Um paciente iraniano entra no primeiro gabinete do circuito do centro iSIGHT, um projeto do Hospital Pulido Valente, em Lisboa, desenhado para rastrear doenças visuais. Não fala português nem inglês, e vem acompanhado pela filha. Não sabe, mas os exames que fará dali a escassos minutos terão integrada uma ferramenta de Inteligência Artificial (IA) que vai ajudar ao diagnóstico. O utente, diabético, vem referenciado pelo centro de saúde para fazer o rastreio à retinopatia diabética, uma das doenças oftalmológicas mais comuns relacionada com lesões na retina causadas pelos níveis elevados de açúcar no sangue. O exame de rastreio, ‘analisado’ pela IA, traz uma má notícia: o paciente tem a doença, ainda que num estado inicial. O exame de confirmação, a cargo do médico Luís Abegão Pinto, confirma a análise da ferramenta de IA, e o utente é encaminhado para a consulta de Oftalmologia.
A ferramenta da IA utilizada neste rastreio, desenvolvida por duas universidades na Finlândia e na Bélgica, permite, com um só exame, analisar o grau de retinopatia diabética e definir a probabilidade de o doente ter glaucoma, numa escala de 0 a 100. Silencioso e muitas vezes assintomático, o glaucoma, relacionado com a deterioração do nervo ótico, é uma das doenças mais subdiagnosticadas e difíceis de identificar e a principal causa de cegueira em Portugal e no mundo.
“A ferramenta que temos [que integra IA] vai olhar para o fundo do olho, e vai tentar perceber se há algum padrão da doença [glaucoma]. No nervo ótico, temos 1,2 milhões de fibras, como se fosse uma fibra ótica, e portanto a ferramenta analisa a falta dessas fibras”, explica o oftalmologista Luís Abegão Pinto, coordenador do centro iSIGHT, assinalando que o diagnóstico de glaucoma será, desta forma, mais rigoroso, uma vez que, apenas com a análise médica, o diagnóstico é difícil de fazer, sendo por vezes o glaucoma confundido com miopia.
https://observador.pt/2026/05/26/hospital-pulido-valente-inaugura-centro-para-rastreio-de-doencas-da-visao-exames-sao-analisados-por-inteligencia-artificial/
No caso do glaucoma, o centro iSIGHT torna-se-á pioneiro a nível mundial, ao inaugurar, pela primeira vez, um programa de rastreio populacional em larga escala com recurso a IA. Serão convocados todos os doentes entre os 55 e os 65 anos, a faixa etária em que habitualmente a doença começa a manifestar-se.
No centro iSIGHT, inaugurado a 26 de maio, os doentes passam por um circuito integrado que combina rastreio, confirmação diagnóstica, estadiamento e seguimento clínico no mesmo local. Se o rastreio for negativo, o processo acaba na primeira das cinco salas de rastreio. Se for positivo, o doente faz todos os exames necessários de seguida, num circuito fluido, acompanhado por uma equipa de seis ortoptistas, que estão em contacto permanente com a equipa do Serviço de Oftalmologia, localizado no Hospital de Santa Maria. Em menos de uma hora, o circuito é concluído, permitindo uma poupança de recursos quer ao SNS quer ao próprio utente, que evita mais deslocações aos cuidados de saúde.
Para além de auxiliar o diagnóstico, a IA vai permitir estruturar automaticamente os dados clínicos, permitindo uma monitorização contínua de indicadores assistenciais e resultados clínicos em tempo real. Como sublinha a própria Unidade Local de Saúde (SNS) de Santa Maria, em comunicado, o “objetivo não é apenas fazer mais consultas ou mais exames, mas medir de forma objetiva se aquilo que está a ser feito melhora efetivamente a vida dos doentes”, um caminho ainda pouco seguido nos cuidados de saúde em Portugal, muitas vezes por falta de recursos, e ao qual a IA poderá dar um contributo importante.
Garcia de Orta. IA ajuda a intervir junto de utilizadores frequentes das urgências
Os serviços de urgência são um dos pontos mais ‘quentes’ do funcionamento do SNS. Apesar de muitos funcionarem no limite, estes serviços consomem muitos recursos (financeiros e humanos) e, em cerca de 40% dos episódios que recebem, os doentes são triados como pouco urgentes, isto é, poderiam ser atendidos nos centros de saúde. Parte dos utentes que acorrem às urgências fazem-no mais de 10 vezes nos últimos 12 meses, sendo por isso considerados utilizadores muito frequentes — high users. Foi com foco nestes utentes que a Unidade Local de Saúde Almada-Seixal criou o Grupo de Resolução de High Users (GRHU), cujo trabalho conseguiu reduzir a sobrelotação do Serviço de Urgência Geral do Hospital Garcia de Orta (uma das unidades sob maior pressão assistencial no SNS), e o recurso dos chamados high users às urgências.
Através de um aumento das consultas de especialidade e da articulação com os centros de saúde (de forma a aumentar a resposta a utentes sem médico), o projeto permitiu reduzir em 51% os episódios de urgência no Garcia de Orta e diminuir em 44% os custos associados ao acompanhamento destes doentes e ainda os internamentos frequentes, sublinha a enfermeira Ana Januário, coordenadora do GRHU. “Com este projeto, reduzimos os episódios de urgência, os episódios de internamento, e os custos totais associados”, realça a responsável do grupo de trabalho.

Foi com os resultados desse projeto já consolidados que a ULS Almada-Seixal avançou, em 2025, com um outro projeto que, com a ajuda da IA, pretende antecipar a intervenção junto dos utilizadores muito frequentes, prevendo quais os utentes que se podem vir a tornar em high users e atuando a montante. Chama-se HUMAI [High Users Management with AI], e vai “ajudar a prever quais os doentes que se vão tornar utilizadores muito frequentes”, intervindo de forma atempada junto desses utentes, explica a enfermeira.
A IA “possibilita, através dos modelos preditivos, prever a utilização futura do serviço de urgência [do Garcia de Orta], em diferentes horizontes temporais (3,6 e 12 meses), identificar precocemente os utentes em risco e prever os resultados das intervenções, e permite sustentar a decisão das equipas”, refere Ana Januário.
O Grupo de Resolução de High Users acompanha atualmente utilizadores frequentes e muito frequentes, ou seja, utentes com mais de 7 episódios nos últimos 12 meses e intervém junto destes doentes com planos individuais de integração. Um dos fatores que impulsiona a ida de utentes à urgência é a falta de resposta dos centros de saúde. Na área de influência da ULS Almada-Seixal, quase um em cada cinco utentes não tem médico de família atribuído. “Há alguns utentes que não têm médico de família e há preocupação de fazer articulação para pedir priorização na atribuição”, refere Ana Januário. Outros fatores que potenciam o recurso de utentes às urgências são a doença crónica complexa, os problemas de saúde mental e problemas sociais.
A ferramenta de IA utilizada agrupa os utentes em “três perfis diferentes: os que passam a ter um baixo nível de recurso à urgência após intervenção do GRHU; os doentes em que a equipa intervém e em que se verifica uma diminuição progressiva e menos acentuada do uso da urgência; e os doentes que mantêm visitas descontroladas à urgência”, diz a enfermeira, admitindo que, no caso do último grupo, a capacidade de intervenção do GRHU é limitada.
“São utentes cujas necessidades vão muito para além do que o GRHU pode oferecer, utentes que a nível legal estão sob estatuto de maior acompanhado muitas vezes, e que precisam de uma resposta social diferenciada”, indica. Os resultados preliminares mostram que existem perfis de doentes com uma redução significativa das visitas às urgências após a intervenção do GRHU, sendo que a análise económica revela, ainda, um benefício para a ULS Almada-Seixal.
Segundo os últimos dados conhecidos, divulgados no início de 2025, o SNS tinha 111 projetos relacionados com IA, sendo a área com mais iniciativas em curso na administração pública com aquela tecnologia. O Observador questionou a Direção Executiva do SNS de modo a perceber quantos projetos estavam em curso, mas a entidade liderada por Álvaro Almeida remeteu esclarecimentos para as ULS. No entanto, o mais provável é que o número atual seja superior ao do ano passado, tendo em conta o desenvolvimento da IA ao longo do último ano e a proliferação de aplicações e empresas nessa área.
https://observador.pt/2025/02/03/governo-sublinha-que-saude-e-a-area-com-mais-iniciativas-de-inteligencia-artificial-em-curso/
A utilização de IA no SNS está a disseminar-se em Portugal, mas a introdução destas ferramentas nos cuidados de saúde não é um exclusivo português. Mais de metade dos países da União Europeia já utilizam ferramentas de diagnóstico apoiadas por IA, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde, divulgado em abril. A IA está a ser integrada em várias áreas da prática clínica, incluindo deteção precoce de doenças, apoio à decisão médica, análise de imagens clínicas ou definição de perfis de risco, uma realidade que encontra paralelo também em Portugal.
ULS da Lezíria usa IA para identificar fraturas em raio-X
Uma das áreas em que a IA tem sido integrada de forma mais generalizada é precisamente a Imagiologia, através da análise de exames. No Hospital de Santarém, por exemplo, um dos que mais se debate com falta de médicos na região de Lisboa e Vale do Tejo, é utilizada, desde o início de 2025, uma ferramenta de IA, designada Rayvolve, que permite a análise automatizada de exames de raio-X em menos de 40 segundos.
“Traduz-se na leitura automática dos raio-X a fraturas na grelha costal e tórax. A ferramenta aponta três possibilidades: baixa, média ou elevada probabilidade de existir uma fratura. É muito útil para os médicos”, sublinha a diretora do Serviço de Imagiologia do Hospital de Santarém, Inês Pereira. A ideia de introduzir a ferramenta, comercializada por uma empresa francesa, surgiu em 2024, de forma a “auxiliar o trabalho dos médicos escalados no serviço de urgência [do Hospital de Santarém], principalmente nos períodos em que não há ortopedistas”, salienta Inês Pereira, algo que acontece com frequência.

A ferramenta de IA é muito fiável, realça a médica. “Há lesões que o algoritmo permite identificar e que nos passariam despercebidas“, admite Inês Pereira. “É uma ajuda importante. E os médicos podem ensinar até o próprio algoritmo, para ele aprender e errar menos”, sublinha o diretor do Serviço de Gestão de Tecnologias de Informação, Pedro Teixeira.
A ferramenta é também utilizada pelos médicos de família nos centros de saúde que têm equipamentos de raio-X, e que “não têm muita experiência na identificação de fraturas”, diz Inês Pereira. “O doente está no centro de saúde, e se o algoritmo identifica uma fratura é enviado para o hospital. Se não tem fratura, já não precisa de referenciar para o serviço de urgência, o que acaba por resultar numa poupança de recursos”, realça, por outro lado, Pedro Teixeira. A ULS da Lezíria faz uma avaliação positiva da utilização da ferramenta, que tem ajudado a mitigar as dificuldades de resposta decorrentes não só da carência de ortopedistas mas também de médicos especialistas em Radiologia, uma especialidade onde o SNS tem crescentes dificuldades em reter profissionais.
Urgência do São João. Médicos têm resumo do histórico do utente numa ‘nuvem de palavras’
Voltando a um contexto de urgência, o Hospital de São João (o maior da região norte) tem no terreno, há escassos meses, o projeto ‘Digital Patient’, que tem como objetivo utilizar a IA para resumir os problemas e particularidades do doente a partir do seu histórico. Na prática, quando um utente é admitido na urgência, é criada uma espécie de “nuvem de palavras”, apresentada depois ao médico, e que resume as idas anteriores do mesmo utente à urgência.
“O médico acede ao processo do doente, vê o resumo do doente automaticamente numa nuvem de palavras (em que as maiores palavras são sugestivas de problemas que o doente tem, podem ser doenças, por exemplo), o que o ajuda a fazer perguntas ao utente”, explica o responsável pelo serviço de Inteligência de Dados, Afonso Pedrosa, explicando que os médicos escalados “têm pouco tempo para decidir”, sendo que há casos em que não existe sequer comunicação entre o profissional e o utente.
https://observador.pt/2025/11/25/apenas-um-terco-das-entidades-do-sns-tem-uma-estrategia-para-a-inteligencia-artificial/
“O doente pode não colaborar ou não ter capacidade de falar”, refere o responsável. “Sem a ferramenta e se o doente não falar, por exemplo, o médico tem de procurar no histórico do doente, em múltiplos registos, para poder caracterizar o background do doente”, o que pode adicionar tempo ao processo, criando entropias no funcionamento da urgência central do hospital, uma das maiores do país, sublinha, acrescentando que o programa informático com IA integrada foi criado com recurso a fundos europeus.
Hospital de Évora utiliza IA para melhorar rastreio do cancro do colo do útero
Já no Hospital de Évora, está a ser utilizado, desde março de 2026, um sistema que utiliza IA para elevar a precisão do rastreio do cancro do colo do útero. O programa, designado ‘Genius Digital Imager’, tem como objetivo identificar precocemente “lesões pré-cancerosas e cancerosas do colo do útero com uma eficácia sem precedentes”, explica fonte da ULS do Alentejo Central. “Com este novo sistema, asseguramos o rastreio de toda a região do Alentejo utilizando a genotipagem como teste primário, seguida da citologia nos casos indicados”, referiu, à Lusa.
Apesar do entusiasmo que grassa no SNS com os benefícios trazidos pela IA, também há entidades a alertar para os riscos. No final de 2025, a Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) alertava que apenas um terço das ULS e dos institutos de oncologia dispunha de uma estratégia definida para a IA e que foram detetadas “lacunas significativas” em áreas críticas como a cibersegurança.
IGAS alerta para lacunas na utilização de IA no SNS e bastonário dos médicos deixa aviso
“Constatou-se a necessidade de uma maior capacitação para um uso seguro e ético da Inteligência Artificial”, refere a auditoria da IGAS. A inspeção-geral apurou que 14 entidades têm planos de formação em Inteligência Artificial, mas 60% não promovem a literacia digital nessa área para os profissionais de saúde ou para os utentes.
Ao mesmo tempo que aumenta o uso de IA no diagnóstico, no apoio à decisão clínica ou na gestão dos doentes, um outro fenómeno (mais antigo) ganha também maior dimensão: o uso de IA, por parte dos utentes, para esclarecer dúvidas clínicas ou procurar informação sobre doenças ou tratamentos. Em fevereiro, a segunda edição do Estudo Nacional de Saúde – Estado de Saúde Geral da População Portuguesa referia que 40% dos utentes já recorrem à IA para esclarecer dúvidas sobre saúde.
Perante estes resultados, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, avisou que a IA não pode substituir um médico, alertando que ferramentas como o ChatGPT não estão habilitadas a fazer diagnósticos médicos. “É fundamental afirmar que a IA não é, nem pode ser, um substituto do julgamento clínico, da experiência médica nem do contacto humano. O diagnóstico é parte essencial do ato médico, que envolve não apenas dados objetivos, mas também interpretação contextual, escuta ativa e empatia”, afirmou o bastonário, à Lusa.
O bastonário acrescentou que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de apoio à decisão clínica e não como agente autónomo de diagnóstico. Carlos Cortes insiste que as ferramentas de IA não estão habilitadas a fazer diagnósticos, pois faltam “evidência científica robusta, mecanismos de validação rigorosos, e sobretudo, transparência algorítmica que permita aos médicos compreender e confiar nas decisões sugeridas”.



