O Bloco de Esquerda, depois de, durante anos, ter enganado boa parte do país graças às homilias sonsas do bispo Louçã, acabou reduzido à insignificância eleitoral e social a bordo de um barco que carregou Mariana Mortágua pelo Mediterrâneo dentro. Desorientada, a extrema-esquerda que o statu quo socialisto-mediático, encabeçado por António Costa e que escorria como um fio de baba pelas redacções, transformou em “social-democrata”, está hoje reduzida à condição de um singelo deputado. Para os mais distraídos, o espécime chama-se Fabian Figueiredo, e esta semana ensaiou uma pequena atracção parlamentar – afinal, há que fazer pela vida, e não há dia em que não surja um político na praça facultando provas aos portugueses sobre como o espectáculo e o populismo não são exclusivo de um só partido.
Fabian carregou um pequeno boneco e uma folha larga, o primeiro retratando uma funcionária aleatória do Pingo Doce, a que chamou Maria, o segundo o CEO da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos. E esclareceu, dizendo que «a Maria, que trabalha no Pingo Doce, precisaria de trabalhar 226 anos para ganhar o que o CEO da Jerónimo Martins recebe num só ano. Mais do que toda a sua vida, mais do que a vida da sua filha, e mais do que a vida da sua neta.» A formulação parece inocente, mas não é. Fabian não pretende discutir salários, mas antes fazer o que aquela esquerda nunca teve pudor em fazer: partir da ideia de que a desigualdade económica é, em si mesma, uma espécie de injustiça moral objectiva, oferecendo a ideia, naturalmente simples e perigosa, de que a riqueza é um bolo fixo previamente distribuído e que tudo aquilo que alguém tem alegadamente em excesso corresponde imperativamente ao que outrem perdeu.
O ensaio não é novo, mas talvez valha a pena voltar a ele. Talvez o erro comece, precisamente, na ideia de que o Homem deve ser visto exclusivamente do ponto de vista da sua posição económica, como se as pessoas se reduzissem à sua condição material, fazendo por esquecer que os indivíduos são, acima de tudo, seres morais, civilizacionais ou até mesmo espirituais. Naturalmente, não acredito na saúde de uma sociedade onde a distância entre o trabalhador e o patrão são equivalentes à distância que vai do salário de um jogador do Idanhense ao de uma estrela do Manchester City. É evidente que as desigualdades corroem a coesão social, destroem referências comuns, conduzem sociedades inteiras ao desespero que é a ideia de viverem numa espécie de civilização paralela. Mas reconhecer esta evidência não é o mesmo que comprar a narrativa marxista, como se toda a desigualdade fosse ilegítima, como se a riqueza de uns decorresse automaticamente da espoliação dos outros, ou como se competisse ao Estado, chefiado por chefes de revolução, a reorganização coerciva da sociedade em busca de igualdades artificiais. Toda a gente sabe como é que isto acaba.
Uma grande empresa, como é o caso do Pingo Doce, gera riqueza aos seus accionistas, aos seus trabalhadores, aos seus clientes, aos seus fornecedores e até mesmo ao próprio Estado. Quando um cidadão resolve criar uma estrutura económica, ele não está a apropriar-se da riqueza dos outros, muitas vezes está mesmo a criar riqueza nova, inovação, emprego, oportunidades onde elas não existiam. É certo que boa parte do liberalismo contemporâneo acabou por se converter numa espécie de marxismo de sinal contrário, o que talvez ajude a explicar a razão pela qual os braços de ambos se encontram carinhosamente em tantos momentos do tempo que vivemos. Também aceitou a visão redutora do Homem reduzido à sua condição de agente económico, eficiente ou ineficiente, produtivo ou improdutivo. Uns definem-nos pela produtividade; os outros pela exploração de que somos alegadamente vítimas.
É evidente que o trabalho, o esforço, o mérito, a competência merecem ser recompensados de forma superior à preguiça, ao laxismo, à incapacidade, à incompetência. Mas suspeito que um dos grandes males do nosso tempo seja o facto de termos passado décadas a discutir como distribuir riqueza ao mesmo tempo em que a visão do Homem que estava por trás dessa distribuição e das condições materiais se desvanecia. Uma sociedade livre não se rege pela totalitária ideia da igualdade absoluta de resultados, tal como não pode aceitar que a sua organização se mede pelo mercado ou pela acumulação material.
O que o Bloco de Esquerda nunca perceberá é que a questão das desigualdades deve ser vista, antes de mais, como uma questão moral e de civilização, não apenas como económica. E suspeito que não esteja mesmo a compreender o ar do tempo que se respira: é certo que o ocidente parece tardar em encontrar-se, mas é evidente que está a viver esse processo, procurando um sentido. O que lhe falta é sentimento de pertença, dignidade, reconhecimento em lugar de nivelamento por baixo, responsabilidade e respeitabilidade, comunidade. As democracias modernas produziram atomização, obsessão com o conforto, materialismo, e o neomarxismo encontrou-se aí e procura prosperar à volta da ideia de que nós somos o que possuímos. Fabian Figueiredo sabe que o CEO da Jerónimo Martins não vale mais como pessoa do que a funcionária do Pingo Doce, o que nem é grande pensamento; todos sabemos disso. Mas não sabe que Pedro Soares dos Santos também não vale menos só por ganhar mais do que a Maria. Pensar o contrário, como faz o Bloco de Esquerda, é meio caminho andado para o que já conhecemos: violência, mortes, tiranias.