Nunca percebi muito bem o uso de “deus grego” como elogio. Quer dizer, percebo que a base são as figuras que nos são apresentadas pela escultura e pela pintura. Mas lembro-me sempre das visitas de estudo em que os meus colegas, como bons idiotas — isto é, adolescentes —, imitavam as poses e fletiam os bíceps inexistentes, ao mesmo tempo que escarneciam do tamanho da macheza da pobre da estátua, porque eles, ui, ui, haja régua para medir tal torpedo. Por outro lado, basta molhar o pé ao de leve na mitologia grega, para perceber que aquilo não era vida para meter inveja a ninguém.
Por exemplo, o Adónis que dá título à série sobre a qual me vou debruçar, meteu-se num 31 que nem vos digo nem vos conto. Diz que era uma estampa, sim senhor. Mas, para começar, nasceu de incesto, e se isto não é mau augúrio, não sei o que é. Acresce que o pai, o Teias (bom nome para rapper), rei da Assíria, quando percebeu que a filha, a Mirra, ia parir um filho dele, achou que a coisa sensata a fazer era matá-la. O resto da crew das divindades achou mal, haja um adulto na sala, e para a proteger transformou-a numa árvore. Está bem que ficou viva, mas que vida social é que ela teve depois de ganhar raízes? Uma rapariga com a vida toda pela frente…
Como se não bastasse ser filho do pai, que também era avô, e de uma árvore, que também era irmã, Adónis passou a vida a ser disputado por Perséfone e por Afrodite, que eram as duas enxertadas em corno de cabra, teimosas que eu sei lá. Vai daí, um dia foi caçar e a vida é um sopro. O pedaço de mau caminho do Adónis foi morto por um javali. Ou por um urso. As versões divergem, já se sabe que quem conta um conto, acrescenta um ponto. Onde é que eu ia mesmo? Precisamente: a nova série da RTP, que se estreia esta segunda-feira, dia 25 de janeiro. Desculpem, as conversas são como as cerejas. Vamos ao que interessa.
[o trailer de Adónis:]
https://www.youtube.com/watch?v=QfFBfOWjsY0
Adónis foi apresentada no evento Séries em Série, a que assisti em fevereiro. Na altura, atirei um 7 em 10 de hipóteses de a ver e eis que aqui estou, com dois episódios em ante-estreia no bucho. O primeiro arranca com uma cena digna daqueles anúncios de cerveja da década passada. Slow-motion de uma boazona, que isto é mesmo assim, a fazer um hair flip depois de uma refrescante mergulhaça, e eis que nos é apresentado o protagonista. Miguel (Renato Godinho), o Adónis de serviço, está a escorropichar um gin pela palhinha, baixa os óculos espelhados para apreciar a escultural jovem que procede a dirigir-se a ele e a torcer os seus longos cabelos no colo do galã… E vai-se a ver ele estava a sonhar e acordou molhado. Não, não é descontrolo pueril, que já não tem idade para isso, nem incontinência, também não está aí ainda. É um presente de despedida da soon to be ex-namorada Vanessa (a baddie Paula Magalhães), que descobriu que tem um par de cornos fresquinhos, acabados de plantar, e achou por bem dar um banho de gasolina a Miguel, que até a dormir se estava a preparar para a chifrar.
Miguel é aquilo a que os brasileiros chamam “alecrim dourado” (sim, vem da cantilena da erva aromática aos molhos): acha-se uma dádiva para o sexo feminino a que nenhuma mulher pode resistir. Aliás, as fêmeas têm mais é que agradecer pela oportunidade de passar a luva nos seus oblíquos tonificados onde tem tatuada a capa d’O Principezinho, (pormenor que me agradou deveras). No entanto, visto de fora da auto-estima inabalável do macho, Miguel é um PT de resort falido, prestes a ser despejado. E embalagem à parte, tudo faz crer que estava demasiado ocupado a mandar vir prota da Prozis quando Deus Nosso Senhor distribuiu a inteligência. Ironicamente, tendo em conta o ramo de negócio que vai seguir a partir de determinada altura, Miguel esconde a idade, para que as abordagens sucessivas a miúdas com menos 20 anos que ele pareçam menos questionáveis. Resumindo: um partidaço.

Miguel tem dois comparsas que rivalizam com ele ao nível da quantidade de areia na engrenagem mental, Wilson (Marco Paiva) e Nécio (Hélio Agapito), e são eles que lhe apontam o caminho para um side-job de lucro rápido que ele precisa desesperadamente: ser gigolô geriátrico. O plano de negócio está montado e o público-alvo identificado: as alunas que nas aulas de hidroginástica exercitam as articulações e as fantasias eróticas enquanto admiram os caracteres chineses que Miguel tem tatuados no carreirinho do pecado, aquele pedaço de pele que vai do umbigo até à lança de caça deste nosso “deus grego”, expressão usada por Dona Mimi (Paula Guedes), a primeira das suas alunas 65+ que tirou uma senha para dar uma voltinha neste carrossel algarvio, graças à iniciativa dos amigalhaços/chulos de Miguel, que atira “Isto é sempre assim, por cada um que dá o couro, há dois a chular, por isso é que estamos no cu da Europa”.
No segundo episódio, as freguesas que se seguem são Lorena (Paula Mora, a eterna Joaninha de Duarte e Cia.) e Ruby (a magnética Valerie Braddell, que gostei muito ver em Erro 404) . A primeira é uma escultora italiana cega, que num momento garante “Estamos no inverno dourado. Aproveita la dolce vita!”, mas noutro assume que na velhice “il dolce fare niente deixa de ser um privilégio. Passa a ser uma punição.” A segunda é uma ex-diplomata americana, que o marido Edgar (António Fonseca, a Voz, o Talento, o Tudo) trocou por uma mulher mais nova e muito mais parola. Tudo aponta que também Didinha vá lá picar o ponto (sou da opinião que quem reza devia juntar às orações diárias um agradecimento por termos Custódia Gallego). Menção honrosa para a personagem de Aurora (interpretada pela ótima Maria Emília Correia), empregada de limpeza do resort, que assume o papel de consultora oficiosa de Miguel para agradar às putativas clientes.

Adónis foi escrita por André Guerra Santos e é realizada por Ruben do Valle. A série anuncia-se como um dramedy, o que é de coragem, e propõe-se a abordar “temas atuais como a solidão, o envelhecimento, as dificuldades financeiras, a verdade, a mentira, a identidade, o amor e o interesse, propondo-nos desta forma uma reflexão bem-disposta sobre as reviravoltas da vida”. Não estou completamente convencida, mas a verdade é que só vi dois episódios. Achei-a um pouco formulaica (palavra que odeio usar, porque me faz sentir presunçosa). O tom caricatural e o over-acting é uma escolha válida, mas não é aplicada na mesma medida em todas as personagens, nem executada com a mesma competência por todos, o que torna a coisa meio incompleta. Há boas piadas, como quando a D. Mimi olha para Miguel e diz “A última vez que eu estive ao pé de um homem tão bem vestido e com flores foi no velório do meu marido”. Ou quando Miguel cita o haiku da Rainha da Malveira: “Se um dia tiver de voltar para a feira, ainda sei o lugar das estacas”. Mas há um ou outro momento meio confrangedor e muito uso de gags um pouco estafados com desfechos muito previsíveis.
Dito isto, repito-me em relação à impressão que tive aquando da apresentação da série. O toque de Midas de Adónis é colocar numa televisão portuguesa personagens femininas com mais de 60 que não usam carrapito, nem passam o tempo a cortar as côdeas das torradas para os netos ou a mandá-los meter um casaquinho pelas costas. Ainda para mais, interpretadas por um desfile de divas icónicas babilónicas da televisão, teatro e cinema portugueses. Uma palavra ao protagonista, que acredito que não me vai levar a mal. Eu sei que é o nome da tua personagem que está no cartaz em letras grandes — tu não és um problema, Renato. Mas a solução são elas. E é por elas que vou ver “Adónis” até ao fim.