questão da legislação laboral, o Chega corre o perigo de perder a juventude e os seus votos. Comporta-se como velho partido do sistema, ao tentar proteger os crónicos privilegiados.

Paulo Pinto
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A confirmarem-se as notícias recentes, PS e Chega votarão contra o Pacote Laboral. A ser assim, a proposta do governo será chumbada no parlamento, contando apenas com os votos favoráveis da IL e dos partidos que sustentam o executivo Montenegro. Na prática, o Chega votará com a esquerda, o que não deixa de ser curioso num partido que se afirma de direita.

O partido de Ventura, já o defendi em vários artigos, tem vários méritos: o primeiro a assumir-se de direita, ou seja, daquele tipo de direita que a esquerda não gosta, não alinhou no politicamente correto e nas leituras e interpretações oficiais e beatificadas quer da história recente quer da mais antiga do país; equilibrou a balança ideológica nacional, descontinuando a hegemonia marxista e socialista, e pondo a descoberto a promiscuidade entre os partidos de esquerda e a comunicação social que, até ao seu surgimento, juntamente com o grosso da academia, dominavam o espaço público e publicado. Acusado de ser um partido retrógrado e reacionário, foi o primeiro – o único? – a dominar os moderníssimos meios digitais, revelando-se preparado para os tempos vindouros.

Contudo, na importante e necessária atualização e consequente flexibilização da legislação do mundo do trabalho, mostra-se descompensado e petrificado, juntando-se ao bradar das gentes socialistas e sindicais. Os motivos, e fazendo justiça ao seu astuto e competente líder, motivos não faltarão, são dúbios, pairando no ar a ideia de puro e simples oportunismo político. A acrescentar ao imbróglio, a adenda insólita de baixar a idade da reforma.

As recentes transformações tecnológicas e, acima de tudo, a rapidez das mesmas, trazem consigo desafios e oportunidades – como sempre acontece, de resto. A diabolização inaugural do automóvel, com vocalizações e imprecações várias, imprimiu ao novo veículo um cunho de inavegabilidade e caos nas cidades, alvitrando um destino negro que não se veio a confirmar: o novel paradigma era radical e impunha hábitos e cuidados jamais presenciados, colocando inúmeros artesãos em desespero. A verdade, porém, é que não se impede o progresso, e custe o que custar, os ganhos em termos de mobilidade, qualidade de vida, liberdade de movimentos e de independência económica para um grande número de pessoas, valem muito mais que os parâmetros anquilosados dos velhos do Restelo, que, infelizmente para eles e felizmente para nós, ao serem sempre contrários a qualquer novidade, mais depressa empurram os empreendedores para a frente.

A digitalização da Vida e a IA atropelam os acomodados e os resistentes à mudança. Num novo mundo flexível, dinâmico e ágil, e aqui poderíamos trazer à baila Nietzsche, aqueles que carregam o peso da tradição e as grilhetas ideológicas antigas, quedarão para trás e, na sua queda, desejarão puxar outros com eles. A visão geocêntrica de um Universo estático e previsível, em que o rebanho e a contratação coletiva são soberanos, não tem cabimento num espaço variável e altamente volátil com uma infinidade de possibilidades e probabilidades. O sonho (ou o pesadelo) de um emprego para a vida nada diz aos novos navegadores, que observam com placidez, mas eficiência, a facilidade de mudança, quer geográfica quer laboral, não enjeitando, antes pelo contrário, ter mais de um emprego. Bastará entrarmos no Linkedin, para o percebermos. As novas gerações, até aqui desprotegidas e prejudicadas por legislações tacanhas que somente salvaguardavam os seus antepassados, regozijam-se com o recém-surgido estado de coisas, e aguardam que os governos e os partidos acompanhem e partilhem da sua experiência e sabedoria.

Temo que neste decisivo aspeto o Chega tenha ficado para trás. Em termos de futuro, para o país e para as novas gerações, ficou curto e remetido a um estado estacionário. Não acompanhou – a verificarem-se as opções saídas do seu último Conselho Nacional – o zeitgeist, correndo o perigo de perder irremediavelmente a juventude e os seus votos. Nesta importante matéria, comportou-se como um velho partido do sistema, ao tentar proteger os crónicos privilegiados.

A todos os níveis é uma derrota. Falha com o país e com as suas novas gerações – com o futuro. Afasta-se de Passos Coelho e de um liberalismo de que Portugal necessita. Conforme afirmou César das Neves, na selva não existe capitalismo, pois é um campo sem regras. Cabe ao Estado, numa base contratualista, tecer essas regras e estabelecer os termos e balizas da economia e da respetiva legislação laboral. Os futuristas agradecerão.