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O sentido do futuro: a fraternidade que não se terceiriza 

Sou um crítico assumido de um Estado pesado, omnipresente no dispensável e ineficiente no fulcral, falhando na defesa dos que realmente precisam. As crianças são o nosso futuro.

Lino Franco
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O melhor do mundo são as crianças, sejam nossas ou dos outros. Elas são o nosso futuro, aquelas que criamos, ensinamos e com quem partilhamos o nosso tempo e sabedoria. Nelas depositamos a nossa esperança: nuns casos, a de dar continuidade a algo já criado; noutros, a vontade de mudança e de fazer diferente do que já foi feito. É através delas que mantemos vivas as tradições, os conhecimentos e as culturas de várias gerações e diversas influências. As crianças representam o aperfeiçoamento contínuo e um voto de fé para que haja uma continuidade na evolução enquanto seres humanos, cidadãos e família.

Há várias características que o Homem partilha com os animais irracionais, ou pelo menos com algumas espécies, nomeadamente o ato de cuidar dos filhos até à idade de serem autossuficientes. Enquanto isso não acontece, a maioria das espécies alimenta, protege e ensina a caçar ou a recolher alimento. No entanto, há casos em que os humanos conseguem ser mais irracionais do que os próprios animais ditos irracionais. Falham ao não zelar pelo bem estar dos filhos enquanto estes não são autossuficientes, negando lhes atenção, acompanhamento e condições dignas, o que lhes fecha as portas para um futuro melhor do que o presente.

Infelizmente, multiplicam se os casos de abandono. O mais recente, envolvendo cidadãos franceses, chocou o país e envergonha uma Europa que se espera evoluída, onde se deveria depositar um profundo sentido de fraternidade, principalmente nos laços familiares. Este episódio, em que uma mãe e um padrasto deixaram duas crianças indefesas e sozinhas, entregues a um destino que poderia ter sido trágico, é de uma crueldade e falta de humanidade atroz.

Este choque deve obrigar nos a uma reflexão séria: quantos casos semelhantes existem em Portugal? A negligência diária, a falta de acompanhamento, a ausência de cuidados básicos e a negação do acesso à educação e à saúde são realidades que se repercutem de norte a sul do país, alargando se às ilhas. Perante isto, impõe se questionar: as entidades competentes têm informação suficiente? Que medidas urgentes devem ser tomadas para evitar estas situações? Que necessidades reais têm os pais, sejam de apoios médicos ou financeiros, para garantir que os menores vulneráveis não fiquem expostos a este tipo de crueldade?

Sou um crítico assumido de um Estado pesado, omnipresente no dispensável e ineficiente no fulcral, falhando na defesa dos que realmente precisam. As crianças são o nosso futuro. É nossa obrigação, e também um objetivo primordial, garantir que nenhuma delas fique para trás e que a nenhuma seja negligenciado o alimento, a segurança e os cuidados de saúde. Para isso, o Estado tem de abandonar a TAP, as Pousadas  e muitas das empresas onde detém participações e interesses. Cada milhão de euros injetado para resgatar ou manter uma empresa de aviação comercial é um milhão de euros retirado da rede de assistentes sociais, da saúde mental infantil ou de apoios diretos a famílias em risco extremo. A verdadeira soberania de um país mede se pela qualidade e segurança da sua próxima geração, não pelo logótipo nas asas de um avião.

A tutela deve criar meios eficientes de detetar e assinalar casos em que o futuro dos menores esteja em risco. As escolas devem estar na primeira linha dessa deteção, seguidas pelos clubes desportivos e pelas diversas associações que prestam serviço público. O Estado e as suas instituições devem concentrar os seus recursos na defesa dos mais desprotegidos e vulneráveis, em vez de os dispensar em áreas económicas que nada acrescentam às necessidades reais das comunidades.

Adam Smith é muitas vezes apresentado apenas como o pai do liberalismo económico, mas o seu pensamento era muito mais complexo. Antes de escrever A Riqueza das Nações, ele escreveu a Teoria dos Sentimentos Morais, onde defendia que a sociedade não funciona apenas pelo interesse individual, mas também pela empatia, pela simpatia e pela necessidade de reconhecimento moral entre as pessoas. A visão humanista de Smith lembra nos de que a fraternidade não se terceiriza ao Estado. Ela constrói se no dia a dia por todos nós, enquanto cidadãos, trabalhadores e empresários envolvidos na vida social.

A nossa primeira missão é pedagógica: guiar os nossos filhos e os amigos deles através do exemplo, transmitindo lhes regras, respeito e amor ao próximo, garantindo assim que a economia serve uma sociedade moralmente saudável. Uma economia pode nascer do interesse individual, mas uma sociedade só se mantém saudável com valores humanos partilhados. Cuidar dos nossos cidadãos mais jovens não é uma questão de estatismo, é o pilar fundamental dessa moralidade partilhada sem a qual nenhuma nação sobrevive.