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A importância das tecnologias na literacia em Saúde Feminina 

Promover literacia em saúde da mulher não depende apenas de inovação tecnológica, mas de estratégias educativas e institucionais que coloquem as pessoas no centro da transformação digital.

Inês Rosete
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A literacia em Saúde é hoje amplamente reconhecida como um factor fundamental para a gestão de saúde individual, da equidade na sociedade e da sustentabilidade dos sistemas de cuidados. Num contexto de rápida transformação digital, ganha uma nova dimensão: a literacia em Saúde digital.

A literacia em Saúde digital pode definir-se como a capacidade de aceder, compreender, avaliar criticamente e utilizar a informação disponibilizada através de meios digitais para tomar decisões informadas ao longo da vida. É, assim, imperativo compreender qual a influência das tecnologias na promoção de literacia em Saúde.

Na Europa, a digitalização da Saúde tem sido assumida como uma prioridade estratégica. A Comissão Europeia identifica a informação digital sobre Saúde como um instrumento essencial para capacitar os cidadãos, melhorar a qualidade dos cuidados e promover um acesso mais equitativo aos sistemas de Saúde, estando por exemplo, a desenvolver o Espaço Europeu de Dados de Saúde. O projeto tem como objetivo facilitar a partilha segura e interoperável de dados de saúde entre Estados-Membros.

Em Portugal, temos registado avanços significativos na digitalização da Saúde. De acordo com o relatório Década Digital 2025 do Digital Economy and Society Index, o país apresenta níveis de maturidade em informação digital sobre Saúde acima da média da União Europeia (82.7%) com pontuação global de 88%, destacando-se no acesso dos cidadãos a dados de saúde eletrónicos e na disponibilidade de serviços digitais. No entanto, o progresso tecnológico não garante, por si só, melhores resultados em Saúde num país onde persistem diferenças significativas no acesso, nas competências digitais e na capacidade de utilizar informação sobre Saúde de forma crítica, sobretudo entre diferentes grupos etários, níveis de escolaridade e contextos socioeconómicos.

A Saúde da mulher ilustra claramente porque é urgente resolver estas lacunas e revela a sua dimensão complexa Ao longo do ciclo de vida, as mulheres interagem mais frequentemente com o sistema de saúde em áreas como saúde reprodutiva, gravidez, doenças ginecológicas crónicas, saúde mental ou menopausa. Implicando que o sistema esteja pronto para disponibilizar informação clara, validada e adaptada às suas necessidades. Contudo, ainda há muito desconhecimento por parte das mulheres das várias opções existentes para viverem com qualidade cada uma destas etapas da sua vida. É assim necessário continuar o investimento feito até aqui de forma a garantir maior autonomia nas decisões, diagnósticos mais precoces e aumento na qualidade de vida.

Outro elemento central da informação digital em Saúde é a utilização de dados pessoais, frequentemente sensíveis. A crescente recolha e utilização de dados de saúde exigem níveis adequados de literacia por parte dos cidadãos, de forma a garantir compreensão sobre quem os utiliza, para que fins e com que garantias de privacidade. A confiança nas tecnologias de Saúde depende assim, em grande medida, desta compreensão.

De entre as várias soluções, as ferramentas digitais destacam-se na melhoria do acesso a cuidados de saúde, apoio à saúde materna, reforço da autonomia na gestão da sua saúde e contribuem para a promoção da igualdade de género. Contudo, este potencial não é automaticamente inclusivo. As mulheres em contextos socioeconómicos mais vulneráveis apresentam, em média, menor acesso a tecnologias digitais, menos competências digitais e menor confiança na utilização destas ferramentas. Sem políticas estruturadas de literacia, o acesso à tecnologia não se traduz necessariamente em uso efetivo ou em melhores resultados em Saúde.

Importa ainda considerar quem desenvolve estas soluções. As mulheres permanecem sub-representadas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática na União Europeia. Ainda que constituam mais de metade da população, apenas cerca de um em cada três licenciados nas áreas referidas são mulheres e apenas um em cada cinco especialistas é mulher. A Comissão Europeia reconhece que esta desigualdade de género no setor digital influencia as prioridades, os pressupostos e o desenho das soluções tecnológicas, defendendo que o aumento da participação feminina nas áreas digitais é essencial não só para a equidade, mas também para uma inovação mais inclusiva e eficaz.

A promoção da literacia em saúde da mulher, apoiada pela tecnologia, não deve ser encarada como um tema secundário ou exclusivamente técnico. Trata-se de uma questão estrutural, com implicações diretas na equidade, na autonomia individual e na sustentabilidade dos sistemas de saúde. Exige políticas públicas consistentes, investimento em educação ao longo da vida e uma abordagem integrada que articule saúde, tecnologia e igualdade de género.

E é aqui que a tecnologia pode desempenhar um papel decisivo na melhoria da Saúde das mulheres em todas as fases da vida. Mas para que esse potencial se concretize de forma justa e eficaz, é indispensável colocar a literacia no centro da estratégia. Porque a inovação só cumpre a sua promessa quando é compreensível, acessível e verdadeiramente capacitadora.

Exemplos práticos para promover literacia em saúde feminina, digital e de dados

Permitam-me que apresente alguns exemplos ilustrativos que ajudam a clarificar como o conhecimento clínico, competências digitais e compreensão sobre a utilização de dados podem ser trabalhadas de forma integrada.

Em primeiro lugar, projetos de educação em Saúde apoiados por meios digitais e presentes nas redes sociais, desenvolvidos por entidades públicas ou comunitárias. Iniciativas que expliquem, em linguagem clara e acessível e baseada em evidência científica, temas como saúde menstrual, doenças ginecológicas crónicas, saúde mental ou menopausa (e que ensinem simultaneamente a avaliar a fiabilidade da informação online) contribuem diretamente para a literacia em Saúde e digital. Em Portugal tem vindo a ser feito um investimento na criação e divulgação de podcasts, campanhas e páginas de profissionais dedicadas à saúde da mulher.

Em segundo lugar, a integração da literacia em Saúde e digital em contextos educativos e de formação ao longo da vida. A inclusão destes temas em currículos escolares, programas de formação profissional ou ações de educação para adultos permite capacitar as mulheres para utilizar ferramentas digitais sobre saúde, compreender resultados clínicos, preparar consultas médicas e participar de forma mais informada nas decisões sobre a sua saúde. Esta abordagem é particularmente relevante para reduzir desigualdades associadas à idade, escolaridade ou contexto socioeconómico.

Por fim, a promoção da literacia de dados em Saúde é indispensável para reforçar a confiança no ecossistema digital. Ações que expliquem, de forma acessível, como os dados de saúde são recolhidos, armazenados, utilizados e protegidos, bem como os direitos dos cidadãos sobre esses dados, ajudam a transformar utilizadoras passivas em participantes conscientes. Num contexto europeu em que se avança para uma maior interoperabilidade e partilha de dados, esta compreensão é condição essencial para uma participação informada e segura.

Estes exemplos demonstram que promover literacia em saúde da mulher não depende apenas de inovação tecnológica, mas de estratégias educativas e institucionais que coloquem as pessoas no centro da transformação digital. Só assim a tecnologia poderá cumprir o seu potencial como instrumento de equidade, autonomia e melhoria efetiva da saúde ao longo da vida das mulheres e sociedade.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.