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Irão. Entre ter de reabrir o Estreito de Ormuz e as críticas dos "falcões" republicanos, "Trump não consegue ganhar politicamente"

Trump traçou quatro objetivos para a guerra, mas negociações foram feitas em torno da reabertura de Ormuz. Nuclear e prioridade de Israel e dos republicanos foram deixados para fase posterior.

Madalena Moreira
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6 de março de 2026. A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irão ainda não tinha cumprido uma semana, quando Donald Trump recorreu às redes sociais para impor os termos de um possível fim do conflito. “Não vai haver acordo com o Irão a não ser que haja uma RENDIÇÃO INCONDICIONAL!”, escreveu o Presidente norte-americano nas redes sociais. Cerca de um mês depois, Washington e Teerão chegaram a um acordo para uma trégua que suspendeu os ataques mútuos e, agora, a consolidação de um cessar-fogo parece estar mais perto do que nunca.

“Achámos que podíamos ter tido algumas novidades ontem à noite [domingo]”, declarou Marco Rubio esta segunda-feira, de visita a Nova Deli. “Talvez hoje [segunda-feira]”, rematou o secretário de Estado. As declarações públicas dos responsáveis norte-americanos — e anónimas, citadas pela imprensa — desenham um acordo de paz iminente, uma realidade contudo desmentida, também esta segunda-feira, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão.

“É correto dizer que chegámos a uma conclusão numa grande parte dos assuntos em discussão. Mas dizer que a assinatura de um acordo está iminente — ninguém pode dizer isso“, argumentou o porta-voz iraniano, Esmail Baghaei. Na verdade, ambos os diplomatas podem ter razão e o desacordo pode ser uma questão meramente linguística. Isto porque, segundo as fontes das duas partes citadas pela imprensa internacional, o que está a ser discutido não é um acordo de paz, mas um “memorando de entendimento”, um documento que estabelece os pilares, mas não os detalhes desse mesmo acordo.

"Isto é o que acontece quando uma guerra opcional mal concebida se transforma numa 'paz' por necessidade, altamente imperfeita. Os objetivos de guerra originais e irrealizáveis foram abandonados e agora há pouca margem de manobra para garantir o que realmente importa — conter a capacidade nuclear do Irão e manter os estreitos permanentemente abertos."
Aaron David Miller, antigo negociador de administrações norte-americanas no Médio Oriente e analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace

Subtilezas linguísticas e prazos incertos à parte — estes dois detalhes têm marcado as semanas de negociações —, a verdade é que os diálogos parecem estar a ser mais produtivos. Contudo, os resultados desses mesmos diálogos parecem estar muito longe da “rendição incondicional” que Trump exigia ao Irão no início de março. Quase três meses depois, as conversações foram feitas em volta não da rendição do Irão, mas da reabertura do Estreito de Ormuz. Analistas, críticos e aliados de Donald Trump identificam nesta concessão um mesmo problema: o facto de deixar o Irão numa posição geoestratégica favorável.

“Isto é o que acontece quando uma guerra opcional mal concebida se transforma numa ‘paz’ por necessidade, altamente imperfeita. Os objetivos de guerra originais e irrealizáveis foram abandonados e agora há pouca margem de manobra para garantir o que realmente importa — conter a capacidade nuclear do Irão e manter os estreitos permanentemente abertos”, critica Aaron David Miller, antigo negociador de administrações norte-americanas no Médio Oriente e analista no think tank Carnegie Endowment for International Peace ao New York Times.

Um acordo “sólido” — e que deixa por cumprir os objetivos da guerra

Um acordo “sólido”, “grande”, “significativo”. Foram estas as palavras utilizadas por Trump e Rubio ao longo desta segunda-feira para descrever um possível acordo com o Irão. Apesar de não haver qualquer confirmação oficial sobre os detalhes deste memorando, as informações avançadas pela imprensa internacional permitem traçar um entendimento faseado, marcado numa primeira fase, com a duração de 30 dias, com a reabertura do Estreito de Ormuz, e na segunda fase, com a duração de 60 dias, com a discussão, de forma aprofundada, da questão nuclear.

O Presidente e o secretário de Estado procuraram retratar este acordo como uma vitória para os Estados Unidos. “[O acordo] será exatamente o oposto do desastre do JCPOA, negociado pela fracassada Administração Obama, que foi um caminho aberto e direto para uma Arma Nuclear para o Irão”, argumentou Trump na Truth Social, referindo-se ao Plano de Ação Conjunta Global (“Joint Comprehensive Plan of Action“, no original), o plano nuclear assinado entre EUA, Irão, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha em 2015, que a primeira administração Trump abandonou em 2018.

O foco de Trump na questão nuclear vai ao encontro dos quatro objetivos concretos que a sua administração traçou publicamente para a “Operação Fúria Épica”: a destruição do programa de mísseis balísticos do Irão, a destruição da sua Marinha, o fim da sua capacidade de apoiar grupos armados alinhados e o bloqueio de uma arma nuclear. Porém, comparando estes objetivos com o que deverá estar no memorando de entendimento, é possível ver uma grande distância.

O “problema” que é abordado mais diretamente é, efetivamente, o do programa nuclear do Irão. Mas isso não quer dizer que tenha sido resolvido. Um responsável norte-americano, ouvido pelo New York Times, sublinhou que o memorando não contém qualquer prazo limite para as negociações nucleares, uma vez que a fase de discussão pode ser prolongada repetidas vezes. O Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reafirmou que Teerão não procura uma arma nuclear, mas os ataques israelo-americanos também não destruíram os quase 500 quilos de urânio enriquecido a níveis próximos do necessário para desenvolver uma bomba nuclear — análises de imagens de satélite por meios internacionais mostram que os acessos ficaram bloqueados, mas não “obliterados”. Questionado sobre este tema, Rubio garantiu que o tópico será abordado mais à frente, mas defendeu que “não se pode resolver uma questão nuclear em 72 horas nas costas de um guardanapo”.

A solução dos EUA para os outros objetivos é ainda menos clara. O Axios avança, citando um responsável norte-americano, que o memorando “deixa claro que a guerra entre Israel e Hezbollah no Líbano deve acabar”, mas não apresenta quaisquer detalhes para resolver a origem deste conflito — deixando, portanto, por cumprir o objetivo de pôr fim à rede de proxies do Irão. O memorando parece ainda dar por cumpridos os objetivos de destruição da Marinha e dos mísseis. Mas se os EUA parecem ter diminuído significativamente as capacidades da Marinha iraniana, o programa de mísseis encontra-se na mesma situação que o programa nuclear: soterrado em instalações subterrâneas, mas não obliterado.

Aos objetivos declarados por Washington, pode juntar-se ainda um outro, mais vincado por Benjamin Netanyahu desde a primeira hora: a mudança de regime e a tomada de poder pelo povo iraniano. Segundo avançou o New York Times na semana passada, o plano norte-americano não declarado para substituir a liderança do regime terá caído por terra logo no primeiro dia da ofensiva — e o memorando não parece incluir qualquer referência a uma nova liderança em Teerão.

https://observador.pt/2026/05/20/eua-e-israel-terao-elaborado-um-plano-para-colocar-no-poder-o-ex-presidente-do-irao-mahmoud-ahmadinejad/

Como o Estreito de Ormuz se tornou o centro da guerra — e da paz

Quatro dias depois do início da guerra, Teerão anunciou formalmente que o Estreito de Ormuz se encontrava “encerrado”. A decisão já teria sido prevista pelos estrategas militares quer israelitas quer norte-americanos, nos chamados “jogos de guerra”, mas a pequena passagem marítima entre a Península Arábica e o Irão que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico rapidamente se transformou no palco principal da guerra, com trocas de ataques, anúncios de contra-bloqueios e de missões de patrulhamento que nunca se chegaram a concretizar e uma crise energética à escala global.

Apesar de não haver qualquer referência a Ormuz nos objetivos de guerra, a sua reabertura rapidamente se tornou a pedra de toque da diplomacia. Em declarações aos jornalistas no passado domingo, um responsável norte-americano, que falou sob anonimato, afirmou que esta seria a primeira fase do acordo. Segundo este responsável, o Irão iria reabrir o trânsito no Estreito de Ormuz, de forma gradual, em paralelo com o fim do bloqueio imposto pelos EUA aos portos iranianos. Um outro oficial, ouvido pela Associated Press, acrescentou que, em troca, Washington também iria levantar sanções sobre a venda de petróleo iraniano.

"O Irão entra no período pós-guerra com uma vantagem que não possuía anteriormente, uma vez que o Estreito de Ormuz é agora uma moeda de troca consolidada. O principal risco para os Estados árabes do Golfo é que isto faça com que Teerão se sinta encorajado e, por conseguinte, interessado em tornar-se um incómodo ainda maior — e não menor — para a ordem regional."
H.A. Hellyer, investigador do think tank britânico Royal United Services Institute, especializado em Defesa

Porém, este plano detalhado por fontes norte-americanas contraria uma série de declarações feitas pelo Irão — e mesmo por outros responsáveis dos EUA. É o caso da desminagem de Ormuz, que o responsável que fez o briefing no domingo disse estar incluído no plano, depois de outros oficiais norte-americanos terem afirmado durante a semana passada que nenhuma mina tinha sido encontrada na passagem até agora. Por outro lado, os iranianos insistem que a reabertura do Estreito de Ormuz tem de ser feita em troca do descongelamento dos ativos iranianos nos EUA — uma exigência que, no plano norte-americano, só será cumprida mais tarde.

Além disso, os responsáveis norte-americanos também não fazem referências ao mecanismo de portagens colocado em prática pelo Irão nas últimas semanas, que reivindica agora a sua soberania nacional sobre todo o estreito, incluindo as águas internacionais. Ao abrigo deste sistema, a circulação em Ormuz tem sido feita por países próximos do regime iraniano, ainda que com grandes limitações.

As declarações de responsáveis norte-americanos e iranianos indicam que é o facto de estas exigências continuarem incompatíveis que está a bloquear o memorando de entendimento. Apesar de ambas as partes quererem o mesmo objetivo final — a reabertura de Ormuz — não há acordo sobre o “como”. Ainda assim, mesmo sem acordo, o facto de este estar a ser o ponto de discussão prioritário revela uma grande concessão por parte dos EUA, indicam os especialistas. Ao contrário do que as declarações maximalistas de Trump faziam prever, o Irão é que está a ditar os critérios de negociação.

“O Irão entra no período pós-guerra com uma vantagem que não possuía anteriormente, uma vez que o Estreito de Ormuz é agora uma moeda de troca consolidada”, argumenta H.A. Hellyer ao Wall Street Journal. “O principal risco para os Estados árabes do Golfo é que isto faça com que Teerão se sinta encorajado e, por conseguinte, interessado em tornar-se um incómodo ainda maior — e não menor — para a ordem regional”, alerta o investigador do think tank britânico Royal United Services Institute, especializado em Defesa.

A popularidade em queda com a guerra, as críticas dos aliados à paz

A chegada de Donald Trump (ou dos seus representantes) à mesa das negociações faz-se depois da sua taxa de popularidade ter caído abaixo dos 40%, a seis meses das eleições intercalares. Sondagem atrás de sondagem confirma que a guerra no Irão foi uma medida impopular para a maior parte do eleitorado norte-americano — mas não para os republicanos mais próximos de Trump. Para estes, o erro está não em ter começado uma guerra, mas em terminá-la nos termos atuais. Neste cenário, “vale a pena notar que Trump não consegue ganhar politicamente“, resume o jornalista e analista da CNN Stephen Collinson.

“Se for alcançado um acordo para pôr fim ao conflito com o Irão, com base na convicção de que o Estreito de Ormuz não pode ser protegido do terrorismo iraniano e de que o Irão continua a possuir a capacidade de destruir as principais infraestruturas petrolíferas do Golfo, então o Irão será visto como uma força dominante que exige uma solução diplomática”, argumentou nas redes sociais Lindsey Graham, senador da Carolina do Sul e um dos republicanos que incentivou Trump a agir contra o Irão.

Também nas redes sociais, Ted Cruz, senador do Texas e outro dos “falcões” do Partido Republicano, argumentou que o resultado das negociações “pode ser um erro desastroso”. Isto porque, escreve, Teerão continuaria a ser governado por “islamistas que gritam ‘Morte à América'” e que passariam a receber “milhares de milhões de dólares”, “enriquecer urânio e desenvolver armas nucleares e a ter controlo efetivo do Estreito de Ormuz”. Roger Wicker, senador do Mississípi, resumiu as preocupações desta franja dos republicanos em poucas palavras: “Tudo o que a Operação Fúria Épica conseguiu teria sido em vão!“.

A pressão não é apenas interna, mas também se faz sentir em Israel, cuja proximidade geográfica com o Irão ajuda a explicar os objetivos de guerra mais abrangentes. O líder da oposição, Yair Lapid, acusou Netanyahu de ter aceitado um acordo “mau para Israel, mau para a região, mau para os cidadãos do Irão”, enquanto a imprensa israelita sublinhou como os relatos dos detalhes do memorando não vão ao encontro das declarações públicas feitas quer por Trump, quer por Netanyahu. No entanto, a posição israelita pouca influência terá em Washington, segundo terá confidenciado o próprio primeiro-ministro israelita ao seu círculo interno, em conversas noticiadas pela Reuters.

Apesar de, publicamente, Trump retratar uma vitória dos EUA no Irão, o enquadramento torna o cenário muito mais negro. O Presidente não pode ordenar novos ataques sem prolongar a crise energética e aprofundar, portanto, a sua impopularidade. Mas o acordo com o Irão, nos termos atuais, deixa por cumprir os objetivos que motivaram a guerra e motiva críticas da sua base de apoio mais fiel. A leitura que o antigo negociador Aaron David Miller faz à Reuters desta realidade é particularmente negativa: “Estamos há três meses nisto e parece que uma guerra que foi concebida para ser uma vitória fácil e rápida para Trump está a transformar-se num fracasso estratégico a longo prazo”.