Há coisas mais importantes do que um serviço que vai à rede, uma bola que sai fora ou aquele ace que decide um torneio. Marta Kostyuk é a prova disso e descreveu o último jogo que fez, no Roland Garros, em Paris, como “uma das partidas mais difíceis” da sua carreira. O grau de dificuldade não se prendia com o que se passava dentro do court. Tinha a ver com as tais coisas mais importantes. Depois de uma partida em que venceu por 6-2 e 6-3 diante da atleta russa Oksana Selekhmeteva, a atleta ucraniana revelou que a noite de sábado para domingo em Kiev ficou marcada por ataques aéreos russos e que um deles atingiu um edifício a cerca de 100 metros de onde a sua família dormia.
Foi precisamente em Kiev que a ligação de Kostyuk ao ténis começou. Foi lá que nasceu em 2002 e ainda cedo, com cinco anos, pegou pela primeira vez numa raquete. O motivo pelo qual se iniciou na modalidade era o desejo de passar mais tempo com a sua mãe, Talina Beiko, que passava os seus dias no campo de ténis. Beiko foi jogadora profissional de ténis e tornou-se, mais tarde, treinadora. Foi, inclusive, treinadora da filha. A mãe de Kostyuk era uma das familiares junto de quem o ataque aéreo passou a 100 metros. Também a sua irmã e a tia-avó estavam na mesma casa na madrugada de domingo.
A guerra também afetou o campo de treinos onde Talina Beiko recebe muitas jovens tenistas ucranianas. O centro de treinos, à semelhança do resto de Kiev, ficou sem energia devido a ataques aéreos às infraestruturas energéticas ucranianas. O cenário foi divulgado numa publicação na rede social X, republicada por Marta Kostyuk.
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A influência da mãe em Kostyuk, pela forma como a atleta descobriu a sua profissão, é inegável. “Nunca me canso de dizer que ela é uma mulher incrível; com a vida que teve e que tem, é uma lutadora extraordinária e uma das pessoas mais fortes que conheço”, disse ao portal oficial do Open de Madrid. “Cresci a ser treinada pela minha mãe. Ligo-lhe sempre que preciso de apoio ou quando simplesmente quero conversar com ela. Na verdade, fiz um curto estágio de treino com ela antes da época de terra batida, por isso devo, sem dúvida, agradecer-lhe por todas as vitórias que tive no mês passado”, afirmou no início do mês. “Conheço muitas histórias difíceis em que os pais treinam os filhos. Mas estou feliz por ter saído do outro lado melhor, uma pessoa melhor, uma jogadora melhor”, acrescentou.
Agora, Kostyuk voltou a falar da mãe, mas os motivos não eram os mesmos. Depois da estreia no Roland Garros de 2026, a atleta revelou que, durante a madrugada de domingo, “a 100 metros da casa” dos seus pais, um “míssil destruiu um edifício”. “Durante a maior parte da manhã senti-me mal porque pensei que, se tivesse sido 100 metros mais perto, provavelmente hoje não teria mãe nem irmã“, disse. “Existem dias melhores, dias piores, mas este esteve entre os três piores dias, certamente”, confessou, revelando que aquele ataque “foi o mais próximo que esteve” da sua casa. “Tenho chorado toda a manhã. Não quero falar sobre mim hoje. Todo o meu coração e todos os meus pensamentos vão para o povo da Ucrânia hoje”, afirmou.
https://twitter.com/BastienFachan/status/2058513000110186983
Já na sala de conferência de imprensa do evento, a atleta mostrou às câmaras uma fotografia que tinha no seu telemóvel, a retratar o cenário que rodeava a casa dos seus pais. “Isto foi o que recebi hoje às oito da manhã. Tive de conviver com isto, lidar com isto e jogar. Não sabia o que esperar de mim mesma. Não sabia como me ia concentrar, como conseguiria controlar as minhas emoções ou os meus pensamentos e, obviamente, houve momentos durante o jogo em que voltava a pensar sobre isso. Foi muito difícil processar tudo isto tão rapidamente e ao mesmo tempo ter de jogar. Por isso é que fiquei contente por ter jogado logo a primeira partida. Não sei qual seria o resultado se jogasse a última, por exemplo. É difícil, mas hoje estou muito orgulhosa de mim mesma e de como todos nós lidámos com isto. Estou feliz por estar na segunda ronda e que todos estejam vivos“, afirmou.
https://twitter.com/Eurosport_ES/status/2058600622853591102?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E2058600622853591102%7Ctwgr%5E706570f5c98d38d28b41a2be51f3db53c16685c0%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.marca.com%2Ftenis%2Froland-garros%2F2026%2F05%2F24%2Fkostyuk-derrumba-ganar-paris-misil-destruyo-edificio-100-metros-mis-padres.html
Não é a primeira vez que a atleta fala no conflito armado entre Moscovo e Kiev e como a guerra na Ucrânia a afeta psicologicamente. “Para que estou eu a viver?”, questionou a tenista em abril de 2022, em entrevista à CNN, cerca de dois meses depois de se iniciar o conflito. Psicologicamente “foi extremamente difícil, na primeira ou nas primeiras duas semanas”, confessou. “Isto melhora e piora, vai mudando. Estou a tentar guiar-me um pouco, apenas a tentar ver onde estou. A tentar sentir-me e entender-me”, acrescentou. Mais tarde, em março de 2023, Kostyuk venceu o seu primeiro WTA e recusou cumprimentar Varvara Gracheva, também ela russa, tal como a adversária que a ucraniana acabou de vencer no Roland Garros.
https://observador.pt/2023/03/06/para-todos-os-que-estao-a-lutar-e-a-morrer-ucraniana-marta-kostyuk-vence-primeiro-wta-e-recusa-cumprimentar-adversaria-russa/
Mesmo com a ajuda psicológica que Kostyuk procurou, às vezes chegava a ser “assustador” os pensamentos que tinha, lembrando “um pai de um jogador de ténis que morreu” e “uma casa de um tenista que ficou completamente destruída”. A atleta, que agora teme pelos seus, tem cerca de dois dias para preparar a próxima ronda do Grand Slam. Na quarta-feira encontra a norte-americana Katie Volynets. Mas antes, na terça-feira, tem agendada uma partida de pares, em que jogará ao lado da romena Elena-Gabriela Ruse, diante da belga Elise Mertens e da chinesa Shuai Zhang.