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(A) :: Ex-gerente bancário que torturou e forçou mulher a fazer sexo com cerca de 500 homens condenado a 25 anos de prisão em França

Ex-gerente bancário que torturou e forçou mulher a fazer sexo com cerca de 500 homens condenado a 25 anos de prisão em França

Inspirada pelo caso de Gisèle Pelicot, Laëtitia R. recusou um julgamento à porta fechada e detalhou os abusos que sofreu. Acusado defendeu que relação era consensual, mas júri deu razão à vítima.

António Moura dos Santos
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Agência Lusa
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Um tribunal francês condenou este sábado Guillaume Bucci, ex-gerente bancário de 51 anos, a 25 anos de prisão por violação qualificada, atos de tortura e barbárie, e por explorar sexualmente a sua ex-companheira.

A decorrer desde 18 de maio no tribunal de júri de Digne-les-Bains — na província de Alpes-de-Haute-Provence, no sudeste do país —, o julgamento foi público. A vítima — Laëtitia R., de 42 anos e mãe de quatro filhos — rejeitou o pedido dos advogados de defesa para que decorresse à porta fechada, revelando-se inspirada pelo caso de Gisèle Pelicot.

https://observador.pt/2024/09/04/violada-100-vezes-por-80-homens-a-mando-do-marido-o-caso-de-gisele-pelicot-que-esta-a-chocar-franca/

O júri chegou a um veredito após mais de quatro horas de deliberação, com Laëtitia a irromper num choro aquando da leitura da sentença. Já o arguido, de cabelos grisalhos e bigode fino, mostrou-se inicialmente impassível, mas depois afirmou “lamentar certas coisas” e, já em lágrimas, negou “ser o monstro que descrevem”. “Não pensava estar a fazer mal”, acrescentou.

Apesar da obrigatoriedade imposta a Bucci para cumprir a pena em dois terços antes de poder candidatar-se à liberdade condicional, esta é uma condenação bastante mais ligeira do que a de prisão perpétua que os procuradores queriam, pedida com o pretexto do “risco de reincidência contra outra mulher”.

Entre o rol de atrocidades a que Bucci submeteu a sua ex-companheira foram mencionados no tribunal espancamentos, zoofilia, queimaduras, estrangulamento e escatologia, que decorreram num período entre 2015 e 2022. O réu terá ainda obrigado a vítima a prostituir-se e a manter uma lista de clientes, com Laëtitia a confessar ao tribunal que parou de contar quando chegou aos 487 homens.

Segundo reporta o Le Parisien, Bucci obrigou Laëtitia a lamber sanitas públicas e a beber da sua urina, agredindo-a regularmente com cintos, tábuas de cortar e cabos elétricos. Além disso, o homem de 51 anos submeteu a ex-parceira a privações de sono — permitindo-lhe uma só noite completa de descanso a cada 10 dias — e, ao contrário do que ocorreu no caso Pelicot, manteve-a deliberadamente consciente durante as violações. “Ele disse que eu precisava de perceber o que me estava a acontecer. Lembro-me de tudo”, contou a vítima ao programa Sept à Huit do canal TF1 antes do julgamento.

Não contestando os factos apresentados em tribunal, a estratégia da defesa foi a de alegar que esta se tratava de uma relação sadomasoquista e que a vítima era uma participante voluntária. “Os factos não são contestados, a questão é o consentimento”, argumentou um dos advogados de Bucci, Arnaud Lucien.

Concedendo que seja “difícil compreender que algumas pessoas se possam entregar a estas práticas”, as inúmeras mensagens do casal “demonstram que Laëtitia consentiu”, afirmou a outra advogada, Charlotte Barriol. No entanto, várias das trocas de comunicação entre o casal demonstraram que Bucci ameaçou Laëtitia de morte caso ela não fizesse o que ele mandava, provando a existência de coerção. Além disso, os procuradores frisaram o facto de os dois não terem uma “palavra de segurança” — algo comum nas relações sadomasoquistas para interromper os atos quando uma das duas partes não se sente segura.

O depoimento de Laëtitia também contrariou fortemente a versão da defesa. De acordo com a Agência France-Presse, a vítima admitiu ao tribunal que, ao ver-lhe sugerida a ideia de praticar sadomasoquismo, pensou tratarem-se de “palmadas” ou de “ser amarrada”, acrescentando que Bucci lhe tinha dito que parariam se ela não gostasse.

Todavia, o que aconteceu foi um período de “pura e simples violência”, afirmou Laëtitia, a quem Bucci tratava por “escrava” e que vivia em “medo constante” de que o seu ex-parceiro divulgasse gravações íntimas se ela o deixasse.

Além dos atos de violência, a vítima diz que Bucci começou a pressioná-la a dormir com outros homens até que, na véspera de Natal de 2015, lhe pediu para ir a uma área de serviço na autoestrada e “oferecer-se a estranhos” enquanto ele ouvia pelo telefone. Esse foi o ponto de partida para a prostituição a que foi obrigada durante anos, sendo forçada a fazer sexo com “amigos, colegas e estranhos”.

“Aos poucos, senti que estava a morrer por dentro. A cada ato que me impunham, havia uma parte de mim que se partia para sempre. Não sabia como sair daquela situação. Pensava para mim mesma: se o fizer, talvez me afete menos”, disse em lágrimas. Foi somente em junho de 2022 que a vítima falou pela primeira vez da sua situação a uma amiga, que alertou as autoridades, levando à detenção de Bucci. Hoje reconhecida como portadora de uma deficiência entre os 50% e os 80%, Laëtitia, técnica de farmácia de formação, passou a ter sequelas físicas e fisiológicas permanentes.

O advogado da vítima, Philippe-Henry Honegger, citado pela agência France-Presse, disse que foi a coragem de Gisèle Pelicot, que se tornou uma figura global na luta contra a violência sexual por testemunhar publicamente sobre as violações cometidas pelo seu ex-marido e por dezenas de outros homens num caso célebre, que inspirou a sua cliente a querer contar a sua história.

A condenação por todas as acusações é “uma fonte de satisfação e alívio”, comentou Honegger, afirmando que a sua cliente queria que “as pessoas compreendessem como é que não se consegue deixar este tipo de homem, que as pessoas pudessem ver como é, este tipo de personalidade, estas dinâmicas de casal que são tão destrutivas”.

Este caso sucede-se ao de Gisèle Pelicot, cujo marido, Dominique Pelicot, foi condenado em 2024 a 20 anos de prisão por recrutar desconhecidos para abusarem sexualmente dela enquanto esta se encontrava inconsciente sob o efeito de drogas ministradas por ele. Dezenas dos homens que a violaram também foram condenados a penas de prisão.